MULHERES
26/07/2019 05:00 -03 | Atualizado 30/07/2019 19:03 -03

Pia Sundhage, a craque que promete novo rumo à seleção feminina de futebol no Brasil

Técnica sueca substituirá Vadão após campanha na Copa do Mundo da França e será 2ª mulher no comando da seleção.

REUTERS/David Moir
Nesta semana, CBF confirmou sueca Pia Sundhage como nova treinadora da seleção brasileira feminina de futebol.

Ela esteve presente nas últimas três finais olímpicas de futebol feminino. Fez a seleção dos Estados Unidos levar o ouro em 2008 e 2012; e não fez diferente posteriormente, em 2016, quando fez a equipe da Suécia levar a medalha de prata. Em 2011, foi vice-campeã com a seleção norte-americana na Copa do Japão. É por essas e outras que a sueca Pia Sundhage, de 59 anos, ostenta o título de melhor treinadora de futebol feminino, ganho em 2012 pela Fifa.

Com esse currículo, Sundhage aceitou convite da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para ser a nova treinadora da seleção feminina de futebol do Brasil e comandará o time visando à Olimpíada de Tóquio 2020 e à renovação.

O anúncio oficial foi feito nesta quinta-feira (25) pela organização. Sundhage se torna a segunda mulher a comandar a seleção feminina, depois de Emilly Lima  que treinou o time por dez meses, entre 2016 e 2017 ―, e a primeira técnica estrangeira a comandar a seleção brasileira de futebol feminino.

Fernanda Coimbra/CBF
Emily Lima comandou a seleção brasileira de futebol feminino por dez meses.

A bicampeã olímpica vai substituir o técnico Vadão e chega para comandar o time brasileiro com a missão de tirar o melhor das atletas e driblar a estrutura do futebol feminino onde torneios e times de base ainda são incipientes ― além de ter um contexto majoritariamente masculino.

Vadão foi demitido nesta semana após a campanha do time no Mundial da França, em que o Brasil teve desempenho satisfatório, mas foi eliminado na fase de oitavas de final pela seleção anfitriã.

Sob o comando do técnico, a seleção de Marta, Formiga e Cristiane entrou em campo somando 10 derrotas, sendo 9 delas consecutivas.

A nova treinadora afirmou em vídeo divulgado pela CBF que está “empolgada em treinar o país do futebol”, e que deseja “alcançar a melhor performance”.

Assista abaixo:

“A escolha da Pia reflete a nova dimensão que vamos imprimir ao futebol feminino no Brasil”, afirmou o presidente da CBF, Rogério Caboclo, em comunicado divulgado no site da organização.

Sundhage, que começou sua carreira no esporte como jogadora aos 15 anos, atualmente era responsável pelo desenvolvimento da base da seleção sueca. O contrato com a CBF, firmado no último dia 24, tem duração de dois anos, com possibilidade de ser renovado para outros dois.

“É uma enorme alegria termos essa lenda do futebol feminino no nosso time. Desenvolveremos um planejamento totalmente integrado entre a Seleção principal e a base, equilibrando objetivos de curto prazo”, informou.

Divulgação/CBF
Rogério Caboclo, presidente da CBF, ao lado da experiente Pia Sundhage.

Segundo o jornal sueco Dagens Nyheter, ela não pensou duas vezes em aceitar a oferta. Em entrevista ao DN, ela comparou a proposta à que a levou a ser técnica da seleção dos Estados Unidos ― que hoje ocupa o 1ª lugar do ranking da Fifa de melhores seleções do mundo e é vencedora de duas Copas.

“Foi como quando consegui o posto nos Estados Unidos. Disse sim imediatamente”, afirmou. “Claramente, alguém precisa liderar a melhor seleção do mundo nos EUA, e é a mesma coisa quando se trata de futebol e do Brasil. Então, disse sim imediatamente e negociei depois disso, por assim dizer. (...) É espontâneo como o futebol”, disse, referindo-se ao acordo de trabalho.

A sueca de 59 anos ainda elogiou a seleção brasileira e afirmou que tem a intenção de proporcionar à nova equipe uma “cultura de vitória”, mesclando a força dos Estados Unidos e a organização da Suécia.

″É um país que respira futebol com jogadoras técnicas e explosivas que podem surpreender em campo. Isso é incrível. Considero um desafio para mim, já que eles têm ótimas jogadoras”, completou Sundhage. 

Harold Cunningham via Getty Images
Pia recebeu o prêmio de melhor treinadora do mundo pelas mãos do técnico brasileiro Luiz Felipe Scolari, que atualmente comanda o masculino do Palmeiras.

Sundhage tem um currículo de dar inveja a qualquer um na modalidade. Foi aos 15 anos que ela iniciou sua carreira como jogadora de futebol e hoje ela contabiliza 71 gols em 146 jogos ao longo de sua carreira ― além de ser uma das maiores artilheiras da história da seleção sueca de futebol feminino.

Antes de ganhar projeção internacional como treinadora, ela teve desempenho significativo nas Copas de 1991 ― a primeira de futebol feminino da Fifa ― e de 1995, além de ter participado em campo dos Jogos Olímpicos de 1996. 

Ela iniciou seu trabalho como técnica em um time local sueco e, depois, deu continuidade à carreira como assistente da seleção chinesa. Mas foi em 2007 que a oportunidade de comandar a seleção norte-americana surgiu. 

Sob o seu comando, a seleção dos Estados Unidos somou 91 vitórias, dez empates e seis derrotas em 107 partidas; além de ter levado para casa o ouro nas Olimpíadas de 2008 e 2012. Antes de aceitar o convite para o Brasil, ela atuava na seleção das categorias de base sub-15 e sub-17 de seu país.

Kai Pfaffenbach / Reuters
Pia Sundhage orienta a craque norte-americana Megan Rapinoe na Copa de 2011, na Alemanha.

Talvez por acaso, em entrevista recente ao The New York Times, a craque afirmou que o grande momento tático de sua carreira foi justamente em um confronto com o Brasil, durante as quartas de final da Copa de 2011.

A seleção brasileira vencia o time norte-americano por 2 a 1 na prorrogação. Com uma jogadora a menos, que havia sido expulsa, ao invés de rearmar a equipe, ela decidiu deixar três na defesa contra três atacantes, entre elas Marta.

“Do ponto de vista tático, foi a melhor decisão da minha vida no futebol”, disse Sundhage ao NYT. “Quem mais teria feito isso?”, indagou descontraída.

Se as pessoas me perguntam sobre isso [ser gay], eu respondo que ‘Sim, sou gay’ e é assim que é.Pia Sundhage

Abertamente lésbica, a técnica sueca ― que chegou a se fingir de menino para conseguir jogar por orientação de um treinador ― já disse em outras entrevistas que, como treinadora, “não se importa” com o preconceito direcionado a ela.

“Se as pessoas me perguntam sobre isso [ser gay], eu respondo que ‘Sim, sou gay’ e é assim que é”, disse em entrevista ao site sueco The Local. “Nunca tive nenhum problema com isso sendo treinadora nos Estados Unidos ou em qualquer lugar. Era difícil quando eu tinha vinte e poucos anos na Suécia, mas mesmo naquela época eu não me importava. Essa sou eu”.