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03/12/2019 18:50 -03 | Atualizado 04/12/2019 17:50 -03

Dois tipos de peixes afetados pelo óleo estão impróprios para consumo, aponta análise

Amostras de xaréu e sapuruna coletadas próximo à Ilha de Itamaracá (PE) foram reprovadas. Maioria dos pescados analisados, no entanto, está própria para consumo.

LEO MALAFAIA via Getty Images
Voluntários removem óleo na praia de Santo Agostinho, Pernambuco, em 21 de outubro de 2019.

O resultado preliminar do teste encomendado pelo governo de Pernambuco à PUC-RJ (Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro) mostra que a maior parte dos pescados da região estão liberados para consumo. Foram enviadas à PUC 94 amostras no mês passado. Destas, 55 já foram analisadas e 53 consideradas próprias para consumo. As duas que não passaram no teste foram de xaréu (uma entre as seis coletadas) e de sapuruna (uma entre as três coletadas). Ambas amostras reprovadas foram coletadas nas proximidades da Ilha de Itamaracá.

Nestas duas amostras foram encontrados níveis de benzeno(a)pireno acima do recomendado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). “Sugere-se por precaução que o consumo de xaréu e sapuruna seja temporariamente evitado”, diz trecho do estudo. 

O teste foi realizado com 13 espécies de peixe (ariocó, boca torta, budião, carapeba, cavala, cioba, coró, manjuba, sapuruna, saramunete, serra, tainha e xaréu), duas espécies de camarão (camarão rosinha e camarão sete barbas), além de marisco, ostra e sururu.

Os pescados foram coletados de pescadores artesanais em cinco dos locais afetados no estado: Cabo de Santo Agostinho, Canal de Santa Cruz, Ilha de Itamaracá, Sirinhaém e Tamandaré. Pernambuco teve mais de 40 praias atingidas por óleo, além de rios e mangues. 

O estado foi um dos mais afetados pelo óleo que chegou à costa brasileira há mais de 90 dias e já atingiu 11 estados - do Maranhão ao Rio de Janeiro -, passando por mais quase 900 locais. O petróleo que continua chegando à vários locais do litoral é altamente tóxico.  

O HuffPost esteve na costa pernambucana no início de novembro e encontrou pescadores artesanais que tiveram sua vida completamente impactada pelo óleo desde o início da chegada do óleo à costa brasileira. Segundo relatos ouvidos pela reportagem, eles vinham pescando apenas para consumo, sem conseguir vender suas mercadorias.  

Em 11 de novembro, o Ministério da Agricultura divulgou uma nota em que atestou a qualidade dos pescados, sem nenhuma ressalva. Contudo, o HuffPost conversou com o pesquisador responsável pelo teste, o professor Renato Carreira, do Laboratório de Estudos Marinhos e Ambientais, que contestou a pasta. Segundo ele, o exame daquela ocasião foi realizado apenas com pescados industriais, não artesanais, registrados pelo Serviço de Inspeção Federal. 

Especialistas alertam que, embora as grandes manchas de óleo não possam mais ser vistas, as pequenas partículas e até invisíveis são tão ou mais prejudiciais. Pela alta toxicidade, não há como avaliar, à longo prazo, os danos do óleo para a saúde. As consequências, por isso, alertam, precisam ser monitoradas pelos próximos 20 anos

“Há pequenos crustáceos com manchas de óleo e eles são os primeiros animais comidos por aves, peixes etc. O petróleo contém material pesado, é bioacumulativo, ou seja, nenhum organismo vivo consegue expelir esse material. O crustáceo está carregado disso, o peixe come, e o peixe, quando entrar na cadeia alimentar, vai carregar isso daí, e quando a gente comer, será afetado e não expele. A vida, nesses estuários, arrecifes, já está impactada. Tanto faz se é uma grande mancha ou se são pequenas partículas que estão chegando; já está afetada para o resto da vida”, afirmou ao HuffPost o porta-voz de clima e energia do Greenpeace, Davi Martins.