OPINIÃO
04/02/2020 00:00 -03 | Atualizado 04/02/2020 13:46 -03

Petrix Barbosa e o assédio 'de brincadeira' que precisam ser eliminados do Big Brother Brasil

É assédio muito antes do "não". Paredão desta terça (4) pode selar destino de ginasta.

Desde o início da edição de 2020 doBig Brother Brasil, o ginasta Petrix Barbosa, 27, vem causando mal-estar e desconforto, em especial, às mulheres que participam do reality show ― e também às que assistem. 

Acusado de assédio sexual, o comportamento de Petrix reflete a objetificação e violência com que as mulheres são tratadas diariamente no Brasil. Reproduzidas em rede nacional, as cenas podem acabar estimulando a perpetuação e normalização desse tipo de conduta pela sociedade brasileira. Por esse motivo, defendemos que Petrix seja eliminado no paredão desta terça-feira (4).

Mensagens de denúncia nas redes sociais e hashtags de indignação pedindo sua saída do programa se espalharam pela internet em pouco mais de um mês de programa, o que chamou a atenção da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) do Rio de Janeiro, que investiga o caso.

Nesta segunda-feira (3) ― enquanto Petrix já estava indicado ao paredão desta semana ― o ginasta foi intimado a prestar depoimento sobre as imagens veiculadas no programa em que teria assediado sexualmente três vezes as participantes Bianca Andrade, a “Boca Rosa”, e a cantora Flayslane Raiane.

A Polícia Civil destaca que, caso Petrix seja eliminado do programa no paredão desta terça-feira (4), ainda terá que comparecer à delegacia na data estipulada para prestar depoimento. Caso continue na casa, será levado até o local.

É importante pontuar que as atitudes de Petrix podem ser entendidas como importunação sexual. A lei 13.718 sobre o tema, foi sancionada em 2018 visando principalmente casos de assédio contra mulheres no transporte público, mas a legislação abarca qualquer ato configurado como libidinoso.

Antes não havia um tipo penal para enquadrar estas situações. Para se configurar o crime de importunação sexual, é preciso que o agressor realize algum ato libidinoso - ou seja, de cunho sexual - contra a vítima. A pena é de um a cinco anos de prisão. 

A primeira vez que o ginasta foi acusado de assédio no BBB 20 foi durante a primeira festa do reality. Petrix consolou e estralou as costas de Bianca Andrade, que tinha brigado com outra participante, Raffa Kalliman. 

Petrix chacoalha o tronco de Bianca, que estava nitidamente alcoolizada, tocando seus seios. O ato gerou acusações nas redes sociais e as hashtags #PetrixExpulso e #PetrixAssediador ficaram entre os assuntos mais populares e também pediam um posicionamento da TV Globo sobre o caso.

Bianca foi chamada ao confessionário e, questionada pela produção, negou que tivesse se sentido assediada. Ela disse ter poucas lembranças mas que não se sentiu desconfortável. “Lembro que dancei com o Petrix. Não me causou desconforto, zero. Tenho certeza que a intenção ali [dele] foi me animar”, disse a participante. A emissora optou por não expulsar o rapaz do reality show.

A segunda acusação de assédio também envolveu Bianca. Dessa vez, o ocorrido foi logo após a eliminação de Lucas Chumbo, no domingo (2). Ao abraçar por trás a participante, Petrix reproduziu movimentos de um ato sexual.

Já no terceiro caso, quando o rapaz esfregou suas partes íntimas na cantora Flayslane, ele foi chamado ao confessionário, e a Globo disse, durante o programa, por meio de Tiago Leifert, que o participante foi advertido.

Pouco depois, o ginasta apareceu no gramado se desculpando tanto com Bianca Andrade quanto com Flayslane por qualquer comportamento que poderia ter soado inapropriado. Elas aceitaram e refutaram a ideia de que sofreram qualquer tipo de assédio sexual por parte do atleta.

Mas comportamentos como estes seguem um padrão. São entendidos como uma “brincadeira”, “coisa de homem”. É como se houvesse autorização para tocar o corpo das mulheres como se fosse público. Permissivo, apenas por ser um corpo de mulher. É preciso dizer não a eles mesmo que as próprias vítimas não se reconheçam como tal - ora com receio da denúncia se voltar contra elas, ora com dificuldade de entender que, sim, é assédio muito antes do “não”.

Além do caso de Petrix, a nova edição do reality tem gerado repercussão nas redes sociais devido a declarações e outros comportamentos de outros homens que integram o reality. Comentários que beiram a objetificação, depreciação e táticas de conquista predatórias já vieram a público.

Em outro caso apontado como assédio, o fisioterapeuta Lucas levanta a toalha de Flayslane e pergunta se ela estava pelada. “Não é da sua conta, Lucas”, respondeu a participante. 

Há quem veja ironia na situação de Petrix; ele é um dos ginastas responsáveis por denunciar o técnico Fernando de Carvalho Lopes - hoje banido do esporte - por abuso sexual, em 2018. Ele foi o único que mostrou o rosto e falou com a imprensa.

“Eu não quero mais que isso aconteça. Em nenhum esporte, em nenhum lugar”, disse em reportagem do Fantástico, da TV Globo, exibida naquele ano. À época, 42 ginastas denunciaram o ex-técnico da seleção brasileira.

Mesmo apresentando uma queda significativa na audiência ao longo das décadas de exibição e recorrendo a um elenco cheio de influenciadores digitais para tentar atingir outros públicos, o Big Brother Brasil ainda chega ao lar de milhões de brasileiros todos os anos no horário nobre da televisão brasileira.

Em 20 anos de programa, ele atravessa fronteiras da televisão e promove os três meses de maior audiência na internet brasileira.

É responsabilidade de um reality show com tamanha repercussão não só exaltar o respeito às mulheres, mas ressaltar que comportamentos que reforçam o machismo estrutural não podem ser tolerados nem normalizados.

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