OPINIÃO
10/08/2020 17:29 -03 | Atualizado 10/08/2020 17:29 -03

'Perry Mason': A ordem dos fatores alterou o produto

Produção da HBO tinha tudo para ser uma das grandes séries de 2020, mas fica na intenção.

Diretor de prestígio? Ok. Elenco com atores premiados e grandes promessas? Ok. Roteiristas com ótimos trabalhos no currículo? Ok. Orçamento acima da média? Ok. Perry Mason - que teve o último episódio de sua 1ª temporada exibido no último domingo (9) - tinha tudo para ser uma das melhores séries de 2020. Mas... 

No que diz respeito aos números, a HBO teve muito o que comemorar. A estreia da produção dirigida por Tim Van Patten teve a melhor audiência da casa em dois anos. E o que era para ser uma minissérie, logo foi renovada para mais uma temporada. Algo que havia acontecido com outro grande sucesso do canal: Big Little Lies.

Porém, diferente do que aconteceu com BLL, Perry Mason não teve o mesmo impacto com a crítica, que ficou dividida. Enquanto veículos como The Washington Post, IndieWire, Vulture e Vanity Fair teceram elogios à série, outros não se empolgaram. Entre eles: The Guardian, The New York Times, Rolling Stones e Variety.

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Juliet Rylance e Matthew Rhys na série "Perry Mason".

A questão é que a série conta com muitos pontos positivos, mas a ordem desses fatores, por alguma razão, alterou o produto.

Reboot de uma série clássica que foi um dos grandes sucessos da TV americana entre 1957 e 1966 evocando um Perry mais advogado, a versão “atual” de Perry Mason mira mais na série de livros da década de 1930 e 40, escrita por Erle Stanley Gardner, que ainda mostravam o protagonista como um detetive e tinha um clima bem mais pulp e violento. 

Na Los Angeles de 1932, o casal Matthew e Emily Dodson (Nate Corddry e Gayle Rankin), seguidores de uma religiosa chamada Irmã Alice (Tatiana Maslany), tem seu pequeno filho Charlie raptado. Os sequestradores pedem US$ 100 mil de resgate e recebem a quantia em dinheiro, mas entregam o bebê já morto. 

Para solucionar o crime, Herman Baggerly (Robert Patrick), um membro abastado da igreja da Irmã Alice, contrata o serviços de um conhecido seu, o veterano advogado E.B. Jonathan (John Lithgow), que pede ajuda a Perry Mason (Matthew Rhys) um detetive alcoólatra que já fez alguns trabalhos de investigação para ele.

Porém, enquanto Mason tenta descobrir quem matou o pequeno Charlie, Emily Dodson, a mãe do bebê, é apontada como a principal suspeita do sequestro seguido de morte e E.B. e sua assistente Della Street (Juliet Rylance) assumem a defesa dela.

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John Lithgow como o veterano advogado E.B. Jonathan.

Van Patten é um dos maiores diretores da TV americana, tendo dirigido episódios em produções de renome, como Família Soprano, The Wire, Roma, Sex and The City e Black Mirror

Matthew Rhys está excelente - como sempre - na pele do protagonista e tem junto com ele atores incríveis, como o consagrado John Lithgow, e estrelas em ascensão como Tatiana Maslany (que destroi em Orphan Black) e Juliet Rylance.

O design de produção é caprichadíssimo, reconstruindo a Los Angeles da década de 1930 com uma riqueza de detalhes digna de um orçamento de Hollywood.

A dupla de criadores e roteiristas, Ron Fitzgerald e Rolin Jones, também possue um currículo invejável, produzindo e escrevendo séries como Weeds, Friday Night Lights, United States of Tara e Westworld.

Então, por que Perry Mason não deu liga?

Os atores não têm culpa alguma. Na verdade, eles são o principal motivo para se assistir Perry Mason. Rhys, sozinho, chega até a nos fazer esquecer a trama modorrenta, que demora (demais) a engrenar.

O problema principal está no roteiro. Em uma biblioteca tão vasta de casos com mais pegada que poderiam encontrar nos livros de Gardner, a dupla Fitzgerald e Jones prefere abdicar do mistério e focar em uma leitura mais social das aventuras pulp, bagunçando o ritmo da série.

Manter a fluidez de um thriller policial sem deixar de lado o retrato socioeconômico e racial da época é perfeitamente possível. Algo que o escritor James Elroy faz com maestria. É só ver a adaptação de um de seus livros para o cinema, o excelente Los Angeles Cidade Proibida (1997), dirigido pel saudoso Curtis Hanson, e você vai entender.

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Tatiana Maslany como a carismática líder religiosa Irmã Alice.

E é aí que entramos no segundo fator que contribuiu (e muito) para o fato de Perry Mason não deslanchar: a direção. Como já foi dito, Van Patten é um diretor competentíssimo, mas aqui ele caiu em uma armadilha traiçoeira, a de priorizar a forma em detrimento do conteúdo. Tanto que já foi ressaltado o quando o design de produção de Perry Mason é impressionante.

Visualmente, a série é impecável. Às vezes, isso só já basta para elevar o status de um filme, mas estamos falando aqui de uma série. Em uma série, os personagens são desenvolvidos ao longo de muito tempo e histórias paralelas são construídas para que a trama siga um ritmo equilibrado enquanto vamos nos tornando cada vez mais íntimos desses personagens. É exatamente aí que Perry Mason peca. É uma série que pensa como um filme.

Agora, Perry Mason é uma série ruim? Não, não é. Há muitas qualidades que já ressaltamos aqui. A questão é que seus problemas atingem engrenagens essenciais para o funcionamento perfeito do motor e ele, mesmo que às vezes pegue no tranco, acaba engasgando demais, resultando em uma viagem que não é tão agradável como deveria ser.