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20/06/2020 06:00 -03

Prisão de Queiroz leva fantasma da corrupção para dentro do Planalto e silencia bolsonarismo

Apoiadores demonstram frustração por tentativa do presidente de blindar Flávio Bolsonaro em investigação. “Brasil acima de todos e família acima de tudo”, ironiza eleitora.

Os estragos da prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), detido na casa de Frederick Wassef, um dos advogados da família Bolsonaro, já atingem a militância bolsonarista.

O fato de o escândalo do Caso Queiroz ter emergido e desta vez dentro do Palácio do Planalto mostra que o fantasma da corrupção está cada vez mais próximo de manchar a bandeira do governo de não tolerar ilícitos ― como acusa governos anteriores de ter feito. O entendimento entre especialistas e ex-aliados do presidente Jair Bolsonaro é de que haverá desgaste e perda de confiança.

Autora de pesquisa qualitativa sobre crise no bolsonarismo publicada pela Fundação Friedrich Ebert Brasil no início deste mês, a cientista política Camila Rocha avalia que o impacto ocorrerá especialmente entre os eleitores considerados “apoiadores críticos”. Esses, segundo a pesquisadora, “são aqueles que dizem ‘não colocar a mão no fogo por Bolsonaro’ e que se preocupam com o que percebem como uma intenção do presidente de proteger os filhos a qualquer custo”.

Ela acredita ainda que o caso pode “reforçar o sentimento de decepção de eleitores que já estão muito frustrados com a atuação do presidente”. Como exemplo, a especialista cita trecho de uma entrevista que fez para a pesquisa. “Uma fala bastante representativa nesse sentido é de uma entrevistada que afirmou que o lema de Bolsonaro deveria ser: ‘Brasil acima de todos e família acima de tudo’.”

A declaração da entrevistada veio na esteira da demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça. O ex-juiz ganhou os holofotes nacionais após protagonismo na Operação Lava Jato, que desvendou o maior escândalo de corrupção do País. Ao deixar o governo Bolsonaro, o ex-ministro mostrou incômodo com as atitudes do presidente para proteger a família e seus amigos. “Eu não vou esperar foder a minha família toda”, disse Bolsonaro em reunião ministerial de 22 de abril ao defender troca no comando da Polícia Federal. 

Rocha ressalta tendências identificadas pelo professor de Gestão de Políticas Públicas da USP (Universidade de São Paulo) Pablo Ortellado, que acompanha grupos bolsonaristas nas redes sociais. A prisão de Queiroz já pode ter gerado impacto significativo, pois foram raras as tentativas de defender e/ou exaltar o governo em face do ocorrido; o que se notou foi um “silêncio” nos grupos.

“Isso condiz com as pesquisas que tenho conduzido com a professora Esther Solano nos últimos anos com eleitores de Bolsonaro, na medida em que a luta contra a corrupção é um dos pilares de sustentação do bolsonarismo, e, em nossa pesquisa mais recente, era um consenso entre os entrevistados de que as denúncias de corrupção, associadas sobretudo ao filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, eram preocupantes, especialmente tendo em vista a possível interferência de Bolsonaro nas investigações”, disse a cientista política.

NurPhoto via Getty Images
Interferência de Jair Bolsonaro na tentativa de proteger os filhos é malvista por apoiadores do presidente.

Após o ressurgimento do Caso Queiroz, os ânimos baixaram até mesmo entre os mais aguerridos bolsonaristas. Nem mesmo os filhos do presidente Eduardo e Carlos, que costumam ter agilidade e assertividade na defesa do governo, se manifestaram sobre o assunto. Também não houve a comum guerra de hashtags. A arena entre os assuntos mais comentados após a prisão de Queiroz foi dominada pela oposição e por críticos. 

Ex-aliada do presidente e ex-nome forte do bolsonarismo, a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) vê o caso como um marco no recuo do governo no combate à corrupção. Na análise dela, a impressão é que “o presidente, na condição de pai, fica muito dividido entre o filho e o governo”.

Ainda segundo a parlamentar, o fato de Queiroz ter se abrigado na casa de Wassef foi uma “péssima ideia” e levou o caso para perto do presidente, já que o advogado gostava de propagar sua proximidade com os Bolsonaro e foi flagrado diversas vezes entrando no Palácio do Planalto. “É uma sucessão de trapalhadas que fica até difícil de acreditar”, disse a deputada à CNN.

Em live no Instagram, a deputada ressaltou a gravidade da situação. Ela argumenta que “rachadinha”, como é chamada a prática de entregar parte do salário ao parlamentar, é desvio de dinheiro público. “Se o senador renunciasse para cuidar da sua defesa, ajudaria o governo do pai”, avalia. 

Queiroz é acusado de operar o esquema de “rachadinha” dentro da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), na época em que era funcionário do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro.

Na decisão que determinou a prisão de Queiroz, o juiz Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau identificou pelo menos um depósito em dinheiro feito pelo ex-assessor em favor da esposa do então deputado. Foram listadas também dezenas de depósitos fracionados em espécie na conta do parlamentar e o pagamento de plano de saúde e mensalidades escolares das filhas do casal pelo operador financeiro. A investigação é conduzida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.

Combate à corrupção é uma das principais bandeiras do bolsonarismo e é geralmente entoada por sua militância ao criticar governos anteriores. Em novembro de 2015, pouco antes da queda do governo da então presidente Dilma Rousseff, pela primeira vez a corrupção foi elencada como principal problema do País.

Em seu plano de governo, Bolsonaro prometia “livrar o Brasil” desse “mal”. “O Brasil precisa se libertar dos corruptos. O povo brasileiro precisa ser livre de VERDADE!”, dizia trecho do programa. Alegava ainda que a corrupção foi responsável por minar valores da nação e da família. “Tolerância ZERO com o crime, com a corrupção e com os privilégios”, assegurava.