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16/11/2019 03:00 -03

Nem todos os peixes do Nordeste estão liberados para consumo, alerta pesquisador

Professor que liderou testes na PUC-RJ refuta Ministério da Agricultura e diz ao HuffPost que análise ocorreu só em amostras de peixes industriais, não artesanais, nas águas atingidas pelo óleo.

ANTONELLO VENERI via Getty Images
Óleo afetou fauna marinha em praia de Lauro de Freitas, na Bahia.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgou uma nota, no início desta semana, informando que “exames feitos em amostras do pescado do litoral nordestino atingido pelo vazamento de óleo mostram que o produto está próprio para o consumo humano”. A afirmação é parcialmente verdadeira. “Não é possível generalizar. Deve ser considerada somente a pesca industrial, oceânica. Nada garante a pesca artesanal”, afirmou ao HuffPost o professor Renato Carreira, do Laboratório de Estudos Marinhos e Ambientais da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), que liderou os próprios testes encomendados pelo Mapa.

Três principais fatos vão de encontro ao comunicado do Mapa. Não houve testes com todos os tipos de peixes consumidos no Nordeste; também não foram coletados pescados em todos os estados atingidos; e apenas foram analisados peixes de empresas registradas no Serviço de Inspeção Federal (SIF). Isso exclui os pescados artesanais, da população ribeirinha, que compõem a maior parte do que é consumido na beira das praias nordestinas. 

Segundo o professor, há entre os peixes analisados dourado, garoupa e outros tipos de “migradores, pescados em alto mar”. Foi examinada a presença dos HPAs, os hidrocarbonetos policísticos aromáticos, compostos extremamente tóxicos presentes no petróleo “e que são muito persistentes”, ou seja, não são digeridos pelos organismos humanos. Significa que, se os peixes entrarem em contato com esses produtos, as toxinas passarão necessariamente para quem os consumir.

“Pegamos a parte comestível e fazemos uma análise química. Tem o resultado de várias moléculas e, dependendo da concentração e do nível de HPA encontrado, tem-se a recomendação”, destacou Renato Carreira. 

“Os resultados revelam níveis baixos dos HPAs detectados em peixes e lagostas, não representando riscos para o consumo humano”, afirmou o Mapa na nota divulgada. Ao dizer isso, o ministério garantiu que o teor de composto tóxico constatado está dentro do limite seguro para ingestão. 

O professor fez questão de ressaltar que a recomendação não foi feita pela PUC, muito menos por sua equipe. “Isso é uma questão legal, balizada pelos órgãos competentes. Nós só fazemos a análise e entregamos o laudo. A recomendação usa critérios a partir do nível [de HPA] encontrado em pescados de outras partes do mundo, como na União Europeia e nos Estados Unidos”, esclareceu o pesquisador. 

Novos testes por segurança alimentar 

Na nota, o Ministério da Agricultura disse que as amostras foram recolhidas em 29 e 30 de outubro de estabelecimentos registrados no SIF na Bahia, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Mas os nove estados da região foram atingidos pelo óleo

O HuffPost solicitou ao ministério mais detalhes sobre o teste, como a escolha dos locais de recolhimento das amostras, a quantidade exata enviada para análise e a metodologia. Foi questionado ainda se houve alguma outra pesquisa da qualidade de pescados além desta com resultado já divulgado, além de onde e que tipo de monitoramento está sendo feito. Recebeu como resposta que, devido à cúpula dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que acontece em Brasília, não houve expediente de quarta a sexta-feira.

Tendo em vista justamente a amostragem, Carreira destacou que já estão em análise 150 amostras de pescado enviadas pelo governo de Pernambuco, que envolvem peixes, crustáceos, moluscos mais consumidos pela população, recolhidos em áreas afetadas pelo óleo. “Assim será possível das um outro panorama sobre segurança alimentar, pelo menos naquela região”, completou.

LEO MALAFAIA via Getty Images
Pescadores tentam remover mancha de óleo da praia de Itapuama, em Cabo de Santo Agostinho (PE).

Caso de saúde pública? 

Há pesquisadores que falam na necessidade de decretar estado de emergência em saúde, de forma a controlar danos aos homens decorrentes do desastre de petróleo. A UFBA (Universidade Federal da Bahia), por exemplo, divulgou nota em que afirma que a medida é essencial.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, contudo, já disse que não vê o caso com essa gravidade. Questionado pelo HuffPost a respeito, o Ministério da Saúde informou considerar “que o risco seja baixo para a saúde pública, até o momento”, mesmo sabendo dos prejuízos à saúde de produtos como o benzeno. “Reforça que sua concentração no petróleo bruto como encontrado neste momento pode variar de menos de 0,5% a 4% do total, dependendo da origem do produto”.

O ministério mencionou ainda o exame do Mapa. “Os primeiros exames do Ministério da Agricultura sobre o pescado atingido por óleo não apontam riscos ao consumo.” Entretanto, como alerta a liderança dos testes, não se pode generalizar o resultado, tratando-se apenas de uma amostra. 

O Ministério da Saúde também lembrou os resultados dos exames encomendados pelo governo de Pernambuco sobre a qualidade da água do mar. O HuffPost mostrou no último fim de semana que 16 das 47 praias atingidas pelo óleo do estado foram consideradas próprias para banho

“Até o momento, [a pasta] não recebeu nenhum estudo que corrobore com essa fala de que há risco para a saúde pública”, finalizou o Ministério da Saúde na resposta ao HuffPost.

Na quinta passada, dia 7 de novembro, o próprio ministério divulgou o registro de 70 casos de intoxicação por contato com petróleo no Nordeste: 66 em Pernambuco, 3 na Bahia, e 1 no Ceará. De acordo com o boletim epidemiológico, 57% dos afetados são homens com idade média de 28 anos, e 27% trabalharam como voluntários na remoção do óleo nas regiões afetadas.

Situação do petróleo

As manchas se espalham diariamente. Até terça-feira (12), 527 locais haviam sido afetados, segundo monitoramento atualizado pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente). O óleo já passou por 23 locais do Espírito Santo, e há o risco de chegar o Rio de Janeiro. 

Um outro monitoramento feito pelo Ibama é dos animais atingidos pelo óleo. Foram encontrados 97 bichos mortos até terça, e 37 vivos. Além disso, há ações preventivas em andamento, como a captura de 1.683 filhotes de tartarugas marinhas na Bahia - já libertados -, 2.179, em Sergipe - também já devolvidos à natureza -, e 25, no Rio Grande do Norte. Há ainda monitoramento de peixes-boi em Alagoas e Sergipe. 

Grupos da Marinha, Ibama e outros agentes do governo ainda atuam em pelo menos 325 locais em que ainda há vestígios de óleo. Enquanto isso, outras equipes revisitam os locais que já foram limpos, mas viram as manchas em algum momento para confirmar se não há mais sinal do petróleo, que é altamente tóxico. 

O alerta deve-se à imprevisibilidade da situação. Não é possível dizer quanto óleo foi derramado, quanto ainda tem no oceano, para onde está indo, se chegará a mais praias e rios, se ficará no oceano, se permanecerá somente na costa brasileira.

Isso porque o tipo do material impede que ele fique sobre a água, o que impossibilita ainda a visualização por meio de satélites. Essas conclusões não são apenas de pesquisadores, mas do próprio ministro da Defesa, Fernando Azevedo, em entrevista coletiva na semana passada. 

“É uma situação inédita; esse desastre nunca aconteceu no Brasil e até no mundo. Esse tipo de óleo não é perceptível pelo radar, pelo satélite. Não sabemos a quantidade [de óleo] derramado que está por vir”, disse.