OPINIÃO
01/05/2019 08:18 -03 | Atualizado 01/05/2019 08:18 -03

Ativismo em prática: Como mudar o mundo começa com um clique

Petições online empoderam cidadãos e alcançam vitórias reais que transformam vidas.

vectorplusb via Getty Images
Abaixo-assinado online pode transformar a realidade.

Se você já pensou em melhorar alguma coisa no seu bairro, cidade ou país e, se além disso, ainda gostaria de ter à mão um instrumento que te ajudasse a pressionar governos e autoridades a atenderem seu pedido, boa notícia: essa ferramenta já existe. Ela é muito mais acessível e efetiva do que se imagina! Com certeza você já a conhece, mas talvez ainda não saiba explorar todo o seu potencial. É o abaixo-assinado online e o poder real da mudança começa com apenas um clique.

Os números não mentem e aqui estão eles para comprovar o quanto a democracia é ampliada e pode ser melhorada a partir da criação de uma petição que começa pela internet. A Change.org, maior plataforma de abaixo-assinados do mundo, contabiliza cerca de 340 causas vitoriosas desde que chegou ao Brasil, em 2012. Segundo estimativas da organização, que têm 284 milhões de usuários espalhados pelo planeta, a cada hora um abaixo-assinado aberto na plataforma se torna vitória no mundo.

Está ansioso para saber como isso funciona? Apesar de tudo começar com um clique, saiba que muito trabalho e “mão na massa” devem acontecer depois para que a mobilização seja bem-sucedida. É o que explica o diretor de Campanhas e Comunicação da Change.org Brasil, Rafael Sampaio. “Criar uma petição online é fácil e intuitivo. Mas é importante ter clareza de que o abaixo-assinado é um instrumento de pressão social. Ele só funciona se o criador entender como usar esse instrumento e de fato se engajar no que ele quer mudar. Tem que coletar assinaturas, fazer barulho nas redes sociais, tentar reuniões com quem pode tomar decisões, ir à rua”, enumera Sampaio.

Assista a um vídeo explicativo sobre como fazer um abaixo-assinado vitorioso.

A orientação básica para quem deseja criar uma campanha online é ter total clareza do pedido a se fazer e ser o mais objetivo possível no texto da petição. A Change.org orienta, por exemplo, que o peticionário (criador do abaixo-assinado) conte sua história pessoal e detalhe de que maneira ele está interligado ao que deseja alcançar. Uma tática é tentar responder algumas perguntas, como: “Quem é você?”; “O que quer?”; “Por que quer?”; “Quem pode resolver?”; “O que acontece se o pedido não der certo?”.

Outra dica importante é identificar quem é a autoridade que pode tomar a decisão e, então, dirigir a petição a ela. Foi o que fez o empresário Rogério Nagai, que já criou 7 abaixo-assinados na Change.org, sendo 2 vitoriosos, e assinou outra centena. Nagai foi autor de uma petição que pediu para o Governo do Estado de São Paulo liberar o transporte de animais de estimação nos trens e metrôs. Depois de abrir o manifesto, ele identificou as autoridades que poderia pressionar e foi até elas.

Na saga, além de pedir ajuda a conhecidos e divulgar o abaixo-assinado em suas redes sociais, Nagai reuniu apoiadores e entregou as milhares de assinaturas recolhidas a deputados na Assembleia Legislativa e à diretoria do Metrô. O resultado? Conseguiu a sanção de uma lei que autoriza o acesso dos pets aos meios de transporte do Estado de São Paulo - trens, metrôs e ônibus intermunicipais.

Yahisbel Adames/Change.org
Rogério Nagai conseguiu a liberação do transporte de animais de estimação no metrô de São Paulo.

“Acreditava que os abaixo-assinados online tinham poder limitado”, comenta Nagai. “Não imaginava que teriam um poder de propor mudanças de leis”, completa. O empresário diz enxergar na plataforma uma possibilidade de diálogo “muito forte” entre o cidadão e o poder público. “Acredito que não só as petições, mas a opinião pública, esse alavancamento de assinaturas e mobilização com a mídia, enfim, uma série de procedimentos, são fundamentais para poder mudar as leis, inclusive.”

Melhorando a democracia

O diretor da Change.org destaca que um dos pontos fortes da plataforma é seu perfil de ser um “esteio da democracia”, já que se trata de um espaço aberto, onde qualquer pessoa, de qualquer lugar do Brasil e de 196 países, pode abrir suas reivindicações, defender suas causas e criar mobilizações independentemente de suas posições políticas ou pontos de vista. Para ele, a possibilidade trazida pela plataforma, de dar voz e vez ao cidadão, faz que a democracia saia mais fortalecida após cada petição.

“O Brasil dá muito poder a seus representantes eleitos e pouco para a sociedade. Fora das eleições, a população dificilmente é ouvida. Quantos plebiscitos foram realizados desde a Constituição de 1988? Só 1. Quantas leis foram criadas por iniciativa popular? Só 5. Dá para contar nos dedos da mão. Então os abaixo-assinados são, de certa forma, instrumentos de democracia participativa. Fortalecem o debate democrático”, ressalta Sampaio.

Ele lembra que toda semana cerca de 600 petições dos mais diversos assuntos são criadas na Change.org, desde a instalação de postes de iluminação em uma rua até pedidos que salvam vidas, como a liberação de um medicamento de altíssimo custo para tratamento de uma doença rara. Esses exemplos são reais - o primeiro ainda segue mobilizando gente e o segundo alcançou conquista na semana passada.

Na última quarta-feira (24/4), o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta anunciou uma portaria que libera, via SUS (Sistema Único de Saúde), um remédio para tratamento da Atrofia Muscular Espinhal (AME). No momento em que aprovava a medida, o ministro exibia um calhamaço com mais de 1 milhão de assinaturas coletadas em 2 abaixo-assinados que pediam a distribuição do medicamento.

Luan Palmieri/Coletivo UNI
Associação Unidos pela Cura da AME conseguiu, por meio de petição, remédio para tratamento da Atrofia Muscular Espinhal no SUS.

Os abaixo-assinados haviam sido criados na Change.org por Renato Trevellin, pai de Gianlucca, portador de AME, e por Paula Chohfi, advogada e ativista da causa. Ambos viram na petição online uma forma de pressionar o poder público. “Foi muito bom ver a participação popular colaborar de alguma maneira”, comenta Trevellin, que é presidente da associação Unidos Pela Cura da AME. “Um simples ato que leva poucos segundos conseguiu atrair tantas pessoas”, completa sobre o processo de criação online.

“Mudar algo na vida de alguém é mudar o mundo dessa pessoa.” Você já deve ter ouvido essa ou alguma frase parecida antes. Ela faz sentido para a estudante de Psicologia Larissa Santana, de 20 anos, que se descobriu ativista e líder de comunidade depois de criar sua primeira petição online.

A jovem mora no bairro de Vila Albertina, periferia da zona norte de São Paulo, e, após participar de um workshop voltado a mulheres, promovido pela Change.org, decidiu usar a plataforma para tentar resolver um problema de iluminação pública que aflige os moradores da região.

Até agora,Santana juntou mais de 103 mil apoiadores em torno da causa e, com auxílio da equipe da plataforma, conseguiu levar as assinaturas até a Câmara Municipal. A universitária se diz surpresa pela proporção que a mobilização tomou. “Eu fiz a petição e achei que não iria ter tanta resposta como tenho agora. Foi uma coisa que me surpreendeu bastante”, diz. “Se todas as pessoas tivessem conhecimento sobre isso muitas causas na cidade de São Paulo poderiam ser mudadas.”

Luan Palmieri/Coletivo UNI
Estudante de Psicologia Larissa Santana, de 20 anos, colheu mais de 100 mil assinaturas para iluminação de seu bairro.

Santana ainda segue pressionando o poder público e mobilizando gente para conseguir a instalação dos postes de iluminação pública. A estudante espera que aquele clique no botão “Fazer abaixo-assinado”, dado em novembro do ano passado na página da Change.org, mude a vida dos moradores da Vila Albertina... Afinal os escadões e vias escuras do bairro representam parte do mundo dessas pessoas.

Mais dicas para um abaixo-assinado de sucesso

Assim como a de Larissa Santana, o diretor da Change.org ressalta que as petições devem ter um pedido concreto, ou seja, apresentarem algo “realizável”. Ele explica que uma solicitação genérica, como “a paz mundial”, não tem como “ir para frente”. Outro ponto de atenção é evitar uma mistura de pedidos num mesmo abaixo-assinado. A solicitação deve ser pontual e bem direcionada, além de conter um texto simples e didático.

“Vejo muita gente escrevendo petições com textos longos, ‘técnicos’, em uma tentativa de fazer um texto embasado. É válido, mas não é isso que faz a petição ser lida ou ter mais chances de vitória. Eu diria que 95% das pessoas que vão ler uma petição sobre meio ambiente, por exemplo, são leigas no assunto. Um texto didático, curto e objetivo, com informações corretas, além de uma foto impactante, tende a atrair muito mais a atenção das pessoas leigas”.

Título curto, objetivo e chamativo é requisito básico para que uma petição dê certo e gere, de fato, a mudança social que se almeja. Esse ponto é importante pois o título é a primeira coisa que irá atrair alguém a ler e assinar a petição, logo, deve sensibilizar e comunicar de imediato qual é a causa defendida pelo abaixo-assinado.

E na era das redes sociais, vale lembrar que o compartilhamento do link da petição no Facebook, WhatsApp e Twitter ajuda a aumentar o impacto e alcance dela.

Sampaio ressalta: apesar de o ativismo começar com “apenas um clique”, ele não deve terminar aí. O diretor pondera que o autor de uma abaixo-assinado deve ter um envolvimento “genuíno” com a causa e estar disposto a levá-la adiante, comunicando cada avanço aos seus apoiadores por atualizações constantes que podem ser postadas na plataforma.

“A receita do sucesso está em criar uma petição didática, simples e atraente, e em usá-la de todas as formas possíveis para chamar a atenção ao que está sendo pedido. Não desistir, ser criativo e entender que o abaixo-assinado é um meio de atingir um objetivo, nunca é um fim em si”, conclui.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.