Tamo Junto

Os millennials estão obcecados por ter plantas em casa

As plantas geralmente exigem menos atenção do que outros seres vivos, como pets, mas ainda dão a seus donos a sensação de estar nutrindo e cuidando de alguma coisa.

Suculentas. Figueiras. A misteriosa monstera variegata. Pergunte aos “pais” orgulhosos sobre suas coleções de plantas, e eles falarão com tanto entusiasmo que até parecem estar falando de filhos de verdade.

Jennifer Coates, redatora freelancer de 33 anos que vive em Los Angeles, começou a colecionar plantas em casa há exatamente um ano e hoje já acumula mais de 110 delas.

As plantas já viraram uma parte integral de sua rotina diária. Quando ela levanta de manhã, a primeira coisa que faz é ir à sala e iniciar uma tour de 45 minutos, passando por todas as suas plantas.

Antes mesmo de escovar os dentes ou dar comida a seu cachorro, Jennifer inspeciona as folhas de cada planta para detectar sinais de que ela esteja com sede ou ameaçada por pragas. Há uma atenção maior às plantas que precisam de cuidados extras.

Pode parecer extremo, mas Jen é apenas uma entre muitos novos entusiastas que dedicam horas diárias e milhares de dólares ao cultivo de plantas em suas casas. Mas ter plantas não é novidade. Por que, então, esse hobby de repente está atraindo tantos millennials?

Ter plantas em casa adiciona mais vida ao seu lar.
Ter plantas em casa adiciona mais vida ao seu lar.

Tendência das plantas alimentada pelas redes sociais

Segundo a Pesquisa Nacional de Jardinagem de 2019, jardineiros amadores americanos gastaram no ano passado o valor recorde de US$52,3 bilhões no varejo com artigos para jardinagem e cuidados. Um quarto desse valor teria sido gasto por pessoas na faixa dos 18 aos 34 anos, cujas despesas com plantas desde 2014 vêm aumentando mais rapidamente que os de qualquer outra faixa etária.

As plantas cultivadas em casa podem agradecer à mídia social por seu ressurgimento. O Instagram, em especial, virou um dos redutos favoritos dos fanáticos por folhagens.

Foi assim que Jennifer Coates se rendeu à mania.

Sua incapacidade de conservar suas plantas vivas sempre era ironizada por seu marido. Mas um dia, vasculhando o Instagram, ela se deparou com uma foto postada por um fã de plantas. Ela começou a seguir a conta da pessoa, além de várias outras ao longo de um ou dois meses, e o desejo de cultivar uma coleção de plantas se intensificou.

Ela não demorou a mergulhar completamente na cultura das plantas. Não faz muito ela até participou de sua primeira feira local de permuta de plantas. “Foi ali que entendi realmente que essas pessoas que curtem plantas não vivem apenas na internet – são pessoas de verdade. E a comunidade das pessoas que curtem plantas é enorme.”

Uma dessas pessoas é Jake Berkowitz, 39 anos, que ajudou a organizar a feira de permuta em Los Angeles. Celebridade local entre os amantes de plantas, Berkowitz é altamente ativo na comunidade e membro de organizações como a Sociedade de Cactos e Suculentas de Los Angeles e o Arboreto do Condado de Los Angeles.

Em seu apartamento em East Hollywood ele tem nada menos que 400 plantas em vasos, muitas das quais ocupam um jardim de inverno, com controles precisos de temperatura e umidade. Ele mantém a conta de Instagram @keepyourplantson_la, com quase 25 mil seguidores. Como trabalha em sua própria casa para uma empresa de tecnologia, ele consegue passar várias horas por dia cuidando de seu jardim dentro de casa.

“Comecei cuidando de plantas aos poucos, e depois virou uma espécie de bola de neve”, disse Berkowitz, explicando que a onda atual se deve tanto às próprias plantas quanto às redes sociais. “Na década de 1980 não existia essa facilidade para os colecionadores se comunicarem e compartilharem suas coleções, sem falar no acesso aos conhecimentos de pessoas com mais experiência e para a troca de dicas com outros colecionadores.”

Plantas em casa: Mais do que um simples modismo

Embora a mania de cuidar de plantas possa parecer um mero modismo das redes sociais, a geração Y está decidida a prolongar esse caso de amor.

Muita gente sabe que os millennials andam adiando várias decisões importantes na vida como a compra da casa própria, o casamento e ter filhos, e o estão fazendo principalmente por motivos financeiros.

“As pessoas têm um instinto natural de formar vínculos e criar filhos, mas, com mais millennials adiando o momento de fincar raízes e ter filhos, as pessoas jovens estão optando por cuidar de plantas”, explicou Lily Ewing, terapeuta de Seattle que também é millennial e adora cuidar de plantas. Segundo ela, as plantas geralmente exigem menos atenção do que outros seres vivos, como pets, mas ainda dão a seus donos a sensação de estar nutrindo e cuidando de alguma coisa. As plantas podem dar às pessoas uma sensação maior de realização e de objetivo na vida.

“Há algo de simplesmente incrível em ter um organismo vivo que no começo talvez só tenha um ou duas folhas e apenas alguns centímetros de altura. Você o posiciona perto de uma janela para que receba um pouco de luz, o rega um pouquinho e ele literalmente se transforma em outra coisa diante de seus olhos”, disse Berkowitz.

Sem falar que as pessoas que curtem plantas não precisam se preocupar em respeitar as exigências de locatários em relação a criar pets em casa, nem em arrumar alguém que cuide delas quando saem de férias. E um filodendro amado nunca vai rabiscar as paredes com giz de cera nem fazer xixi sobre o tapete.

O amor dos millennials pelas suas plantas caseiras também está ligado aos movimentos de wellness (bem-estar) e do autocuidado. Conhecidos como a “geração do wellness”, os millennials não hesitam em gastar com coisas que vão desde aulas de fitness personalizadas até roupas de athleisure. Logo, faz sentido que eles abracem os benefícios físicos e mentais proporcionados pelas plantas.

“A razão principal por que eu curto plantas é que elas me trazem tranquilidade e paz”, disse Jennifer. Antes de ter plantas, ela costumava começar cada manhã pegando seu telefone e checando seus e-mails, às vezes antes mesmo de sair da cama. “Agora posso fazer outra coisa que não seja trabalho nem ficar olhando fixamente para uma tela, e eu aprecio todos os pequenos detalhes”, ela contou. “Uma coisa que se diz sempre na comunidade dos cuidadores de plantas é que as plantas são uma terapia mais barata.”

Lily concorda. “Quando as pessoas têm plantas em casa ou no escritório, elas levam um pouco da natureza para seu ambiente, mesmo que tenham dificuldade em escapar do dia a dia corrido e sair para o ar livre”, ela comentou.

Uma comunidade de amantes de plantas como você

Talvez o maior benefício de se colecionar plantas é a comunidade incrivelmente ativa e solidária que existe nos bastidores.

Naomi Painter, 37 anos, é terapeuta de saúde mental em Portland, Oregon, e começou a colecionar plantas no início de 2017, quando perdeu o emprego. “De repente, ninguém precisava de mim. Foi horrível”, ela contou. Um dia ela entrou numa floricultura para comprar flores para se consolar. Foi quando ela viu uma planta conhecida como pedra viva (do gênero Lithops) – uma suculenta incomum que se assemelha a uma pedra – e resolveu levá-la para casa.

Quando começou a acumular mais algumas plantas, Naomi se voltou ao Instagram para entrar em contato com outros colecionadores, buscar informações sobre como cuidar das plantas e postar algumas fotos próprias. Em pouco tempo as plantas já estavam dominando seu feed pessoal.

“Foi como decifrar um código ou aprender uma língua nova”, ela comentou. Ela acabou criando uma conta separada de Instagram chamada @NaomiPlanter. Ela postava uma foto de planta por dia, com informações sobre onde a conseguiu e como cuidava da planta. Após um ano de posts, Naomi já acumulava mais de 35 mil seguidores.

“Eu não sabia que tinha algo para oferecer a alguém”, disse Naomi. “Não sou botânica. Não possuo uma estufa. Sou apenas uma pessoa comum que tem algumas plantas em casa.” O que ela descobriu é que há muitas pessoas comuns com plantas em casa que querem se comunicar. Naomi conta que recebe de 30 a 50 comentários e mensagens por dia no Instagram e responde a todos.

“Você acaba conhecendo gente”, ela disse. “Fico sabendo quem está se separando do marido, a melhor amiga de quem acaba de falecer, quem está se casando.. Você fica conhecendo pessoas de todo o mundo e vocês todos ficam amigos.”

Além dos contatos feitos nas redes sociais, envolver-se na comunidade dos amantes de plantas também traz inúmeras oportunidades para conhecer pessoas cara a cara. Além das feiras de permuta de plantas, há feiras que os entusiastas de variedades específicas podem frequentar ao longo do ano. Na última semana de setembro passado, milhares de amantes de plantas foram a Miami para a International Aroid Society Show and Sale (feira internacional de aráceas – a ordem à qual pertence o lírio-da-paz, por exemplo), batizado pela comunidade de “o festival Coachella das plantas”.

É claro que o hobby de colecionar plantas também pode ter um lado sombrio. Algumas pessoas ficam tão envolvidas em procurar espécies raras que acabam inchando suas coleções demais e gastando mais dinheiro do que realisticamente poderiam. Como ocorre com qualquer tipo de coleção, as pessoas podem exagerar na dose e chegar a comprometer sua qualidade de vida.

“Parece que sempre há uma planta que é ‘aquela’, a que é imprescindível ter”, comentou Berkowitz. Ultimamente essa tem sido a monstera variegata, uma variedade cobiçada da monstera deliciosa (ou costela de adão) que tem folhas belíssimas matizadas. “Nos últimos meses, vi essas monsteras variegatas vendidas por US$ 200, depois US$ 300 e até US$ 500. Agora o preço de uma está chegando a US$ 750 ou até US$ 1.000.”

Naomi destacou que colecionar qualquer coisa pode virar uma obsessão se a pessoa não toma cuidado. E, devido à natureza visual das redes sociais, especialmente o Instagram, é muito fácil as pessoas se fascinarem pelo que outras pessoas possuem. Mas você nem sempre sabe como é o outro lado da vida dessas pessoas quando não estão diante das câmeras.

“Pense em sua vida e seu ambiente quando estiver colecionando plantas”, ela recomendou. “Se você vê plantas de outras pessoas que acha muito lindas, curta-as no Instagram; simples assim.”

Mas em última análise a obsessão dos millennials por cuidar de plantas em casa é uma coisa sadia. Esse hábito incentiva a paciência e o cuidar de outro ser vivo. Além disso, fomenta um clima de comunidade em um mundo onde as pessoas podem facilmente se sentir isoladas.

“Mesmo que eu me livrasse de todas minhas plantas amanhã, ainda teria esses amigos bacanas que conheci, pessoas que de outro modo eu jamais teria conhecido”, conclui Naomi. “Eu me surpreendo todos os dias ao ver como as pessoas se apoiam umas às outras. Acho que, se existe um lugar positivo no Instagram, eu o encontrei.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.