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08/04/2020 17:41 -03 | Atualizado 08/04/2020 21:10 -03

Planalto usa frase de Mandetta descontextualizada para defender uso da cloroquina

Mandetta tem feito alertas sobre uso indiscriminado do medicamento. Ele ressalta que o Ministério da Saúde endossa o uso apenas em casos graves.

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República começou uma campanha pelo uso da cloroquina no combate à covid-19 usando uma frase descontextualizada do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O uso indiscriminado do medicamento é um ponto de tensão entre o ministro e o presidente Jair Bolsonaro.

Na peça, o governo diz que “estudos clínicos realizados ao redor do mundo tem mostrado resultados positivos para o uso da cloroquina contra a covid-19”. E acrescenta que o ministro da Saúde “já liberou o uso do medicamento para pacientes críticos e moderados”.

As aspas na imagem dão a entender que a pasta liberou para todos os pacientes internados — “tanto para os pacientes críticos, como para todos os internos em hospitais”. O ministro, no entanto, vem enfatizando que o uso é indicado para pacientes em caso grave e que cabe a cada médico decidir a prescrição.

Nesta terça-feira (7), o ministro afirmou que começaria a analisar a recomendação para uso anterior ao quadro grave.

Por que só caso grave

Um dos motivos pelos quais o medicamento é indicado apenas aos casos graves são seus efeitos colaterais. De acordo com a FioCruz, o medicamento ataca o coração e pode levar à morte. 

Segundo o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE), do Ministério da Saúde, Denizar Vianna de Araújo, quando o uso da cloroquina é feito em ambiente hospitalar “a proteção é maior”, por isso o ministério tomou a decisão de gerar uma política específica para os pacientes graves e críticos da covid-19. “Se o paciente tem indicação de hospitalização, um quadro de falta de ar, indícios de uma pneumonia bilateral e tem critérios de hospitalização, ele já é elegível para usar o medicamento”, explicou.

SERGIO LIMA via Getty Images
Bolsonaro e Mandetta têm divergido em relação ao uso do medicamento. 

O secretário reforça que o medicamento mostrou em estudos preliminares que pode ser favorável nesse tipo de paciente. “Quando pesamos a relação entre risco e benefício, os benefícios superam os riscos porque estamos lidando com paciente e com um potencial de letalidade muito alto. Podemos correr o risco de ter um evento adverso que está sendo monitorado num ambiente hospitalar para tentar favorecer o tratamento”, disse.

Sobre casos leves, que são cerca de 80%, ele afirmou que ainda não são robustas as evidências para tomar uma a decisão de política de saúde. “Vamos recomendar no momento em que tivermos evidências, que estão sendo geradas inclusive em estudos brasileiros”, afirmou Denizar Vianna.

Briga política

Nesta quarta (8), o ministro minimizou o embate político em torno da cloroquina. “Preciso que todos tenhamos maturidade, visão, foco, disciplina para que a gente possa atravessar esse momento. O presidente da República em nenhum momento fez qualquer imposição para mim [para uso da cloroquina]”, disse.

Segundo ele, o presidente entende que se há chance melhor para esse ou aquele paciente que a gente possa garantir o medicamento. “Mas também entende quando a gente coloca uma situação que pode ser complexa, que a gente precisa que os conselhos [de profissionais da saúde] analisem [para liberar o uso amplo].”

Nesta terça, Mandetta esclareceu que o Ministério da Saúde já liberou médicos para receitarem o uso em casos moderados e graves. Para casos leves, a pasta ainda aguarda evidências científicas.

“Se ele [médico] quiser comunicar o paciente dele, ‘não tenho nenhuma evidência, acho que poderia usar medicado com tal risco’ e se responsabilizar individualmente, nada tem de óbice [impedimento]”, disse. “Para que nós possamos no Ministério da Saúde dizer que se recomenda [amplamente], precisamos de um pouco mais de tempo para saber se isso pode se confirmar numa coisa boa ou ter efeito colateral. Não é questão de gostar de A, B ou C. É simplesmente analisar com um pouco mais de luz”, completou o democrata.

A pasta informou que acompanha 9 ensaios clínicos sobre tratamento de pacientes com covid-19 envolvendo mais de 100 centros de pesquisas, como universidades e hospitais, e 5 mil pacientes. A expectativa é que resultados preliminares sejam divulgados a partir de 20 de abril, o que pode permitir uma ampliação do uso de medicamentos.