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16/08/2020 03:00 -03

Médicos buscam aprimorar diagnóstico e tratamento para perda de olfato pós-covid

Possível sequela da doença pode levar a distúrbios alimentares e impactar na saúde mental; Maioria dos pacientes consegue recuperar o sentido.

Nádia abandonou o hábito diário de tomar café. A manteiga feita na fazenda da família de Ivaildes perdeu a graça. Monica faz parte de uma pesquisa que busca mapear possíveis sequelas da covid-19, incluindo a perda de olfato. Nenhuma delas sente mais o cheiro ou o gosto dos alimentos da mesma forma, mesmo estando “curadas” da doença há meses. Enquanto pesquisadores buscam respostas, médicos têm trabalhado nos consultórios para aprimorar o diagnóstico e o tratamento para a recuperação desse sentido.

É comum não conseguir sentir cheiros quando se está gripado, por exemplo, mas, em geral, essa capacidade volta após alguns dias. Há vírus respiratórios que causam essa perda de forma prolongada, mas são raros os casos. 

A frequência desse sintoma tem sido a diferença no caso da covid-19. “Quase dois terços dos pacientes estão tendo algum tipo de perda. Muitas vezes é uma perda completa. Mas tem essa característica diferente de que volta mais rápido. A maioria dos pacientes recupera a capacidade de sentir o cheiro e o gosto em 3 ou 4 semanas”, afirma Fabrizio Ricci Romano, presidente da Academia Brasileira de Rinologia (ABR).

A técnica de enfermagem Monica Cristina Muneratti da Costa, de 49 anos, se contaminou no trabalho. Os sintomas começaram em 11 de junho. Cinco dias depois, ela fez o teste molecular (RT-PCR), que deu positivo. Ficou 9 dias em casa e depois voltou a trabalhar. Monica sentiu dor de cabeça e no corpo e diarreia, além de perda total do olfato e do paladar.

A técnica em enfermagem trabalha na área de neurologia do Hospital das Clínicas da Unicamp, mas atendeu na UTI (unidade de terapia intensiva) para covid-19 por alguns dias. “Acho que foi quando fiquei contaminada”, conta. 

Dois meses depois, a recuperação não está completa. “Estou recuperando o olfato aos poucos. Às vezes está uns 70%, cai e não sinto cheiro de nada. Depois volta de novo. Fica oscilando”, diz. A situação estava pior nos dias em que os outros sintomas estavam mais agudos. “Durante a covid, senti muita falta do paladar e do olfato. Não tive vontade de comer. Depois que passou os 14 dias, e acho que a carga viral baixou bem, começou a voltar aos pouquinhos”, conta.

Além da perda do olfato, Monica sente outras possíveis sequelas do vírus. “Estou muito esquecida. Hoje eu ia pegar um chá para levar para minha mãe e acabei esquecendo. Deixo o celular para trás. Tenho que me concentrar mais para fazer as atividades”, conta. Ela também se queixa de perda na visão, dores nas pernas e nos braços e insônia. “Eu tenho medo porque a gente vê tanta sequela que está aparecendo. A gente não sabe. Cada dia as pessoas dão um diagnóstico diferente.”

Eu tenho medo porque a gente vê tanta sequela que está aparecendo. A gente não sabe. Cada dia as pessoas dão um diagnóstico diferente.Técnica de enfermagem Monica Cristina Muneratti da Costa, de 49 anos

Monica é uma das voluntárias de uma pesquisa da Unicamp com mais de 500 pacientes para estudar possíveis consequências a médio e longo prazo causadas pelo SARS-CoV-2. Em uma das etapas, uma consulta com um neurologista, ela teve dificuldades em alguns testes cognitivos, como repetir uma história contada pelo médico e fazer contas. “Ele perguntava quanto dá 6 menos 7. Depois o valor vai diminuindo e você não tem raciocínio. E é uma conta tão boba que você fala ‘meu Deus’. Mas na hora dá um branco, sabe?”, conta a técnica em enfermagem. 

Além da consulta, ela fez um exame de sangue e uma ressonância magnética no crânio, mas não tem feito qualquer tratamento de reabilitação.

Arquivo pessoal
A técnica de enfermagem Monica Cristina Muneratti da Costa, de 49 anos, se contaminou no trabalho e sofre com a perda de olfato e de memória.

Para recuperação do olfato, os otorrinos têm adotado medicamentos usados para perda de sentido por outros vírus e o treinamento olfatório, feito com essências específicas em casa. De acordo com Romano, a resposta é mais efetiva se o paciente busca ajuda no início. “Vale a pena tratar porque os resultados são bons. Faz muita diferença procurar logo. Quanto mais precoce o tratamento, maior a chance de voltar o olfato”, afirma. 

Vale a pena tratar porque os resultados são bons. Faz muita diferença procurar logo. Quanto mais precoce o tratamento, maior a chance de voltar o olfatoFabrizio Ricci Romano, presidente da Academia Brasileira de Rinologia

A recomendação é que a pessoa procure um médico se, após 2 ou 3 semanas de sintomas, ainda não conseguir sentir odores. É preciso respeitar esse período de isolamento, para evitar que outras pessoas sejam contaminadas.

No médio e longo prazo, deixar de sentir cheiros pode levar a distúrbios alimentares, assim como causar impacto na saúde mental. Sentir odores também é um mecanismo de proteção para, por exemplo, perceber um escape de gás ou que uma comida está estragada. Alguns pacientes nessa situação também relatam ansiedade por não perceber seus odores corporais, como mau hálito. 

“A gente às vezes não dá muito valor para o olfato, mas 80% da nossa sensação de paladar vem do olfato, porque a gustação, que é na língua, só consegue perceber azedo, doce, salgado, amargo e umami, que é um sabor tipo do glutamato de sódio. Toda nuance de sabor é dada pelo olfato”, explica o presidente da ABR.

Por esse motivo, não sentir cheiros pode levar a pessoa a perder o prazer de comer. “A gente tem visto pacientes que acabam emagrecendo – ou o contrário, porque como a pessoa só sente o salgado ou muito doce, acaba comendo comidas não saudáveis para conseguir algum estímulo. A gente tem os dois pólos de distúrbio alimentar”, afirma o otorrino.

A economista Ivaildes Oliveira, de 70 anos, perdeu 6 quilos após ter sido diagnosticada com covid-19, no final de maio. “No dia em que minha mãe morreu, eu tive o resultado [do teste molecular] e me avisaram para ficar 15 dias em isolamento”, conta. Ela teve febre, dor de cabeça e de garganta, tosse e deixou de sentir o cheiro e o sabor dos alimentos. “Não estava comendo. Emagreci muito. Não tive vontade de beber água, nada. Passei dias sem comer nada”, lembra.

Eu como porque tenho que comer, mas não sinto o saborIvaildes Oliveira, de 70 anos, economista

Após mais de dois meses, ela conta que recuperou muito pouco do olfato e do paladar, mesmo quando tenta os alimentos que mais gosta. “Trouxe uma manteiga de gado da fazenda, coisa pura, coloquei no pão. Não senti cheiro nem nada. Manteiga pura, com pão ou biju era uma delícia. Agora não estou sentido mais não”, lamenta.

Sem o sabor da comida, a alimentação também fica prejudicada. “Eu como porque tenho que comer, mas não sinto o sabor”, conta. Além das possíveis sequelas da covid, a economista também enfrenta uma diverticulite.

Arquivo pessoal
A economista Ivaildes Oliveira, de 70 anos, emagreceu 6 quilos após perder o olfato e o paladar ao ser contaminada pelo novo coronavírus.

O que fazer se o olfato não voltar?

Entidades médicas da área de otorrinolaringologia têm buscado orientar os profissionais da área a diagnosticar a perda e tratar esse grupo de pacientes da forma correta. Um dos mecanismos usados são aulas online.

Em março, associações médicas brasileiras passaram a considerar a perda de olfato como sintoma de covid. Em 22 de março, a Academia Brasileira de Rinologia e a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) recomendaram, em nota conjunta enviada a associados, o isolamento de quem identificasse esse sinal.

No pós-covid, o treinamento olfatório é feito com essências específicas em casa, mas é possível uma adaptação com produtos caseiros, como café, desde que haja recomendação médica. “A gente sabe que não é todo mundo que tem disponibilidade, então existe um treinamento mais caseiro, que você pode fazer usando substâncias do dia a dia, mas tem de ser estruturado, com os segundos de cada cheiro, tantas vezes por dia. Isso tem de ser seguido direitinho”, afirma o presidente da ABR.

Com o olfato prejudicado desde maio, a jornalista Nádia Mendes, de 30 anos, chegou a fazer esse treinamento caseiro por cerca de um mês. Ela cheirava café, mel e vinagre diariamente, duas vezes por dia. Ela percebeu certa melhora, mas depois o efeito foi outro. “Comecei a sentir um cheiro estranho, como se fosse um cheiro de queimado. Tudo que eu cheirava tinha esse cheiro e aí parei de fazer o treinamento”, conta.

Em março, Nádia sentiu dor de garganta e um pouco de aperto no peito por uma semana, e achou que era ansiedade. Em maio, teve uma sinusite prolongada. Foi nesse momento em que perdeu o olfato e que a médica que a atendeu disse que ela poderia ter tido covid 2 meses antes. Em maio, o teste molecular (RT-PCR) deu negativo, e o sorológico, que detecta anticorpos, deu positivo.

Não estou encontrando as pessoas, então a comida acaba sendo uma companhia. E quando não é exatamente o que a gente lembra, rola essa frustração.Nádia Mendes, jornalista

Desde que passou a sentir o cheiro de queimado, também passou a sentir esse gosto, o que a levou a abandonar o hábito diário de tomar café. “O pior para mim é não conseguir tomar café. Coisas salgadas eu consigo comer mais tranquilamente. Só se for frito que fica meio estranho de comer. E o café, fica impossível de tomar. Tentei fazer docinho, mas não dá”, conta. 

A cachorra que adotou em março é a única companhia da jornalista que mora no Rio de Janeiro, e sentir prazer em comer ajudava a lidar com o isolamento. “Não estou encontrando as pessoas, então a comida acaba sendo uma companhia. E quando não é exatamente o que a gente lembra, rola essa frustração. Esses dias eu comprei um bolo. Eu lembro que ele era muito gostoso, e, quando fui comer, não era como eu lembrava”, conta. Nádia chegou a fazer uma ressonância magnética, e o exame não detectou qualquer alteração no bulbo olfatório, então ela afirma que “só resta esperar”.

Arquivo pessoal
A jornalista Nádia Mendes, de 30 anos, abandonou o hábito diário de tomar café após passar a sentir cheiro e gosto de queimado.

O que se sabe sobre a perda de olfato pós-covid?

As pesquisas até o momento indicam que a covid-19 está associada à disfunção do olfato e do paladar, principalmente nos quadros menos graves. Também há relatos de anosmia [perda do olfato] aguda no período mais crítico da doença. Não se sabe ainda se a sequela pode ser permanente, e a frequência em que isso aconteceria.

Também é cedo para detectar possíveis impactos na memória olfativa, ligada à capacidade de lembrar acontecimentos a partir de cheiros. Isso acontece devido à relação entre esse sentido e o sistema límbico, parte do cérebro onde se concentram as memórias e local de onde surgem as emoções. 

Estudos prévios com outros coronavírus mostram que algumas infecções afetam a mucosa nasal, o que poderia explicar a perda de olfato. Apesar de haver evidências de  distúrbios olfatórios pós-virais para influenza e outros vírus, há apenas um único relato de caso de anosmia persistente associada ao coronavírus.

A disfunção de olfato no caso do novo coronavírus é causada pela infecção de células não-neurais, de acordo um estudo publicado em maio. A pesquisa foi feita por pesquisadores de diversas instituições, incluindo o Departamento de Neurobiologia da Escola de Medicina de Harvard.

De acordo com os estudos concluídos até o momento, os neurônios olfatórios localizados no nariz não são diretamente afetados. É quando a partículas de odor entram em contato com essas células que sentimos o cheiro. 

A resposta parece estar nas células de sustentação que ajudam esse tipo de neurônio a trabalhar. “Aparentemente o SARS-CoV-2 se liga nessas células de sustentação, e a gente não sabe por qual mecanismo. Se é uma inflamação dessas células, se é um problema nos vasos sanguíneos. Mas de alguma maneira isso acaba afetando a transmissão de informações do neurônio”, explica o presidente da ABR. O fato de, na maioria dos casos, voltar rápido também é um indicativo de que o neurônio não foi afetado.

No Brasil, um estudo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-USP) avaliou mais de 650 pacientes com base em seus relatos. Cerca de 80% afirmaram ter perda parcial ou total do olfato e 76% disseram ter perdido o paladar. Dois meses após o primeiro contato, 140 pacientes com anosmia foram contactados e 95% deles relataram que a capacidade de sentir cheiros havia voltado total ou parcialmente.

Uma pesquisa em centros de várias cidades brasileiras, coordenada pela USP de Ribeirão Preto, também está sendo feita com testes de olfato. “Esse estudo do HC já está concluído foi baseado em avaliação subjetiva, então simplesmente no relato dos pacientes. A gente tem outro estudo em andamento, que é multicêntrico, no Brasil inteiro, com testagem objetiva dos pacientes, fazendo teste de olfato – mas esse estudo ainda não terminou”, afirma o otorrino Fabrizio Ricci Romano. “Estão colhendo os dados, mas os resultados estão parecidos.”

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