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29/10/2020 16:11 -03

Casos semanais de covid-19 aumentam no Brasil após 4 semanas de queda

Ministério da Saúde minimiza cenário epidemiológico e não responde quando alcançará meta de mais de 40 milhões de testes.

Após 4 quedas semanais consecutivas, o número de casos de covid-19 confirmados voltou a subir no Brasil. Foram 156.273 registros na semana encerrada em 24 de outubro, 10% a mais em relação aos 121.725 da semana anterior. Os números foram divulgados em boletim epidemiológico do Ministério da Saúde nesta quinta-feira (29). Na análise por região, a piora foi mais grave no Norte (35%), seguida por Sul (21%), Centro-Oeste (11%), Sudeste (4%) e Nordeste (2%). 

Já o número de mortes na última semana analisada foi de 3.228, uma queda de 7% na comparação com os 3.477 da semana anterior. No Nordeste, a redução foi de 14%, seguida pelo Centro-Oeste, com queda de 15%, e 1% de recuo no Sudeste. No Sul, as mortes subiram 9% e no Norte, o acréscimo foi de 14%.

Questionado sobre a piora do cenário epidemiológico, o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Medeiros, atribuiu os números a uma “atualização de registros de óbitos que aconteceram em semanas anteriores”. “Quando avaliamos o quantitativo de casos que tínhamos por volta da 22ª semana epidemiológica [encerrada em 30 de maio] para a quantidade de casos que temos tido a cada semana epidemiológica, provavelmente  a partir da 33ª ou 34ª [encerrada em 22 de agosto], esses óbitos semanais vêm diminuindo de maneira bastante consistente”, afirmou em coletiva de imprensa.

Nos dados acumulados desde o início da epidemia, são 158.456 mortes causadas pelo novo coronavírus e 5.468.270 de diagnósticos confirmados. Na comparação internacional, o Brasil é o segundo país com mais vítimas fatais, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins, atrás apenas dos Estados Unidos.

Quanto ao número de casos, está em terceiro lugar, atrás da Índia (8 milhões) e dos norte-americanos (8,8 milhões). Há diferenças entre as taxas de testagem dos 3 países, o que evidencia a subnotificação

Ao considerar a população de cada nação, o Brasil ocupa a 6ª posição em relação aos óbitos de acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde). São 743,07 mortes por milhão de habitantes. 

O novo coronavírus já causou mais de 1,1 milhão de mortes no mundo. São cerca de 44,7 milhões de casos confirmados, de acordo com dados da Universidade de Hopkins, atualizados nesta quinta.

Síndrome Respiratória Aguda Grave

Segundo os dados do Ministério da Saúde, dos 851.547 casos de SRAG Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG), hospitalizados em 2020, 455.062 (54,1%) foram confirmados para covid-19, 297.266 (35,3%) classificados como SRAG não especificada, 80.954 (9,6%) estão com investigação em andamento e o restante foi causado por outros patógenos.

Já dos 219.212 óbitos por SRAG neste ano, 153.621 (70,1%) foram confirmados para covid-19, 61.997 (28,3%) foram classificados como SRAG não especificada, 2.407 (1,1%) estão com investigação em andamento e o restante foi causado por outros agentes etiológicos. 

Sobre o perfil das vítimas da epidemia, 99.220 (64,6%) apresentam pelo menos um fator de risco, como cardiopatia ou diabetes, 58% são do sexo masculino e a faixa etária mais acometida é acima dos 60 anos (73,5%). A raça/cor parda é a mais frequente entre os óbitos por covid-19 (37%), seguida da branca (33,8%), preta (5,5%), amarela (1,1%) e indígena (0,4%). Outros 22,1% registros não tinham essa informação.

Anadolu Agency via Getty Images
Nos dados acumulados desde o início da epidemia, são 158.456 mortes causadas pelo novo coronavírus e 5.468.270 de diagnósticos confirmados.

Subnotificação da pandemia

Há um atraso entre o dia em que a morte ocorreu e o dia em que essa informação foi confirmada em laboratório que pode ser superior a um mês. Como o HuffPost vem noticiando, a lentidão no processamento de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa da morte quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso nos dados oficiais.

Há uma subnotificação de casos confirmados ainda maior devido à limitação de testes de diagnóstico. Na prática, o exame tem sido direcionado apenas aos casos graves. A baixa testagem é um dos entraves apontados por sanitaristas para a flexibilização do isolamento social. 

No final de junho, o ministério anunciou que a notificação de casos do novo coronavírus poderia ser feita pelo médico apenas por critérios clínicos, sem esperar o resultado laboratorial. Na prática, a mudança pode ser um incentivo a menos para aplicação de testes RT-PCR (moleculares), forma mais precisa de diagnóstico.

Segundo boletim divulgado nesta quinta, foram distribuídas 7.953.808 reações de RT-PCR (testes moleculares) e 4.807.249 foram analisados pelos laboratórios públicos. Nesse grupo, a taxa de positividade foi de 29,9%. Outros 3.618.162 exames desse tipo foram feitos na rede particular, sendo 38,1% positivos.

Além desse exame, considerado padrão ouro, foram aplicados 181.035 testes sorológicos do tipo ECLIA e ELISA. São o tipo mais preciso para identificar a presença de anticorpos e tiveram 42,1% de positividade. Outros 9.152.222 testes rápidos para detecção de anticorpos foram usados - sendo 37,1% positivos - além de 816.510 testes rápidos para identificar antígenos, com 37,1% de positividade.

No total, os testes somam 18.575.178 e a taxa de positividade foi de 42,9%. A OMS recomenda que o indicador esteja em torno de 5%, para que a epidemia seja considerada controlada. 

Rede de vigilância epidemiológica 

Questionado sobre quando o Brasil atingirá a meta de 42 milhões de testes anunciados pelo governo federal, o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Medeiros, não apresentou uma data e disse que “o teste é uma solicitação do prescritor”. “Nossa perspectiva é de continuar testando a população brasileira e garantir que nas nossas unidades básicas onde são coletada as amostras e nos nosso LACENs [laboratórios estaduais] não faltem kits de amplificação para que os testes possam ser realizados”, afirmou em coletiva de imprensa. 

A baixa testagem é uma das principais críticas à condução do enfrentamento da epidemia no Brasil. Nesta quinta, a pasta fez uma série de promessas para melhorar a rede de vigilância. Segundo Arnado Medeiros, o orçamento para as ações já está garantido.

O governo promete ampliar de 55 apara 129 os Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVs), por meio de R$ 160 milhões; implementar um programa de treinamento em epidemiologia de campo no valor de R$ 156 milhões; ampliar de 238 para 675 unidades a Rede Nacional de Vigilância Epidemiológica Hospitalar, ao custo de R$ 230 milhões; e aumentar de  238 para 367 as unidades de Vigilância Sentinela de Síndromes Respiratórias, com R$ 88 milhões.

O ministério também promete investir R$ 88,3 milhões nos serviços de imunização. Desse montante, R$ 26 milhões foram transferidos para estados e municípios, segundo a pasta, e outros R$ 62,3 milhões são recursos para equipamentos em processo de transferência. 

O Ministério da Saúde não respondeu a questionamentos sobre a incorporação de vacinas contra  a covid-19 ao SUS (sistema único de saúde), por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI). 

O governo federal já fechou outras duas estratégias de acesso a imunizantes. O acordo com a farmacêutica britânica AstraZeneca, responsável pelo produto desenvolvido pela Universidade de Oxford, prevê acesso a 100,4 milhões de doses para o primeiro semestre e insumos que permitirão a produção de outras 110 milhões de doses no segundo semestre de 2021, por Bio-Manguinhos, laboratório da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Já a Covax-Facility garantiria outras 42 milhões de doses. A iniciativa global funciona como uma coalizão em que os países participantes dividem o risco de investimento tecnológico e apostam em várias iniciativas de imunizantes. Em troca, podem ter acesso à vacina que se provar segura e eficaz. 

Na semana passada, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, voltou atrás sobre a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, em meio à disputa política entre o governador de São Paulo, João Doria, e o presidente Jair Bolsonaro. Todas vacinas para covid-10 ainda estão em fase de testes e nenhuma teve eficácia comprovada cientificamente até agora. Essa etapa é necessária para o registro e distribuição das doses.