ENTRETENIMENTO
25/04/2019 09:00 -03 | Atualizado 25/04/2019 09:00 -03

O piloto original e terrível de 'Game of Thrones' que nunca chegou a ir ao ar

Fomos a uma pequena biblioteca no Texas para encontrar o roteiro.

LENA VARGAS AFANASIEVA FOR HUFFPOST
Você vai se surpreender com o piloto original de GoT.

“Uma das experiências mais dolorosas de minha vida.”

Foi assim que David Benioff descreveu como foi assistir a uma sessão experimental montada por amigos do piloto original de Game of Thrones criado por ele e Dan Weiss em 2010. Depois daquela sessão, mais de 90% do episódio teria sido refilmado antes de ir ao ar na HBO em abril de 2011 e acabar por desencadear o fenômeno que é GoT hoje.

Mas aquele primeiro piloto terrível, horrível, muito ruim – descrito por Craig Mazin, um amigo dos criadores da série, como “uma merda” – nunca chegou à luz do dia. Virou uma lenda, algo que só poderia existir na imaginação de alguns. Ou pelo menos era isso que pensávamos.

Um fato frequentemente esquecido é que George R.R. Martin, cuja série de romances Crônica de Gelo e Fogo inspirou GoT, há mais de 20 anos vem deixando cópias antigas de seus textos na Biblioteca Memorial Cushing da Universidade Texas A&M. Consta que ele teria se apaixonado pelo acervo de ficção científica da biblioteca e seu sistema arquival nas vezes em que foi à convenção de ficção científica AggieCon, começando na década de 1970. Ele resolveu fazer do local o “lar” de seu catálogo imenso de manuscritos originais.

A coleção resultante na biblioteca, tão grande que deixa Samwell Tarly atônito, ocupa múltiplas paredes, a primeira das quais é conhecida justamente como A Parede. Há uma equipe dedicada de bibliotecários e professores responsáveis pela coleção, um pouco como se fosse uma Patrulha da Noite. Entre os muitos arquivos da coleção estão manuscritos dos romances da série Crônicas de Gelo e Fogo, e, como fui descobrir quando fui ao Texas no verão passado, uma caixa contendo um rascunho de produção daquele piloto doloroso de Game of Thrones.

Uma versão inicial do roteiro do piloto teria supostamente aparecido online anos atrás, mas sua autenticidade nunca foi oficialmente confirmada. Ninguém parecia saber até que ponto era semelhante ao piloto rejeitado que a HBO filmou. Os roteiros frequentemente são reescritos várias vezes, de modo que a versão misteriosa que circulou online poderia ter feito parte de qualquer fase das revisões.

Passei 3 dias no Texas, mas levei apenas 5 minutos para perceber que o roteiro que circulou online e o que está arquivado na Biblioteca Cushing são diferentes. Há razões para acreditar que a versão guardada no Texas é semelhante ao roteiro do piloto que a HBO filmou: o texto guardado na biblioteca é datado de 22 de outubro de 2009, bem na época em que o piloto que acabou não indo ao ar começou a ser filmado. O roteiro da biblioteca cita nos créditos o diretor original do piloto que não foi ao ar, Tom McCarthy, que nas refilmagens seria substituído por Tim Van Patten.

Além disso, em termos de conteúdo, o roteiro visto na biblioteca contém tramas que, segundo rumores, teriam feito parte do roteiro do piloto que não foi ao ar (daremos mais detalhes abaixo) – diferenças cruciais nas tramas, alterações do diálogo e mudanças de local que mostram os Sete Reinos sob uma ótica diferente.

Game of Thrones voltou há 2 domingos, mas os fãs se sentem diante de uma temporada final cheia de momentos que remetem aos primórdios da série e que completam o “enorme quebra-cabeça” montado ao longo de 8 anos, nas palavras de Nikolaj Coster-Waldau, que faz Jaime Lannister.

Vasculhamos os segredos ocultos no roteiro do piloto contido na coleção de textos de Martin, envolvendo desde um momento de Cersei Lannister que não chegou a ser visto pelo público até Jon Snow totalmente bêbado fazendo uma cena. Veja como Westeros poderia ter parecido se aquele piloto “de merda” tivesse ido ao ar.

A cena de Cersei que pode incomodar algumas pessoas

LENA VARGAS AFANASIEVA FOR HUFFPOST
Rainha Cercei vai às criptas antes do banquete em Winterfell.

Vamos começar com uma cena importante entre o rei Robert Baratheon e Ned Stark nas criptas de Winterfell.

A cena que foi ao ar na HBO é um pouco diferente da cena no roteiro guardado na biblioteca Cushing, mas é igual nos pontos mais importantes. Robert convida Ned para ser seu novo Mão do Rei, cargo que ficou vago devido à morte de Jon Arryn. Nesse momento, Robert coloca um objeto pequeno mas altamente simbólico sobre uma estátua de sua antiga noiva, Lyanna Stark: uma pena.

E isso mais ou menos resume a sequência como você a viu na primeira temporada:

Mas no roteiro encontrado na biblioteca Cushing a rainha Cersei tem um papel crucial no que ocorre depois desse momento. Tanto assim que o envolvimento dela teria alterado um episódio da quinta temporada, o teaser recente da oitava temporada e talvez mais.

A cena seguinte faz parte do roteiro do piloto encontrado na biblioteca Cushing. Ela envolve Cersei indo às criptas antes do banquete em Winterfell:

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

WINTERFELL   ― CRIPTA    ― À NOITE

Tomada longa de Cersei de perfil, usando um casaco de peles pesado sobre seu vestido elegante. Ela olha dentro de uma das câmaras mortuárias. As sombras à sua volta dançam à luz das velas.”

Cersei sai da cripta, atravessa o pátio e entra na antecâmara entre a cozinha e o salão nobre de Winterfell. Os festejos da chegada do rei já começaram, e criados passam por Cersei correndo, levando travessas de comida. As aias da rainha ajustam as vestes dela e tiram seu casaco de pele.

Então Cersei revela algo que trazia escondido na manga:

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

“CERSEI

Uma palavrinha com a garota Stark.

A aia faz um gesto de “sim” com a cabeça e Cersei dá um passo à frente.

CERSEI

Oh....

Ela põe a mão dentro da manga e tira de dentro a pena de pássaro colorida que Robert colocara sobre a mão de pedra de Lyanna. Cersei entrega a pena à sua aia.

CERSEI

Queime isto.”

Por que tem importância?

O episódio que foi ao ar na HBO não indicou que Cersei tivesse consciência da pena que Robert colocara sobre a estátua de Lyanna. E muito menos que ela havia tirado a pena para que fosse queimada.

Sem essa intervenção, a pena acaba exercendo um papel importante no teaser recente da oitava temporada de GoT, caindo ao chão enquanto Jon Snow passa ao lado e congelando sob uma onda de ar gelado.

Antes disso a pena apareceu no quarto episódio da quinta temporada, “Filhos da Harpia”, quando Sansa Stark vai às criptas de Winterfell e encontra o objeto deixado por Robert sobre a estátua anos antes.

Os criadores de GoT, Benioff e Weiss, reconheceram em “Making of Game of Thrones” que a pena havia ficado todo esse tempo nas criptas, explicando que ela ainda deveria estar ali, “afinal nenhum faxineiro desceu lá para passar um aspirador de pó”.

Eles explicaram: “Achamos que seria bacana que Sansa ficasse curiosa em relação à pena”.

Por que Sansa? E por que uma pena?

HBO
A pena é um elemento encantador dentro da série.

Talvez você não tenha notado o papel curioso desempenhado por aves em Game of Thrones. Há a rede de espiões de Varys, os “pequenos pássaros”, há o Alto Pardal, há o Corvo de Três Olhos e há Sansa, frequentemente descrita como “passarinho” ou “pequena pomba”. Esses personagens têm algumas coisas em comum: são incompreendidos, subestimados e muitas vezes detêm informações poderosas.

A pena pode dar a entender que também Lyanna foi uma figura incompreendida, outro passarinho. E pode ser um símbolo de seu segredo: seu filho, Jon Snow.

Lembre que no episódio da quinta temporada em que a pena reaparece, o espectador ainda pensa que Lyanna foi sequestrada e estuprada pelo príncipe Rhaegar. Ainda não tinha sido revelado que na realidade ela e Rhaegar estavam apaixonados, que tinham se casado e tido um bebê – segredo que, em seu leito de morte, Lyanna fez seu irmão Ned prometer que não ia revelar.

A ligação com Jon é reiterada no teaser da oitava temporada, quando ele pensa sobre a pena. Será que a queima da pena por Cersei no roteiro do piloto descartado poderia ter sido indício de algo diferente que estaria por vir? Ela vai fazer a mesma coisa com Jon?

Com os dragões de Dany voando por aí e Cersei tendo explodido parte do Porto Real com fogo, não parece exagerado imaginar um enfrentamento explosivo entre Cersei e Jon no futuro.

A cena cortada da pena talvez seja o primeiro pequeno indício da tendência de Cersei a querer queimar as cidades de seus inimigos até o chão, como ela gosta de dizer. Considerando o teaser “Dragonstone” da HBO do final de 2018, que mostra um incêndio devorando o leão dos Lannister, é provável que haja mais chamas no futuro dos Lannister. E possivelmente também de Jon Snow.

A cena de sexo muito mais consensual entre Dany e Khal Drogo

LENA VARGAS AFANASIEVA FOR HUFFPOST
Roteiro original de GoT traz surpresas.

Uma das diferenças mais substanciais entre o roteiro preservado na biblioteca Cushing e o piloto que a HBO colocou no ar pode ser observada na cena da consumação do casamento de Daenerys Targaryen.

No roteiro descartado, Dany exerce bem mais controle. Ela sorri quando percebe que Drogo só sabe dizer uma palavra em sua língua, “não”. Ela o ajuda a tirar os anéis de seu cabelo e, o que é importante, ela acaba concordando em fazer sexo com ele:

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

“Ele a coloca sentada em seu colo. Dany está corada e ofegante. Ele apoia o rosto dela em suas mãos enormes e ela olha nos olhos dele.

KHAL DROGO

Não?

Ela pega a mão de Drogo e a movimenta entre suas coxas.

DAENERYS

Sim.”

Isso é muito diferente da cena que foi ao ar na HBO, em que Daenerys chora quando Drogo tira suas roupas e então a penetra por trás. A cena mais consensual reflete os livros de George Martin, fato que explica por que foi incluída numa versão anterior do roteiro: o roteiro do piloto arquivado na biblioteca Cushing tende a ser mais fiel às palavras de Martin.

Mas a versão que foi ao ar é traumática. Daenerys é violentada. Seu relacionamento com Drogo acaba evoluindo e virando amor, mas isso não elimina a verdade de que ele a estuprou – e o fez inúmeras vezes.

Daenerys fala desses estupros na primeira conversa que tem com Jon na sétima temporada, dizendo: “Fui humilhada e traída, violentada e aviltada. Sabe o que me manteve em pé durante aqueles anos todos no exílio? A fé, não em deuses, não em mitos ou lendas. Em mim mesma, em Daenerys Targaryen.”

Por que isso tem importância?

Uma cena consensual teria sido menos traumatizante para os espectadores, mas Emilia Clarke, a atriz que representa Daenerys, falou à revista Glamour em 2016 sobre o estupro sofrido por sua personagem, explicando uma possível justificativa da cena:

Estamos contando uma história, no fundo. O espectador precisa dessa parte da história para sentir empatia por Daenerys. Nós a vemos ser atacada por seu irmão, violentada por seu marido e depois dizendo “Fodam-se vocês todos, eu vou governar o mundo”. É nesse ponto que estamos agora.

Uma cena de estupro não chegaria a ser indispensável para levar o espectador a sentir empatia por Dany, mas, como disse Clarke, ela ressalta os terrores que Dany superou e sua transformação de criança assustada e maltratada em khaleesi.

Em algum momento entre o estupro e sua decisão de dormir com Jon (ou o “rei dos agachamentos”), na sétima temporada, uma Mãe dos Dragões completamente diferente emergiu.

A cena muito mais confusa de sexo entre Jaime e Cersei

Depois de assistir à estreia de Game of Thrones na HBO, o espectador entende perfeitamente que Jaime e Cersei são parentes. Esse é um elemento crucial da trama. Fato interessante é que uma das maiores críticas feitas ao piloto que não foi exibido foi que essa informação não ficou clara. O piloto não deixou claro que Jaime e Cersei Lannister são irmão e irmã.

Talvez seja por isso que tenha sido acrescentado ao episódio que foi ao ar uma cena em que os gêmeos incestuosos conversam em Porto Real. Na cena, os 2 comentam que se alguém descobrisse o caso secreto entre eles, suas cabeças acabariam sendo espetadas na ponta de duas lanças.

“Como teu irmão, acho que é meu dever te avisar: você se preocupa demais”, fala Jaime explicitamente. Esta cena não consta do roteiro arquivado na biblioteca Cushing nem no roteiro previamente disponível online, como aponta o ioP9.

Guardando em mente que muitos espectadores do piloto original não entenderam que Jaime e Cersei eram irmãos gêmeos, uma cena que consta do roteiro original teria deixado isso ainda mais complicado. (Saia daqui, Bran, isto não é para seus olhos).

Em todas as versões do piloto, Bran Stark escala a torre de Winterfell por fora e vai parar numa janela pela qual vê um homem e uma mulher nus (Jaime e Cersei). No roteiro da biblioteca Cushing, porém, o encontro ocorre de modo um pouco diferente. Cersei pede para Jaime parar:

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

“O homem nu a agarra pelos cabelos e a força a ficar de quatro. Ela solta um gritinho de dor.

MULHER

Pare...

Ele não para. Ainda segurando os cabelos dela com uma mão, ele se coloca de quatro. Agarra os quadris dela com uma mão e a puxa em sua direção, penetrando-a profundamente.

MULHER (CONTINUA)

(gemendo)

Pare... pare... por favor...

Ela fala baixo e a não o afasta. Quanto mais ele puxa seus cabelos, mais ela geme.”

Por que isso tem importância? 

No episódio que foi ao ar, Cersei só tenta afastar Jaime depois de ver Bran espiando pela janela.

Já no livro de George Martin e no roteiro do piloto rejeitado, ela protesta muito antes. É algo que deixa Bran confuso e talvez tivesse deixado os espectadores desnorteados também.

Considere como essa cena teria afetado o momento triunfal de Jaime na sétima temporada, quando ele opta por se afastar de Cersei, sedenta de poder. Até aquele momento, a plateia deve acreditar que ele sempre esteve sob o controle de Cersei; é apenas naquele momento que ele consegue libertar-se da influência dela. A versão original da cena de sexo de Jaime e Cersei tornaria isso mais inverossímil.

Numa série repleta de traições constantes, inúmeras tramas secundárias e tantos personagens que mal conseguimos recordar seus nomes, quanto menos confusa uma cena é, melhor.

Os Caminhantes Brancos que não se calavam

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

 roteiro do piloto da biblioteca Cushing começa de modo semelhante ao piloto exibido pela TV: três homens da Patrulha da Noite estão rastreando selvagens quando são emboscados por Caminhantes Brancos. As coisas acabam mal.

No roteiro do piloto rejeitado, um desses homens, Will, percebe que os corpos dos selvagens mortos sumiram. Ele sobe uma árvore para ter uma visão melhor. Nesse momento chegam os Caminhantes Brancos, e sua decisão de subir a árvore salva sua vida. Em contraste com o piloto que foi ao ar, que mostra um Caminhante Branco poupando a vida de um membro da Patrulha, por alguma razão, é o fato de Will estar na árvore que impede que ele seja morto junto com os outros dois.

Os Caminhantes Brancos atacaram os dois outros homens. Ao mesmo tempo, estavam falando na língua do gelo:

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

O som de crepitar está vindo de várias fontes agora. Não são ruídos feitos por predadores sem inteligência. É uma língua, e quem a está falando está chegando mais perto.”

Will resolve ficar na árvore e se esconder.

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

Murmurando preces silenciosas, Will fecha os olhos para não ouvir as vozes geladas lá embaixo.”

Por que isso tem importância?

O fato de que os Caminhantes Brancos se comunicam numa linguagem já está amplamente documentado neste momento. Nunca antes tinha sido mostrado na televisão. Mas está nos livros, é citado pela jornalista Joanna Robinson, da “Vanity Fair”, depois de ela ler vários roteiros de “Game of Thrones”, aparece no roteiro do piloto que circula online e também no roteiro do piloto que faz parte da coleção de George Martin na biblioteca Cushing.

Em uma parte inédita de uma entrevista de 2017, perguntei a David Peterson, criador das linguagens de “Game of Thrones”, sobre a linguagem dos Caminhantes Brancos, à qual ele deu o nome de Skroth.

Refletindo sobre os planos iniciais de fazer com que os Caminhantes Brancos falassem, Peterson me contou que preparou algo originalmente para a cena inicial de “Game of Thrones”.

“Criei um diálogo básico. Gravei e então sugeri aos criadores como modificá-lo digitalmente para lhe dar um som singular”, ele disse. Peterson queria que a linguagem soasse como é descrita nos livros de George Martin, “como o som do gelo rachando num lago no inverno”.

“A linguagem não foi usada no piloto. Depois foi comentado que eles teriam discutido usá-la na segunda temporada. Eles disseram que tentaram mas que não estava funcionando, então desistiram da ideia.”

Peterson me mandou um exemplo do diálogo dos Caminhantes Brancos antes da aplicação dos efeitos. É algo que ele já tinha tocado em convenções e que ele nos autorizou a incluir. Veja uma versão inicial de como teria soado a “fala” de um Caminhante Branco:

Ele disse que na época a responsável pelo som de GoT, Paula Fairfield, ainda tinha a esperança de poder usar o diálogo em algum momento, mas isso evidentemente não aconteceu.

Essa não foi a única baixa em termos de linguagem. Peterson contou que criou uma linguagem inteira para os Filhos da Floresta na sexta temporada, mas que por uma série de razões (para evitar a necessidade de legendas nas sequências de ação, porque os dublês estavam tendo dificuldade com as falas), os diálogos “foram cortados ou encurtados e todos foram convertidos para o inglês”.

“Foi uma ideia. Tentaram, mas não deu certo”, ele disse. 

A vez que Jon Snow ficou totalmente bêbado

LENA VARGAS AFANASIEVA FOR HUFFPOST
Jon Snow ficou alcoolizado no piloto original.

No piloto de Game of Thrones que foi visto na televisão, Jon não aparece na cena memorável no salão nobre. Em vez disso, ele fica do lado de fora, respeitando a vontade de Catelyn Stark de que Jon (que ela e quase todo o mundo pensa ser o filho bastardo de Ned) não esteja presente.

Mas no roteiro do piloto que está na biblioteca Cushing, Jon está sentado no salão. Não está na mesa dos nobres, mas consegue ter um diálogo embriagado com Benjen Stark no salão.

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

“JON

Atirei uma lança a uma distância de 70 jardas. Quase 70 jardas. Ser Roderick mediu.

BENJEN

O problema de jogar sua lança a 70 jardas é que você fica a 70 jardas de distância de sua lança.

Benjen já um empurrão de brincadeira em Jon – “não fique convencido!”. Jon, um pouco bêbado, quase cai do banco.

BENJEN

Você está bêbado?

JON

Não.

BENJEN

(o sacode de brincadeira)

Pequeno Jon! Tomou todas!”

Jon fica sozinho, tomando mais vinho, e acaba provocando uma cena:

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

Finalmente ele se ergue do banco e fica em pé – mas perde o equilíbrio e sem querer empurra a Criada, fazendo um jarro de vinho cair ao chão.

Gargalhadas se espalham à volta deles. Jon enrubesce e corre até a porta. Fantasma segue logo atrás.”

A cena no piloto descartado é quase exatamente igual à cena descrita no romance A Game of Thrones, de George Martin.

Além de excluir as cenas de Jon bêbado, a versão original, descartada da sequência foi reorganizada drasticamente para formar as cenas que foram ao ar. Por exemplo, no episódio que foi ao ar, o confronto entre Ned e Jaime no salão nobre termina quando Ned fala: “Não combato em torneios porque quando enfrento um homem para valer, não quero que ele saiba o que sou capaz de fazer”.

Jaime responde: “Falou bem”.

Mas no roteiro do piloto descartado, além do roteiro que circulou online, o momento continua por mais tempo, tanto que Jaime lembra a Ned como seu irmão e pai foram mortos:

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

Ned começa a se afastar.

JAIME

Mas todos sabemos que a corte não têm sido gentil com os homens Starks.

Ned para e fica rígido, ouvindo o comentário.

JAIME

Seu pai e seu irmão. Sim, fui testemunha daquela tragédia.

NED

Sei que você foi.

JAIME

Deve servir de algum consolo saber que a justiça finalmente puniu o assassino deles.

NED

Você estava pensando em justiça quando enfiou sua espada nas costas do Rei Louco?”

E continua:

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

“JAIME

Eu estava pensando nos rins dele. Em seu fígado e baço.”

Consta que em uma versão inicial do piloto filmado há um flashback de Brandon, o irmão de Ned, sendo morto (existe um screenshot online), mas isso não entrou no roteiro do piloto guardado na biblioteca (se bem que teria se enquadrado bem com essa conversa).

A versão da cena guardada no roteiro da biblioteca vai além, com Ned indo embora e Tyrion, que ouviu tudo, dizendo a Jaime: “Se fosse o caso, irmão, eu apostaria em você – mas não apostaria muito”. Tyrion então toma outra caneca de vinho, percebe que bebeu demais, sai do salão cambaleando e vai falar com Jon lá fora.

Por que isso tem importância?

Teria sido divertido ver o futuro Rei do Norte ficar completamente bêbado, mas é tanta interação a mais entre personagens para digerir que talvez ficássemos tão zonzos quanto Tyrion.

Há alguns momentos nas cenas da festa em Winterfell que são realmente importantes, e alguns dos mais importantes são as conversas de Jon com Tyrion e Benjen. A conversa com Tyrion é comentada na sétima temporada, quando Tyrion escreve uma carta a Jon dizendo, entre outras coisas, “todo anão é bastardo aos olhos de seu pai”. É algo que Tyrion havia dito na primeira vez que eles conversaram. Parece que isso convence Jon que ele ficará em segurança quando viajar para encontrar Daenerys.

Com Benjen, é claro, Jon fala de ir servir na Patrulha da Noite na Muralha, algo que ele evidentemente faz e então vive feliz para sempre.

As outras interações entre os personagens, apesar de divertidas, poderiam ter distraído dos momentos realmente importantes, então vamos ver um para a cena desperdiçada de Jon.

A Catelyn estranha que queria que Sansa fosse rainha

Catelyn e Daenerys foram representadas originalmente por atrizes diferentes – respectivamente Jennifer Ehle e Tamzin Merchant. Antes de Michelle Fairley assumir o papel de Catelyn, a personalidade da personagem também era muito diferente.

Por exemplo, numa cena no quarto no roteiro do piloto, Catelyn incentiva Ned a aceitar a oferta de Robert de que Joffrey e Sansa se casem e viagem ao sul com o rei.

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

ED

Vou recusar. Sou um homem do norte. Meu lugar é aqui, não no sul, naquele ninho de rato ao qual chamam de capital.

CATELYN

Ele faria de nossa filha a Rainha.

NED

É isso que você quer para ela? Uma coroa bonitinha para colocar na cabeça?”

Nesse momento Mestre Luwin entra trazendo uma carta da irmã de Catelyn, Lysa, dizendo que os Lannister assassinaram seu marido, Jon Arryn. Ned não tem outra escolha senão aceitar o convite de seu velho amigo Robert e tornar-se o novo Mão do Rei, indo a Porto Real para descobrir o que está acontecendo.

Mas no episódio que foi ao ar, Catelyn suplica com Ned para permanecer no Norte, dizendo que ela vai confrontar Robert e dizer a ele: “Ouça bem, homem gordo. Você não vai levar meu marido para lugar algum. Ele pertence a mim agora.”

Por que isso tem importância?

Em matéria das diferenças entre o roteiro do piloto na biblioteca Cushing e o piloto que foi ao ar, Catelyn é, na minha opinião, a personagem que mais melhorou na versão definitiva. Benioff e Weiss foram inteligentes – perceberam que nos livros, os fãs vão conhecendo Catelyn ao longo de muitas páginas, mas na série, têm apenas algumas poucas cenas. O roteiro guardado na biblioteca teria feito Catelyn parecer um pouco obcecada com um título de realiza, como a Sansa da primeira temporada, que, objetivamente falando, foi a pior.

É só perguntar para a Arya Stark da primeira temporada.

Em vez disso, os criadores da série optaram por enfatizar a imagem da matriarca Stark como mãe e esposa protetora que mais tarde enfrentaria um assassino em um esforço para salvar seu filho ferido, Bran.

Também vale notar que depois de ler a carta de Lysa, no roteiro descartado, Catelyn fala a Ned:

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

CATELYN

Minha irmã fugiu da capital. Ela diz que Jon Arryn foi assassinado. Pelos Lannister. Pela Rainha.”

No episódio que foi ao ar, Catelyn diz apenas que Jon Arryn foi assassinado pelos Lannister. Ela não fala “pela Rainha”.

John Standing, o ator que representou o falecido e querido Jon Arryn, disse uma vez que o piloto original incluiu uma cena “lunática” em que Cersei fica assistindo a seu personagem morrer. Embora essa cena não faça parte do roteiro arquivado na biblioteca Cushing, uma linha sobre Jon Arryn ter sido morto pela rainha abre o caminho para essa parte ser acrescentada mais tarde. 

Joffrey Baratheon, o Primeiro de seu Nome, mostrou que era horrível desde o começo

Lena Vargas Afanasieva for HuffPost

Quando “Game of Thrones” começa, só vamos compreender até que ponto Joffrey é um horror no segundo episódio, quando Tyrion o estapeia por não procurar os Stark para se solidarizar com eles após a queda de Bran. Mas no roteiro do piloto que não foi ao ar, a impressão que temos desde o começo é que Joffrey é um excremento humano ambulante.

Numa sessão de treino entre Lannisters e Starks, Bran acaba de bater em Tommen Baratheon com uma espada de madeira, e Ser Rodrik, o mestre de armas de Winterfell, pergunta a Robb Stark e Joffrey se querem outra rodada. Robb topa, mas Joffrey se queixa, dizendo que está farto de enfrentar os Stak com uma espada de brinquedo. Ele sugere que usem armas de verdade. Rodrik não concorda.

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

RODRIK

Derrote-o com uma espada de treino, então.

Joffrey dá de ombros e começa a se afastar.

JOFFREY

Venha me ver, garoto do Norte, quando suas bolas tiverem descongelado.

Os homens Lannisters dão gargalhadas. Rob perde a calma.

ROBB

Vou cortar fora as suas bolas, seu pedacinho de ―-

Theon agarra o braço de Robb para que ele não alcance o príncipe.

THEON

Calma...

Joffrey finge um bocejo e se volta a seu irmão menor.

JOFFREY

Venha, Tommen. A hora de brincar acabou. Deixe as crianças com suas brincadeiras.”

O roteiro do piloto traz esta interação precoce entre Robb e Joffrey, mas omite muitas outras cenas que foram ao ar – a cena em Winterfell em que Bran está aprendendo com sua filha a usar arco e flecha, a cena em que Sansa e Arya aprendem a costurar, a cena em que Sansa implora a Catelyn que a deixe ir a Porto Real e a infame cena em que os garotos Stark estão sendo barbeados e estão sem camisa, mostrando seus músculos.

Por que isso tem importância?

O momento com Joffrey poderia ter aumentado a tensão mais adiante na série – por exemplo durante a esquete da Guerra dos Cinco Reis, no casamento de Joffrey, em que alguém anda a cavalo com uma cabeça de lobo para representar Robb decapitado. Mas parece provável que algumas cenas menos importantes como esas tenham sido cortadas para dar espaço para momentos mais vitais, como os em que conhecemos os Stark. E, francamente, mais Starks e menos Joffrey soa como uma fórmula preferível.

As Conclusões

Além das cenas cortadas, existem várias diferenças sutis entre o roteiro disponível online e aquele que está na coleção oficial de George Martin, no Texas. Na versão online, Tyrion acaricia o lobo Fantasma, dos Stark, sua cena no bordel acontece em Porto Real (não no Norte) e há uma longa cena que se pretendia que descrevesse uma sequência titular que acabou descartada.

Mas nada disso acontece no roteiro da biblioteca Cushing. (Na realidade, em matéria de créditos, esse roteiro descreve uma sequência de abertura apenas com as palavras: “FICHA DE TÍTULO: GAME OF THRONES”.)

Há também alguns detalhes menos importantes, mas divertidos, inseridos no roteiro da biblioteca. Ned, o sujeito mais sério que existe, faz uma brincadeira nas criptas:

Cushing Memorial Library & Archives, Texas A&M University

“ROBERT

Não me deixe esperando por muito tempo. Está uma confusão sangrenta por lá. Você sabe o que dizem: o Rei caga—

Robert sobe a escadaria de pedra, deixando Ned em pé entre os Starks defuntos.

NED

(uma piada antiga)

― e a Mão limpa.”

Essa linha de diálogo foi tirada e dada a Jaime no terceiro episódio da primeira temporada:

Várias locações de filmagens também mudaram. Por exemplo, o casamento de Dany foi filmado originalmente no Marrocos e incluía uma ponta do próprio George Martin no papel de um Pentoshi (algo que poderia facilmente ter sido incluído no roteiro descartado, já que ele menciona “Mercadores de Pentos” reunidos para a cerimônia). Mas quando Emilia Clarke foi chamada para assumir o papel de Daenerys, a subtrama foi alterada e filmada novamente, dessa vez em Malta.

O roteiro guardado na biblioteca no Texas não revela exatamente por que o piloto original foi um “problema tão enorme”, como disse Mazin. Kit Harington, que faz Jon Snow, mencionou os “erros” daquela versão, dizendo ao “Guardian” que ela “não parecia certa, não tinha o clima certo”. Os problemas provavelmente estavam nos detalhes de execução das cenas, que talvez nunca cheguemos a ver, se bem que Harington disse que, sempre que ele irritava Weiss e Benioff, os dois ameaçavam colocar o piloto descartado no YouTube. Talvez aquelas cenas iniciais com Jon Snow embriagado não tenham sido bons momentos do Rei do Norte.

Mesmo assim, ao ler o roteiro que está na biblioteca Cushing, pude ter uma boa ideia de como algumas alterações, mesmo pequenas, poderiam ter levado a um “Game of Thrones” muitíssimo diferente. Um dos aspectos mais interessantes, para mim, foi a cena de corte de Cersei – interessante por ser um momento que teria mudado o modo como se deram algumas cenas futuras de GoT. Como reza o ditado, onde há fumaça, há ... Cersei tentando atear fogo a alguma coisa.

As cenas ilustradas por Lena Vargas Afanasieva não visam retratar com precisão as sequências escritas no roteiro.

Reportagem adicional de Leigh Blickley e Sara Boboltz.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.