Pierre Verger, em 1952.
Arquivo Público/Charles Mallison/Creative Commons
Pierre Verger, em 1952.
LGBT
20/10/2019 03:00 -03 | Atualizado 28/10/2019 23:13 -03

Pierre Verger sob a lente da homossexualidade

Depoimento inédito de amigos pessoais do fotógrafo francês expõe dilemas do artista — que viveu no Brasil entre 1946 e 1996 — em revelar sua homossexualidade.

“Favor receber os senhores Roberto Muylaert e Gilberto Sá. Reunião marcada para 06 de novembro de 2018 às 15h.” Talvez as pessoas não saibam, mas tarefa frequente na vida de jornalista, para além do ofício da escrita, é tomar os populares “cafezinhos” com fontes. O e-mail da secretária do chefe de redação não revelava mais sobre meus convidados, mas quando a mensagem vem do topo com um “favor receber”, é preciso dedicar alguma atenção.

Acompanhado por Muylaert, jornalista das antigas, uma rápida pesquisa me contou que Sá dirigia a Fundação Pierre Verger, em Salvador. O papo pragmático começava a ficar mais suculento. Na minha lista de viajantes inspiradores sem lenço nem documento, o fotógrafo e antropólogo francês Pierre Verger (1902-1996) figura lá no alto. Sabia que o homem tinha percorrido meio mundo com sua câmera e clicado alguns dos retratos mais lindos que já pude apreciar.

A dupla chegou adiantada. Desci para recebê-los, estavam às voltas com a catraca de impressão digital. Muylaert pediu para ser tratado por Bob e apresentou as credenciais do amigo Gilberto. Antes mesmo de nos sentarmos, ele já foi adiantando o que os trazia ali. Presidente da Fundação Pierre Verger desde 2001, Gilberto se autoimpôs a missão de divulgar o trabalho do artista. “Muita gente ainda não conhece, precisamos mostrar essa preciosidade, né?”

Com um paletó de linho, camisa branca e um inconfundível sotaque baiano, Sá apanhou o livro que trouxera de presente, Memórias de Pierre Verger, e começou a folhear as páginas para mostrar algumas das fotos que compõem o impressionante acervo de mais de 60 mil negativos originais. “Não cobramos direito autoral de publicações, o que nos interessa é a divulgação”, avisou Gilberto, dizendo que recebeu a incumbência de administrar a coleção de um homem que nunca ligou para posses, fama, para nada. “Verger era livre, viajou o mundo todo, era um homem gay naquela época, e…”. Espere um pouco. Quer dizer que Pierre Verger era gay? “Era, sim”, respondeu sem muito alarde, emendando alguns feitos do francês.

Confesso que dali em diante não consegui prestar mais tanta atenção à conversa. Aquela revelação mudava completamente a maneira como eu havia enxergado seu trabalho até então. Saquei o livro e investiguei mais uma vez as fotografias enquanto a conversa rolava. Todos aqueles corpos masculinos que povoam sua obra, invariavelmente seminus, acabavam de entrar em um novo espectro: o do desejo. 

O destaque para o desejo

Não faltam na História da Arte fotógrafos gays que retrataram o corpo masculino com cobiça, e ajudaram a forjar um imagético homoerótico. Robert Mapplethorpe, Alvin Baltrop, Andy Wahrol, David LaChapelle, todos têm seu trono. Mas Verger nunca passou perto dessa turma, não aparece como referência em qualquer exposição que trate do tema.

Em uma outra conversa com João Luiz Musa, professor de fotografia na USP sobre o artista, ele indicou saber da informação: “Pierre Verger era gay, você sabia?”. “Porra, é claro! Olha as imagens do cara, não tem a menor dúvida”, respondeu.

Na entrevista, ele me contou sobre uma vez que editou, a pedido do Museu Nacional, fotos de tribos brasileiras feitas pelo etnólogo alemão Curt Nimuendajú. “Observando as imagens das índias nuas eu reconheci logo que ele tinha um desejo imenso por elas”, explica. Apesar da visualidade homossexual de Verger ser evidente para o traquejo de Musa, ele admite nunca ter lido nada sobre isso. “O que eu quero saber é por que ele nunca falou”, esboçando compartilhar da minha curiosidade enquanto jornalista sobre o assunto. “Mas não vá fazer pesquisa meia boca, hein. O tema é realmente interessante, vai atrás”, recomendou, com um tapinha no ombro.

O especialista em Pierre Verger

Vittorio Zunino Celotto via Getty Images
Visão geral da exposição "Pierre Verger's Brasil" durante a terceira edição da Rome International Film Festival, em 2008.

Nome frequente nos livros sobre Verger é do curador e pesquisador francês Alex Baradel. Ele é responsável pelo acervo fotográfico da Fundação Pierre Verger e profundo conhecedor da vida e obra do fotógrafo. E a abertura de uma exposição de retratos de Verger no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, reacendeu a inquietação sobre a história do fotógrafo. 

Adicionado no WhatsApp para uma ligação, a foto que aparece é a de um gato esticado sob o beiral de um telhado. Solícito, Alex me atendeu às pressas em meio à confusão da montagem da exposição um dia antes da abertura, no fim de agosto. Conversamos brevemente sobre as imagens que entrariam em cartaz, e, sem muitos rodeios, abordei o tema que me levou à entrevista. “Gilberto Sá me contou, quando nos conhecemos, que Pierre Verger era gay”, digo, e Alex confirma prontamente: “sim, claro”. 

Prossigo: “Você, que é um estudioso, pode me explicar um pouco dessa parte da vida dele?”. “Olha, o que acontece é que Verger era muito pudico. Conheço várias pessoas que trabalham na Fundação e conviveram com ele no final da vida. Nunca falou sobre relações, ele não queria colocar como uma questão pública”, encerrou. “A única vez que consegui falar sobre isso de uma forma decente foi com um casal de homossexuais que editava a revista francesa Revue Noire, Jean Loup Pivin e Pascal Saint Martin”, explicou.

Recorro ao acervo do Instituto Moreira Salles, na Avenida Paulista, e encontro uma joia, disponível para consulta pública na biblioteca da instituição. Eles publicaram, em 1993, o livro Le Messager, com imagens de Verger das Américas, África, Ásia, Oceania e Europa entre 1932 e 1962. Segundo Alex, o material diria muito sobre o artista. Em seguida, escrevi um longo e-mail para Jean Loup Pivin contando tudo o que (não) sabia até então sobre Verger e pedindo uma entrevista com ele. Restava apenas a espera de uma resposta. Alex me enviaria dias depois retratos de homens que, aos seus olhos, continham esse elemento homoerótico retratado por Verger.

Uma biografia em preto e branco

Arquivo Público/Charles Mallison/Creative Commons
Pierre Verger, em 1952.

A ressalva academicista do professor da USP me levaria a uma livraria de Pinheiros para comprar o último exemplar em estoque da biografia de 660 páginas de Pierre Verger. Curiosamente, o título do livro escrito pelo Conservador da Biblioteca Nacional da França, Jean Pierre Le-Bouler, é Um homem livre. Estampado com a foto de um Verger sorridente na capa, em meio a uma tribo no Benim, me pôs pensativo antes de começar a leitura: “Seria ele realmente livre?”.

O texto que abre a biografia é assinado por Gilberto Sá, com quem conversei há quase um ano. Ele fala sobre as dificuldades da pesquisa dada a extensão da vida do biografado, a intensidade de idas e vindas, e principalmente de uma característica muito marcante do fotógrafo. “Dono de uma personalidade extremamente discreta, Pierre Verger não era dado a falar de si mesmo nem a transmitir informações de cunho pessoal às pessoas que cruzavam seu caminho”, relata Sá. O fato é que a biografia, apesar de muito bem escrita, praticamente ignora a homossexualidade do fotógrafo.

Dono de uma personalidade extremamente discreta, Pierre Verger não era dado a falar de si mesmo nem a transmitir informações de cunho pessoal às pessoas que cruzavam seu caminho.Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger desde 2001

O que vale mencionar dela é que Verger nasceu em uma família burguesa parisiense do início do século 20 e sempre teve aversão a esse mundo. Foi expulso de escolas por indisciplina, rechaçou as pequenas relações sociais e as fofocas que o acompanhavam. Perdeu o pai e os dois irmãos antes dos 30 anos de idade, e família, para ele, era apenas a mãe.

Falando sobre a relação com a matriarca é que o livro esbarra no tema. “Ela era a única pessoa que eu desejava não chocar ao adotar um tipo de vida muito diferente do prescrito pelas normas familiares”, relata o próprio Verger. “Ela teria certamente me apoiado a seguir o caminho tomado, mas teria que ter aguentado de pessoas próximas reflexões e comentários mordazes e desagradáveis que poderiam ter ‘ensombrecido’ os seus últimos dias.”

Ela teria certamente me apoiado a seguir o caminho tomado, mas teria que ter aguentado de pessoas próximas reflexões e comentários mordazes.Pierre Verger, segundo amigos pessoais

Ele preferiu ganhar o mundo. Um pouco mais adiante, o autor narra o que ocorre a partir da morte de mãe do artista, em 1932. Verger opta por seguir com sua vida de modo discreto: “para bom entendedor, meia palavra basta”, teria dito sobre o assunto, segundo a biografia. Ainda que seu único motivo de preocupação, a mãe, não estivesse mais viva, ele parece ter ficado marcado para sempre pelo “disse me disse” burguês.

O escritor francês Dominique Fernandez, imortal da Académie Française e hoje com 90 anos, escreveu em tom irônico no livro L’Or des Tropiques (Ouro dos trópicos, em tradução livre): “Não foi o primeiro francês que encontrou em terras exóticas o meio de satisfazer suas aspirações reprimidas”. 

A resposta e o dilema 

Depois de a espera por uma resposta de Pivin se tornar longa, decidi ligar ao telefone que consta como sendo da revista francesa Revue Noire. Peço para falar com Jean Loup Pivin e ouço, do outro lado da linha, em uma voz gripada: “sou eu mesmo”. Tenso para escolher bem as palavras no meu francês enferrujado, explico quem sou e o motivo da minha ligação. Para minha surpresa, ele diz que já me enviou uma resposta por e-mail e pede para que eu cheque o que me escreveu antes de prosseguirmos com qualquer conversa. De fato havia um e-mail seu empoeirando na minha caixa de spam.

“Pierre Verger não queria que nós falássemos de sua homossexualidade. Sempre pensei que deveríamos falar dela, mas o que fazer quando seu autor não o quer?”, dizia Pivin no e-mail. Ele conta que, à época da edição do livro Le Messager, Verger pediu repetidas vezes para ler o prefácio e garantir que nada fosse dito explicitamente. No texto que consta hoje na edição do livro, há apenas insinuações como “uma liberdade vivida, não como uma teoria, mas como um momento de desejo guiando um corpo”.

Pierre Verger não queria que nós falássemos de sua homossexualidade. Sempre pensei que deveríamos falar dela, mas o que fazer quando seu autor não o quer?Jean Loup Pivin

Pivin expõe um dilema moral para o qual não há resposta. Poderia dizer que o mundo no qual Verger viveu não é o mesmo de hoje e que seria injusto privar seus admiradores dessa informação. Mas a decisão não cabe ao jornalismo.

Ainda nesse primeiro e-mail, Pivin afirma que tem vontade de buscar o jeito correto de contar essa história e pede para que eu “respeite a vida e a história de seu amigo”, sinalizando que daria o seu relato sobre o amigo pela razão mais simples: é impossível dissociar o trabalho dele de sua homossexualidade. “Se ele chega à fotografia, é para se aproximar do desejo que enterrou até os 30 anos. Então ele [o desejo] participa plenamente de sua visão fotográfica.”

Telefono imediatamente para dizer que li sua resposta e esclarecer que minha pesquisa não tem motivação sensacionalista; minha razão é unicamente do ponto de vista da interpretação da obra de um gênio. E que, pessoalmente, como homem gay, teria orgulho de contar a história de um talento sui generis que faz parte da comunidade LGBT. Dois dias depois, recebo um e-mail: “Responderei em breve. JLP”.

Uma biografia colorida 

Fundação Pierre Verger
Imagem da série de fotos batizada de "Dorminhocos", realizada em Salvador -- entre os anos de 1930 e 1950.

Dez dias se passam. Nesse tempo recebi apenas uma breve mensagem de Pivin avisando sobre um problema de saúde e que não conseguira escrever. Começo a pensar por que um crítico francês decidiu agora contar a um jornalista brasileiro o que sabe. Em uma tarde, recebo uma notificação de e-mail, com cópia para Alex Baradel. “Caro Victor Gouvêa, aqui está o texto que você poderá utilizar, citando a fonte. Para Alex, você poderá finalmente receber um texto sobre o assunto. Boa leitura.”

O arquivo, de nove páginas, começa assim: “O livro que Pierre Verger concorda em fazer conosco para a Revue Noire, ‘Le Messager’, tem uma base homossexual implícita e explícita. Implícita quanto às possíveis palavras a dizer, ou seja, nenhuma. Explícita pelas imagens escolhidas em conjunto, que mostram desejo e sensualidade, ou seja, quase todas”. 

Pivin e seu companheiro, Pascal Martin, contam que tudo começou com uma proposta que fizeram a Verger, com a ajuda de um amigo francês que vivia em Salvador, para editarem um livro juntos. Queriam tratar de seu “olhar amoroso sobre o mundo”, e tudo o que era possível conter nessa lente. Verger não só aceitou produzir o livro como confiou à dupla seus negativos originais para serem levados à França. “Nós passamos três semanas juntos na Bahia, em 1992, mergulhando com ele nas dezenas de milhares de fotografias”, disseram.

Rapidamente eles passariam de comentários contextuais sobre as imagens para algo mais pessoal e comovente. “Ele parecia reviver o passado, sem o filtro da decência. Não éramos investigadores, éramos amantes que vieram partilhar dessa visão amorosa do mundo”, lembram Pivin e Pascal. Pouco a pouco, Verger contou a eles sobre alguns daqueles homens e o lugar que ocuparam em sua vida. Nem todos os que estão no livro foram seus amantes, ressalvam, mas muito deles, sim. “Incluindo ‘um quilo e meio’, esse estivador dormindo ao pé de uma árvore no Mercado Modelo de Salvador, evocando o volumoso pacote da sua virilha”, relatam (veja imagem acima).

Ele parecia reviver o passado, sem o filtro da decência. Não éramos investigadores, éramos amantes que vieram partilhar dessa visão amorosa do mundo.Pivin e Pascal, em depoimento ao jornalista Victor Gouvêa.

A foto mostra um rapaz negro usando um chapéu, por volta de seus vinte e poucos anos, recostado contra uma árvore com as pernas abertas. Sobre a visão de Pierre Verger do corpo negro, perguntei ao antropólogo Hélio Menezes sua opinião. “Verger vem sendo questionado há algum tempo, sobretudo nesses aspectos de erotização do corpo negro masculino. E também no olhar e práticas coloniais, mesmo porque, proximidade real não impede olhar de colonizador”, disse. “Acho ali a coisa mais complexa, mas esse é um longo papo.”

Concluímos juntos que esse espectro da conversa renderia por si só uma tese de mestrado ou doutorado, e para efeitos de tempo e espaço na conclusão dessa narrativa, seria melhor deixar apenas a importante menção a estas críticas. O “apetite” de Verger pelas culturas negras como um todo, segundo Pivin, nasceu no Bal Nègre, um baile na Rue Blomet, que ele frequentava com amigos. Foi lá que ele teve as primeiras relações discretas com homens que trabalhavam em casas de burgueses de seu entorno.

Verger vem sendo questionado há algum tempo, sobretudo nesses aspectos de erotização do corpo negro masculino. E também no olhar e práticas coloniais.Hélio Menezes, antropólogo

“Os termos usados por Pierre Verger nunca foram inapropriados ou rudes”, seguem Jean e Pascal no relato. Lembram-se de uma única vez em que ele foi explícito em um comentário, ao apanhar um táxi em Salvador. “Ele tem um belo rabo, este jovem!”, teria dito Verger. “Então uma espécie de riso louco o tomou, como se ousar dizer isso não passasse de uma brincadeira.” A liberdade de expressão que experimentava teria ocorrido após a morte da maioria de seus amigos homossexuais, vítimas da epidemia de HIV na época. 

Isso levou os editores a ponderarem sobre a revelação pública de sua homossexualidade. E a resposta de Verger era categórica, segundo eles: “Por que dizer? Por que incomodar tantas pessoas que te amam ou têm uma amizade ou respeito por você? Eu não quero correr o risco de me machucar e perder um relacionamento agradável só pelo prazer de afirmar uma homossexualidade da qual você não precisa ser ‘orgulhoso’. É assim que as coisas são, só isso”.

Eu não quero correr o risco de me machucar e perder um relacionamento agradável só pelo prazer de afirmar uma homossexualidade da qual você não precisa ser ‘orgulhoso’.Aspas de Pierre Verger, segundo jornalistas da revista francesa Revue Noire.

A visão de Verger denuncia certo receio anacrônico de um homem que já beirava os 70 anos de idade, ao insistir em não tornar pública sua sexualidade ― apesar de, naquela época, viver o crescente das lutas sociais por direitos. 

Para Pivin, Verger conhecia a proibição social da temática e escolhia não ser vítima dela por meio da negação. “Ele preferia a ambiguidade dos sorrisos, palavras, gestos e ações”, conta. “Por mais que ele fosse contra todas as restrições e repressão à homossexualidade, esses movimentos explícitos o pegaram desprevenido. Ele considerava que a simples tolerância, sem lhe dar um nome, era tudo o que era necessário.”

Uma história recontada

Francois ANCELLET via Getty Images
Retrato de Pierre Verger no Brasil.

Como é levantado na biografia, os especialistas reiteram que Verger só passaria a experimentar relações homossexuais depois da morte da mãe, em 1932. No mesmo ano, ele embarca ao Taiti com o amigo e pintor Eugène Huni, que na biografia é mencionado como sendo o modelo para as primeiras imagens de Verger que ganharam atenção na volta a Paris.

“Eram namorados?”, anotei no livro. Em um artigo da Unicamp, assinado pela antropóloga Iara Rolim sobre a série de fotos Pesca com Arpão, ela avalia os ângulos, a motivação primitivista do olhar europeu, as linhas geométricas e até esbarra sem querer no desejo. E só. Pivin e Pascal confirmam o que mudaria consideravelmente a análise da antropóloga da Unicamp: Eugène foi o primeiro amor (não correspondido) de Pierre Verger.  

Já em uma missão como repórter fotográfico para o jornal Paris-Soir, em 1934, em Pequim, ele provaria “outras peles”, segundo Pivin e Pascal. Mas é na África e na Bahia, que ele encontra “seu porto de amizades e amores”. Em alguns países do interior da África, lembram, era culturalmente comum o sexo entre homens. “Nem sequer havia uma palavra [para homossexualidade] em alguns lugares. E quando não há palavra a dizer, não banimos, não julgamos, não condenamos”, afirmam.

Para Verger, portanto, o fato de nomear aquelas relações é que fechava as portas para uma liberdade sexual inconsequente. “Não foi falta de coragem da parte de Pierre Verger preferir o anonimato homossexual; foi a convicção de que o que não foi dito foi melhor do que o dito”, defendem Pivin e Pascal.

As relações de Verger com os trabalhadores portuários da Bahia também se deram nessa mesma natureza simplista, ainda de acordo com a dupla de editores. Por causa dessa proximidade, o artista foi convidado para cerimônias de candomblé. Segundo os jornalistas, Verger disse que não tinha lá muita curiosidade sobre os rituais.

“Minha educação e meu ser são inteiramente racionais. Sou filho de Descartes”, teria brincado à época. Mas a alegria que eles demonstravam em recebê-lo o entusiasmou para entender as relações humanas que se davam nos terreiros. “Assim, ele participou de iniciações em que o transformismo é uma parte importante. Para renascer pela iniciação [ritualística] é preciso ser mulher quando se é homem, e vice-versa”, pontua Pivin. Verger seria iniciado como babalaô em 1953, na Nigéria, e confirmado na Bahia pouco tempo depois.

 O olhar amoroso 

Fundação Pierre Verger
Família de Pierre Verger.

“A fotografia lhe permitirá desenvolver a felicidade da solidão, a dimensão espartana de seus desejos, e sua abertura para encontros informais, fora de seu ambiente. Graças à distância, à modéstia que a câmera cria, mas também a uma cumplicidade, um vínculo, uma eternidade. Ele poderá finalmente depender de nada mais, e exercitar seu olho, sem complexos com os corpos realmente desejados”, relatam Pivin e Pascal, atribuindo à própria relação de Verger com a fotografia uma libertação homossexual.

Os nus masculinos que existem nas suas fotos, garantem, nunca foram posados, sempre vieram com a naturalidade das relações que ele construiu. “Cabe a todos interpretar a homossexualidade do olhar dele. Podemos ousar falar sobre a homossexualidade com nosso olhar porque ele pressionou o botão da câmera em momentos de extrema sensualidade.”

É claro que se encontra na obra de Pierre Verger um mundo de homens, mulheres, culturas que vão além do recorte erótico. Mas, segundo Pivin e Pascal, os limites dessas relações eram permeados por uma entrega total do fotógrafo. “O ‘outro’ não existe para Verger. O ‘outro’ é necessariamente uma parte de si mesmo, com o qual ele pode trocar um olhar, um momento ou um corpo”, explicam.

Em círculos acadêmicos, o trabalho de Verger é frequentemente inserido na corrente da “Fotografia Humanista”, que tem origem nos anos 1930. Os editores discordam: “Associaríamos a um gênero que ainda não está classificado, a ‘Fotografia do Amor’, a do desejo do outro. Um desejo que não é vinculado ao amor sexual, mas que o contém”, defendem. 

Esta nossa confissão, mais de 20 anos após a sua morte, é uma traição?

Contam que, antes de partirem de volta à França com os negativos para produzir o Le Messager, Verger os presenteou com um exemplar autografado do livro de imagens eróticas Schwarz, do crítico alemão Wolfgang von Wangenheim, e um objeto indonésio em formato de pênis utilizado para consumir uma droga local. Ele receava que, na ocasião de sua morte, esses dois itens o revelassem. “Temia que toda a sua credibilidade na Europa, no Brasil e na África fosse posta em questão pela revelação da sua sexualidade. Um babalaô gay? Um fotógrafo do mundo homossexual? Para ele, não havia possibilidade de coexistência entre essas funções e sua sexualidade”, relatam.

O último parágrafo da carta que foi enviada a mim por e-mail pelos especialistas e amigos pessoais de Pierre Verger, trouxe uma nova dimensão. “Esta nossa confissão, mais de 20 anos após a sua morte, é uma traição?”, questiona a dupla. E justificam: “Pensamos muito, mas seria um erro privar Pierre Verger dessa possibilidade de leitura e entendimento. A sua homossexualidade faz parte do seu desejo desenfreado de liberdade, de fruição da vida, de compreensão das proibições”.

Leia abaixo o trecho na íntegra:

“Esta nossa confissão, mais de vinte anos após a sua morte, é uma traição? Respeitamos a sua vontade durante todos esses anos, mas nunca nos comprometemos formalmente com ela, porque continuava a ser um assunto aberto, e assunto de conversa entre nós. Pensamos muito, mas seria um erro privar Pierre Verger dessa possibilidade de leitura e entendimento. A sua homossexualidade faz parte do seu desejo desenfreado de liberdade, de fruição da vida, de compreensão das proibições. É ela quem o faz romper com seu ambiente e suas convenções, sem procurar ser exemplo para ninguém. É ela quem o traz para a fotografia. Mostrar e não mostrar. Dizer e não dizer. É ela que o aproxima do vudu, e assim por diante. Sua homossexualidade é a força motriz por trás de muitas de suas escolhas. Decidimos, portanto, com a certeza de que Pierre Verger teria sem dúvida participado, se não do ‘orgulho gay’, mas da transparência que a sociedade ocidental permite hoje.

Jean Loup Pivin, Pascal Martin Saint Leon, Paris, septembre 2019”