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06/06/2020 12:08 -03 | Atualizado 08/06/2020 20:42 -03

Entenda por que o plano de flexibilização de São Paulo confronta a ciência

Um município pode dobrar o número de óbitos em uma semana e, mesmo assim, permanecer na fase que permite shoppings abertos, alertam pesquisadores.

Estado que confirmou tanto o primeiro caso de contaminação como a primeira morte pelo novo coronavírus no Brasil – e que ainda lidera o trágico ranking no País –, São Paulo começou na última semana a flexibilizar medidas de isolamento social em alguns municípios. Embora o governador João Doria (PSDB) afirme que o plano anunciado em 27 de maio é baseado em evidências científicas, pesquisadores apontam falhas nos critérios adotados para determinar em qual das 5 fases as cidades se encontram.

Na fase mais rígida, a vermelha, os estabelecimentos permanecem fechados. A seguinte, laranja, permite a abertura de parte do comércio, incluindo shoppings, com horário reduzido. A terceira, amarela, libera bares, restaurantes e salões de beleza. Todas as cidades paulistas foram classificadas nesses três níveis, de acordo com a ocupação dos leitos de unidades de terapia intensiva (UTI) e a evolução dos casos confirmados da doença.

Uma análise feita pelo grupo Covid-19 Brasil, que reúne cientistas de várias universidades brasileiras, além de centros de pesquisa como a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, rebate ponto a ponto os argumentos do governo tucano.

“Essas explicações são uma tentativa do governo de procurar uma sustentação e manter esse marketing de que fazem as coisas baseadas em ciência e estão tomando as providências adequadas. Mas, na verdade, todo critério adotado é para privilegiar o comércio e não a saúde da população. Esse plano não tem nada a ver com saúde pública. É um plano de sacrifício da população”, afirmou ao HuffPost um dos integrantes do grupo, Domingos Alves, professor do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo).

A previsão dos pesquisadores é que os municípios que reduzirem o distanciamento social podem ter um aumento de 150% no número de infectados e mortos pelo novo coronavírus em dez dias. Ao reduzir o isolamento de 50% para 20%, a curva de contágio volta a crescer quase constantemente durante 20 dias, com uma tendência de crescimento que pode atingir o mesmo patamar que no início da pandemia, 3 meses atrás.

A projeção é feita com base em diferentes estudos. Um deles, com dados da cidade de Blumenau (SC), mostra um crescimento de 244% dos contaminados na cidade entre 13 de abril e 4 de maio, período após a reabertura de lojas comerciais e dos shoppings. 

Um relatório do Imperial College de Londres, com foco específico no Brasil, por sua vez, prevê que, se as intervenções para reduzir a circulação de pessoas forem ampliadas em 50%, o número diário de infecções diminui em torno de 3 vezes em 15 dias. Por outro lado, se houver um relaxamento em 50%, o número diário de infecções aumentaria em torno de 11 vezes no mesmo período. Outro estudo alemão alerta que a contenção do surto é muito mais lenta do que sua expansão, mesmo com medidas contundentes do poder público.

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Os municípios que reduzirem o distanciamento social podem ter um aumento de 150% no número de infectados e mortos pelo novo coronavírus em dez dias.

Veja como o plano apresentado por Doria não encontra respaldo científico.

1) Curva de contágio achatada

Um dos argumentos apresentado no plano de flexibilização é um achatamento da curva de contágio em São Paulo. Para os pesquisadores, apesar de ser possível observar uma taxa de aceleração ligeiramente menor no estado do que a do Brasil, a taxa ainda é positiva, diferindo do padrão internacional.

“Países como Espanha, Suíça e França experimentaram uma taxa de aceleração muito alta no início, mas agora têm um comportamento de desaceleração. Os casos confirmados estão diminuindo e a epidemia está desacelerando na maioria dos países. As exceções são Brasil, Irã, Índia, Rússia e Austrália”, diz a nota. A partir do 54º dia, o Brasil é o país com a maior taxa de crescimento de casos confirmados. 

2) São Paulo x Brasil

O governo tucano também argumentou que caiu a participação de São Paulo no número de casos e mortes por coronavírus no Brasil. Em 15 de março eram 68% dos casos, indicador que caiu para 22% em 25 de maio. Quanto à participação no total de óbitos, passou de 68% em 1º de abril para 26% em 25 de maio. 

A mudança, contudo, se deve à evolução da epidemia no Brasil. No início, a transmissão comunitária foi identificada apenas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ao longo dos meses, a transmissão do vírus atingiu todos estados e a maioria das cidades.

Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde na última quinta-feira (4), 4.222 (75,8%) dos municípios brasileiros registraram casos de covid-19 e 1.821 (32,7%) confirmaram óbitos causados pela doença. Em 28 de março, apenas 297 registravam a presença do vírus.

“O padrão da (preocupante) evolução dos casos em outros estados brasileiros segue sendo observado também em São Paulo”, diz a nota.

3) Critérios para relaxar isolamento

Na análise do Covid-19 Brasil, o governo estadual não estabeleceu quais valores ou tendências os indicadores devem ter para que um município possa pleitear estar em uma das 5 fases estabelecidas. Alguns indicadores são taxa de ocupação de leitos de UTI para covid-19, leitos por 100 mil habitantes e número de casos de internações e de óbitos pela doença.

Para os pesquisadores, qualquer medida de relaxamento precisa observar diminuição do número de infectados consistentemente por semanas para atender ao critério recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) de que a transmissão do vírus esteja controlada. Já o número de óbitos deve parar de crescer por, no mínimo, 2 semanas.

Outra recomendação do grupo é que o número de internações por covid-19 não deve aumentar também por 15 dias e que a taxa de ocupação de leitos não deva crescer de maneira sustentável pelo mesmo período. Esse indicador deve ser medido de forma regionalizada para municípios que são referências regionais de saúde. Também deve ser observada da mesma forma a quantidade de leitos de UTI destinados a pacientes com a doença por 100 mil habitantes. 

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Qualquer medida de relaxamento precisa observar diminuição do número de infectados consistentemente por semanas para atender o critério recomendado pela OMS.

4) Aplicação de testes

O documento apresentado por Doria também não especifica quais protocolos de testagem deverão ser seguidos, nem o volume de exames que serão realizados na população. “O protocolo padrão que tem sido adotado no Brasil é insuficiente para se saber o real número de infectados em cada município”, alerta a nota, em referência à testagem no Brasil estar direcionada quase que exclusivamente para casos graves.

A taxa de testagem nacional é de 8.737 exames por milhão de habitantes, contando testes moleculares e sorológicos já processados, de acordo com dados mais recentes do Ministério da Saúde. Nos Estados Unidos, por exemplo, o indicador é de 37.188 testes por milhão de habitantes.

A maioria do material distribuído pela pasta são os testes rápidos: 7,5 milhões até a última sexta-feira (5). Esse tipo identifica se há anticorpos no corpo. Já os testes moleculares RT-PCR somam apenas 3,1 milhões no mesmo período. Eles detectam a presença do vírus no organismo. São mais precisos, mas também mais caros e demorados para informar o resultado porque passam por análise laboratorial.

A baixa testagem também se reflete na subnotificação. Estudos estimam que o total de contaminados pode ser cerca de 10 vezes superior aos dados oficiais. A grande maioria dos exames moleculares é direcionada a casos graves. O sistema de saúde tampouco tem sido eficaz em fazer uma busca ativa para acompanhar os contatos próximos de infectados. 

“A despeito de dois mapeamentos com ampla testagem realizados para a Cidade de São Paulo darem respectivamente uma taxa de 5,19% e 3,3% de infeção para a população da cidade, segundo as estatísticas oficiais, hoje, dia 29/05/20, apenas 0,46% (55741) da população da cidade de São Paulo e 0,23% da população do Estado (101.556) foi declarada como ‘casos confirmados’”, diz a nota.

Outro dos critérios recomendados pela OMS para flexibilização é que os sistemas de saúde tenham capacidade de detectar, testar, isolar e tratar todas as pessoas com coronavírus e os seus contatos mais próximos.

5) Distribuição dos municípios 

Os pesquisadores ressaltam ainda que a fundamentação científica não foi levada em consideração na avaliação preliminar para a distribuição dos municípios. “Esta distribuição não obedeceu a nenhum critério técnico, nem, inclusive, os indicadores que foram colocados pelo próprio governo do Estado. As evidências que existem até aqui sugerem que a maioria dos municípios e regiões assinalados na cor laranja deveriam estar com a cor vermelha”, diz a nota.

Também deveriam estar na fase vermelha as cidades de Araraquara, São Carlos, Barretos e Botucatu, enquadradas na fase amarela. “A cidade de Botucatu, no 64º dia da epidemia tem mais casos em número absolutos do que o 64º dia observado para a cidade de São Paulo. Araraquara apresenta uma dinâmica semelhante, pior que a dinâmica da cidade de São Paulo”, alertam os pesquisadores.

Um município pode dobrar o número de óbitos ou o número de casos em uma semana e mesmo assim ser avaliado para permanecer na fase laranja, que permite shoppings abertos. “Isso mostra que esses indicadores, da maneira como foram expressos, foram pensados para que esse tipo de comércio permaneça aberto mesmo em face ao crescente dano na população”, diz o texto.

De acordo com o plano, uma cidade pode ter a sua capacidade do sistema de saúde deteriorada e parâmetros da evolução da epidemia satisfatório e mesmo assim ter uma classificação final boa para se manter naquela fase. Seria possível, por exemplo, elevar a ocupação de leitos até perto de 80%, dobrando o número de casos e de óbitos e ainda manter o comércio aberto. “As próprias normas já estão esperando esse desastre. Estão colocando a população como gado”, critica Alves.