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21/09/2019 02:00 -03 | Atualizado 21/09/2019 02:00 -03

Pedro Cardoso critica 'fascismo brasileiro' e diz usar o Instagram por um chamado cívico

Em entrevista exclusiva ao HuffPost, ator fala sobre sua nova peça, o novo livro e a vida em Portugal.

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Pedro Cardoso está de passagem pelo Brasil para encenar À Sombra dos Outros e Ignorantes, em São Paulo.

Pouco antes de dormir, um garoto da periferia faz as suas preces e é atingido por uma bala perdida dentro de seu próprio quarto. Ele fica entre a vida e a morte. Esse poderia ser o enredo de um daqueles dramas pesados do teatro, mas é a história que permeia a comédia (sim, comédia) Os Ignorantes, monólogo que Pedro Cardoso estreou em 1998, já foi visto por mais de 120 mil espectadores e está atualmente em cartaz no Teatro MorumbiShopping, em São Paulo.

Ao interpretar sete personagens que ajudam a explicar o que provocou esse terrível incidente, o ator faz brotar a comicidade resultante da ignorância humana. E esta é a principal característica dos espetáculos de Cardoso: usar o humor para abordar assuntos absolutamente sérios e complexos, como violência, escravidão, bullying e machismo, sempre citando dados históricos e fatos alarmantes. “Toda reflexão sobre o ser humano produz comédia”, diz o artista, em entrevista ao HuffPost Brasil. 

Seu caráter questionador também ganhou as telas de celular. É no Instagram que o ator — conhecido nacionalmente por seu papel como Agostinho, na icônica série A Grande Família (TV Globo) — conversa quase que diariamente com os mais de 320 mil seguidores angariados nos últimos três anos. Lá, ele costuma postar vídeos e textos sobre os principais assuntos políticos do momento, após ler uma série de jornais e revistas do Brasil e do mundo — ele aprendeu, sozinho, inglês, francês, espanhol e italiano para poder se informar de forma mais abrangente. 

Mas o ator deixa claro que não considera o Instagram, definido por ele como “rede antissocial”, um lugar propício para o debate de ideias. Continua atuante no aplicativo apenas por um chamado cívico. “Eu comecei a ficar uma pessoa muito ativa por lá a partir do momento que percebi uma grande imobilidade de pensamento nas pessoas”, explica o ator, que critica duramente o atual governo do presidente Jair Bolsonaro. “O fascismo em torno de Jair Messias não é um projeto escondido, é um projeto declarado.”

A sua nova peça, À Sombra dos Outros, também em cartaz no Teatro MorumbiShopping, foi criada a partir dessas reflexões políticas postadas no Instagram. São esquetes que mostram como a identidade de uma pessoa pode ser anulada a favor de uma identidade coletiva, de um grupo. Ele faz caricaturas de alguém de esquerda, de direita e de centro, além de interpretar outras figuras cujas vidas se cruzam durante toda a narrativa.

Suas postagens na rede social lhe renderam ainda o recém-lançado livro PedroCardoso#EuMesmo - Em Busca de um Diálogo com o Fascismo Brasileiro (Editora Record), que reúne algumas das crônicas compartilhadas por lá. Os textos, sempre muito críticos, falam de manipulação da verdade e autoritarismo, tratando de casos como o assassinato da vereadora Marielle Franco, a prisão de Lula, a facada em Bolsonaro e o incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

Nesta entrevista, Pedro Cardoso também fala sobre a importância do teatro e qual a diferença primordial entre Brasil e Portugal, onde mora há cinco anos.

Leia a íntegra:

HuffPost: Suas comédias partem sempre de questões muito sérias. Como costuma ser seu processo de criação para conciliar essas duas coisas?

Pedro Cardoso: Eu diria que eu me faço uma pergunta sobre um determinado tema e daí eu passo muito tempo tentando encontrar uma fábula que exemplifique a minha sensação de resposta. No caso de Os Ignorantes, eu me perguntei sobre a violência. No caso de À Sombra dos Outros, foi sobre as identidades individuais em sua relação com as identidades coletivas. Porque o que me surpreende no fascismo é que a pessoa abdica da personalidade dela a favor de uma personalidade coletiva, ela cede quem ela é para o grupo. Tanto é que elas se sentem profundamente ofendidas quando você desautoriza o grupo, enquanto uma pessoa, com uma personalidade mais apoiada em si mesma, não fica tão ameaçada com isso. Porque ela não pertence apenas ao grupo, ela pertence, antes, a ela mesma.

E eu não faço muita distinção entre criar a história e criar a comédia. A história é cômica pra mim, inevitavelmente, porque toda reflexão sobre o ser humano produz comédia. O próprio pensamento crítico produz comédia. Pra mim, ela é parte natural do trabalho. É letra e música. Não há canção sem a letra nem sem a música. É como se fosse assim. 

A rede antissocial é um campo propício para o cultivo do fascismo, por meio de notícias falsas, ausência do contato corpóreo. Metade do que você conhece de alguém é o que você está percebendo da presença de alguém. Quando essa presença é eliminada, a conversa fica muito pouco humana.

Você acabou de estrear À Sombra dos Outros. Ainda fica muito nervoso antes da primeira apresentação?

Eu não fico nervoso, não; eu fico atento, hiperatento. Eu fico em um estado de concentração extremado, como um piloto de Fórmula 1 que vai correr uma corrida. Eu estou dedicado a contar a história, preocupado com a apreensão que a história vai ter. Eu aprendi a me acalmar. O nervoso atrapalha muito, né?! Dispersa...

Chega muito tempo antes ao teatro, em dia de peça?

Eu gosto de chegar na hora, eu não gosto do entorno. Eu gosto só do palco. E também, quando acaba, eu já vou pra casa. Tem muita coisa pra fazer, né? Eu gosto de chegar na hora, trabalhar e ir embora.

Suas postagens no Instagram, principalmente sobre questões políticas no Brasil e no mundo, mobilizam cada vez mais gente. O que te levou para lá?

O Instagram é uma resposta ao estímulo da leitura de jornal. Eu comecei a ficar uma pessoa muito ativa lá a partir do momento que eu percebi uma grande imobilidade de pensamento nas pessoas. Porque todo fascismo propõe uma verdade inequívoca, uma verdade única. O fascismo deseja a anulação absoluta do divergente.

Isso não havia nem no PT nem no PSDB. Os defeitos desses partidos não são esses, são outros. São desonestidades de outro tipo. Então, quando eu me deparei com as pessoas tomadas de certezas mais certas do que a ciência, certezas apoiadas muitas vezes em charlatanismos religiosos, certezas apoiadas em uma revolta intelectual e não em uma construção intelectual, eu fiquei muito interessado em provocar o pensamento. Muito menos buscando convencer alguém da minha ideia, mas interessado em ver a pessoa ter que pensar novamente para ela própria tentar me convencer, porque eu acreditava que, ao ter que pensar de novo, haveria uma chance de ela mudar de opinião.

Mas eu não acho que o Instagram seja um lugar propício para isso... O Instagram é um lugar viciado, é uma praça de cracudos, é um lugar feito pra vender publicidade. Ele tem uma lógica de funcionamento muito precária para uma conversa verdadeiramente influente. Essa é minha opinião.

O meu livro [PedroCardoso#EuMesmo] termina com esta conclusão bastante cética: de que todas as batalhas disputadas no Instagram ou em outras redes antissociais estão fadadas à derrota da liberdade. Porque é um campo propício para o cultivo do fascismo, por meio de notícias falsas, ausência do contato corpóreo. Metade do que você conhece de alguém é o que você está percebendo da presença de alguém. Quando essa presença é eliminada, a conversa fica muito pouco humana. São palavras no papel.

Eu ocupei o lugar que os políticos deixaram vazio, porque todos mentiram tanto que as pessoas começaram a ter que falar de política... Espero que a política se organize novamente para que eu possa silenciar e ser ator, que é só o que eu quero fazer.

Eu não sei o que fazer com essa constatação, porque, ao mesmo tempo, eu não consigo imaginar hoje a humanidade sem o convívio por meio das redes antissociais. Mas que a gente não aceite isso como uma coisa absolutamente benéfica. Temos que ser críticos a esse modo de convívio. Eu sinto que 50 pessoas no meu teatro recebem uma influência (e eu delas) de muito melhor qualidade do que 1 milhão de pessoas em uma conta de rede antissocial.

Eu acho que no momento que o Brasil conseguir forjar um novo projeto político para ele, eu naturalmente deixarei de frequentar o Instagram e deixarei de fazer também statements políticos, porque eu não sou político, eu não quero ser político. Eu ocupei o lugar que os políticos deixaram vazio, porque todos mentiram tanto que as pessoas começaram a ter que falar de política. Acho que nunca se falou tanto disso no Brasil como hoje. Eu espero que a política se organize novamente para que eu possa silenciar e ser ator, que é só o que eu quero fazer: teatro. Você foi lá, eu não estou feliz no palco? Eu sou muito mais feliz no palco do que escrevendo para o Instagram.

Já são mais de 320 mil seguidores, sua opinião acaba tendo um peso grande por lá...

A minha opinião não tem mais valor do que a de ninguém porque eu sou famoso. A minha opinião tem que ter valor por ela mesma. Mas eu não pude me furtar, é um chamado cívico [fazer as postagens], digamos assim. Eu me senti obrigado a dizer. Até porque, como eu tinha apoiado o PT explicitamente durante 20 e tantos anos, eu também me senti na obrigação de, publicamente, reconhecer os erros do PT. Eu não me culpo por ter votado no PT, porque eu não tinha a menor ideia de que ele não cumpriria o que prometeu. Agora, Jair Messias, e o fascismo em torno dele, não é um projeto escondido, é um projeto declarado. Ele declarou que é a favor da tortura, que acha que a ditadura deveria ter matado 30 mil pessoas. Que a maioria é heterossexual, e que, por isso, as minorias têm que viver de acordo com as maiorias, o que é uma absoluta incompreensão da democracia. A democracia é o convívio de todas as diferenças, e não a imposição da vontade da maioria. O Estado é administrado na proporção que se faz representar no Parlamento. As pessoas acham que ser maioria é dar a ela o direito de tudo. É uma compreensão equivocada do espírito democrático.

Além dos textos, quase sempre você posta vídeos também, né?

Eu queria me expor sem nenhuma persona pública. Eu queria me filmar na absoluta realidade do momento, de pijama, acordando. Eu tenho uma atuação pública, por causa do meu trabalho, mas o Instagram não é meu trabalho, eu não ganho dinheiro, ali. Eu estou realmente buscando ter uma conversa com as pessoas, normalmente. Então eu gravo o vídeo assim; para a pessoa ver que eu não estou de caso pensado. E também meus textos e minhas opiniões não são opiniões científicas, são opiniões amadoras. Eu nunca me autorizei a dizer coisas baseadas em verdades científicas. Eu não sou nem jornalista, nem cientista social, nem antropólogo, nem filósofo, nem político. Eu sou um leigo. Tudo o que eu comento, qualquer pessoa que leia os jornais que eu leio vai saber. Eu não tenho nenhuma informação privilegiada.

Não percebo que eu tenha tocado o coração de um fascista, nem de direita nem de esquerda. Não tem como falar com ele porque ele não responde por ele; ele responde por uma voz coletiva. Ninguém é uma voz coletiva.

E como é a relação com seus seguidores?

Um amigo me disse que meu Instagram ajuda na elaboração daquilo que já acreditamos. Eu acho que isso é positivo. Que afina o pensamento. Outra coisa positiva que acontece é que pessoas que não são tão afins comigo também possibilitam uma troca razoável de experiências, benéficas para mim e para elas. Eu aprendi muito sobre o liberalismo conversando com amigos no Instagram que são liberais, por exemplo. Obtive boas informações e fui influenciado pelo pensamento deles. Porque, quando eu me disponho a influenciar alguém, tenho que me dispor também a ser influenciado, entende?! Senão é uma covardia, além de uma prepotência sem tamanho.

Agora, as pessoas que estão dentro do fascismo, elas estão muito incapazes do diálogo. E eu não percebo que eu tenha tocado o coração de um fascista, nem de direita nem de esquerda. Não tem como falar com ele porque ele não responde por ele; ele responde por uma voz coletiva. E ninguém é uma voz coletiva. Operários, por exemplo, não são um coletivo homogêneo. Eles têm interesses em comum, são todos operários, eu sou operário, eu trabalhei na TV Globo por 35 anos, é uma indústria de audiovisual. Eu era lá um operário, com características específicas da minha profissão, mas tão operário quanto um metalúrgico. E, entretanto, entre mim e um metalúrgico há imensas diferenças. Então esses coletivos absolutos são anulações das individualidades. 

O mundo sempre esteve em meio a muitos conflitos, mas você acha que agora está em um patamar inaceitável? E desde quando passou a ficar assim?

É uma pergunta bastante complicada e complexa. O que eu sinto é que a má prática política dá oportunidade ao fascismo, porque as pessoas de fato ficam desacreditadas. Na Europa, tem a negligência em manter uma estrutura econômica que depende do trabalho braçal do imigrante e, ao mesmo tempo, negar a ele uma cidadania plena, gerando a crise na imigração. Os Estados Unidos, para se defenderem do ataque terrorista às Torres Gêmeas, autorizaram invadir três países do Oriente Médio, então o Oriente Médio entra também em absoluta desordem da estrutura política - que era péssima, mas era alguma. Agora é nenhuma ou quase nenhuma.

Outra coisa é o egoísmo do capitalismo em relação a questões ecológicas, que agora nos faz estar diante de uma catástrofe muito difícil de evitar, que já está presente. A necessidade de que a vida cotidiana não seja interrompida nos faz negar os grandes problemas que estão à nossa frente, coisa que gera muita angústia. Todo mundo que já teve uma prova para fazer e, em vez de estudar, ficou vendo televisão sabe que ficou muito angustiado, porque deveria ter estudado para a prova e não estudou. Eu sinto que a humanidade está muito angustiada, igual a uma pessoa que tem uma prova, não estudou e está fingindo que um santo vai soprar a resposta.

O fascismo é uma falsa resposta calmante. Ele propaga uma solução, ele oferece um apaziguamento, uma certeza inequívoca. O momento é de dúvida. Mas é melhor viver na dúvida, se a dúvida é real, do que forjar uma certeza falsa. E o fascismo oferece uma certeza falsa. Também tem o problema de explosão demográfica, temos problemas enormes de destruição do planeta, temos problemas imensos, e ficamos brincando de fazer política. De colocar no poder ou o PT ou o PSDB. É péssimo, né?

O que fazer para ao menos começar a mudar isso?

Isto que a gente está fazendo: você me entrevistar, eu te dar entrevista, você ir ao teatro, eu fazer teatro, a gente conversar… Isso é muito, isso não é pouco. A condição econômica do capitalismo é construída em uma imobilidade. É construir um modo de produção soberano a qualquer angústia. Eu escrevi um romance chamado O Livro dos Títulos, e nesse livro tem um episódio em que uma pessoa vê na televisão um massacre em um “reality show”. No dia seguinte, ela sai e fala: “Incrível, teve um massacre ontem, ao vivo, na televisão, e agora de manhã a padaria está aberta, os jornais estão sendo vendidos, o ônibus está circulando”. O capitalismo produz antes da necessidade, depois que ele inventa a demanda, daí a publicidade. Isso tem uma consequência emocional terrível para nós. Nós não paramos. Aconteça o que acontecer, você vai ter que trabalhar no dia seguinte; não há tempo para reflexão. Nós não temos tempo para o luto, o luto é contraproducente. E esse tempo é fundamental. É fundamental viver emocionalmente a vida.

O Exército brasileiro metralhou um carro de uma família lá do Rio de Janeiro, deu mais de 50 tiros, e no dia seguinte todos nós não tivemos nem tempo de elaborar aquilo, e era um fato que tinha que fazer o País ficar parado por um mês.

Você diz que aconteceram coisas boas e ruins nos governos do PT e do PSDB, por exemplo. E no atual governo? Tem algo bom?

Não, o fascismo não é nunca bom em nada. Neste governo, se, por acidente, alguma medida puder gerar algum fato positivo, esse fato positivo será um grão de areia na totalidade do projeto dele de anulação do convívio. Nem o PDSB e muito menos o PT jamais tiveram uma determinação de eliminar a oposição. Jamais. Jamais! Governaram democraticamente, ainda que com corrupção. Mas eles não enfrentaram o jogo democrático, tanto que o PT foi condenado. O PT foi condenado com Lula no poder, no processo do mensalão. Porque havia um absoluto respeito ao jogo democrático. Jair Messias já intercedeu no jogo democrático, tirando o Coaf de onde estava, botando em outro lugar, quer mexer na Polícia Federal... Tudo pra evitar investigações sobre a família dele. Eu acho que são situações totalmente diferentes. Os governos do PSDB e do PT não eram projetos fascistas. O projeto fascista é o atual. A diferença pra mim é gigantesca.

O trabalho intelectual sem a experiência do corpo gera um conhecimento mais frágil. Hoje em dia, a gente tem mais informação, mas, talvez, a gente esteja mais ignorante.

A religião interfere em que medida?

Eu acho que a eleição de um líder messiânico, seja de esquerda ou de direita, seja Stalin ou seja o presidente americano ultraliberal, que está com a bomba atômica por interesse econômico, é uma projeção da figura paterna, desenho de uma figura paterna protetora, absoluta, e isso me preocupa porque é uma ideia religiosa, do cristianismo. É uma ideia do monoteísmo. Ele cria nas pessoas essa sensação de um Deus absoluto. O politeísmo é diferente, não produz esse tipo de anseio. Por isso que muito do apoio ao projeto que se agrega em torno da figura de Jair Messias foi forjado em igrejas de falsa fé, onde a busca por esse Deus protetor já está colocada. Você vai à igreja buscando esse Deus protetor e, lá, não encontra apenas ele, mas também a encarnação dele na Terra: o líder messiânico objetivo, seja Jair Messias ou seja Sérgio Moro, qualquer um. 

Jair Messias, para mim, é um acidente banal. Ele não é a pessoa que interessa, acho ele uma coisa irrisória. O que me preocupa são as pessoas que creem nele. Isso é o que me abisma.

Apesar de toda informação que temos a todo o momento, você acha que as pessoas estão mais ignorantes hoje em dia?

Eu não teria uma resposta muito assertiva para te dar, é uma pergunta muito boa. E tão complexa quanto a outra. Então só vou fazer uma ligeira aproximação. O conhecimento depende da experiência vivida pelo corpo. É o corpo que sofre o ataque da realidade, das sensações. É ele que sente frio, fome, que toca, que sabe o que é rugoso, que sabe o que é liso. O trabalho intelectual, que é o trabalho dominante na escola, hoje em dia, está pagando a presença do corpo. Uma criança hoje, na escola, é ensinada permanentemente a fazer o trabalho intelectual e a fazer muito pouco trabalho físico. E eu acho que o conhecimento obtido pelo intelecto, desassociado da experiência física, é um conhecimento menos íntimo. A pessoa sabe a coisa em tese.

Eu tenho lá em Portugal a grande revolução que aconteceu na minha vida. Quando eu fui morar na Europa, como lá não é muito socialmente aceito e não há muitas pessoas para fazer o trabalho doméstico, eu tive que enfrentar o trabalho doméstico da minha vida. Eu já tinha 53 anos de idade, 54. Lá, eu tenho que tomar conta da minha vida física. Eu passo a minha roupa, eu recolho a minha roupa, eu ponho a minha roupa para lavar. [Antigamente] Eu não ligava a mínima se ia chover ou não. Agora, eu vejo se vai chover ou não, porque eu quero botar a roupa para secar. Eu aprendi a limpar a piscina, a cortar o gramado, plantei dez árvores no meu terreno. Então, o planeta se tornou muito mais real para mim. Toda a ecologia que eu já tinha lido é nada perto da experiência de plantar uma árvore. Eu aprendi muito mais sobre o planeta plantando a árvore do que lendo textos e textos sobre ecologia. O trabalho intelectual sem a experiência do corpo gera um conhecimento mais frágil. Hoje em dia, a gente tem mais informação, mas, talvez, a gente esteja mais ignorante, sim.

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Pedro Cardoso e a esposa, Graziella Moretto, contracenaram em O Homem Primitivo.

Estar em cartaz é importante neste momento?

Eu vim para o Brasil fazer teatro, eu estou fazendo teatro aqui há três meses, fiz sete espetáculos [a residência artística no Teatro MorumbiShopping contou com a presença da atriz Graziella Moretto, sua esposa, em cinco das sete peças]. Estou fazendo teatro nesse empenho. Se você olhar a classe artística toda, ela está dentro dos teatros com muita dedicação, há muitos espetáculos de boa qualidade. Existe uma resistência ao fascismo muito grande na sociedade brasileira, muito grande. Eu acho que a geração que hoje tem 20 anos é uma geração que não será fascista, é uma geração que será progressista. A minha geração é que é o problema. 

Você também faz teatro lá em Portugal. Como é sua relação com o público de lá?

Tenho uma boa relação com o público português, modéstia à parte. Faço sucesso. Mas sou um imigrante, eu sou lá como um imigrante, e isso é apenas uma diferença, não é nem má nem boa, mas é um teatro de um imigrante, o público assiste a uma peça estrangeira. Falada em português, mas que se passa em uma outra realidade. A minha sorte é que é uma realidade pela qual eles têm curiosidade, a do Brasil. E aí eles capturam alguma coisa da realidade brasileira e, o resto que capturam, é a transcendência do tema. Sobre Os Ignorantes, a minha história se passa no Brasil, mas a tese da ignorância serve para todo mundo. Então eu fico nessa dinâmica aí.

E como é morar lá?

Eu gosto de morar lá. Eu estou lá por razões de interesse cultural. Eu fui para a Europa porque eu não tive oportunidade de morar fora quando eu era jovem. E, quando eu pude, eu tinha aquela ambição… Eu estou lá, digamos, fazendo intercâmbio. Eu tinha vontade de ter a Itália do lado, a Espanha, a Alemanha, a França, a Inglaterra, a Polônia. Com muita facilidade, eu vou a Madri, vou a Barcelona. É uma vida cara, é uma vida que eu levei a minha vida inteira para ter dinheiro para poder viver, usufruir, né. Eu vou fazer 58 anos, eu trabalho desde os 17, então eu tenho mais de 40 anos de profissão. Eu construí para mim essa possibilidade.

A minha ida para a Europa não tem nenhuma relação com um desencanto eventual com o Brasil. Eu fui muito antes de o fascismo brasileiro se anunciar. Eu nem desconfiava. Pelo contrário, o fascismo brasileiro me atrai para o Brasil. Eu venho mais ao Brasil lutar contra o fascismo do que fico lá em Portugal vivendo a vida que eu gostaria de ter. O Brasil me atraiu de novo para cá, é o contrário. As pessoas me acusam, quando eu falo do Brasil: “Ah, mas você mora fora”. Primeiro, que ninguém mora fora, o teu país mora dentro de você. Eu não deixo de me preocupar, de amar o Brasil, porque eu quis morar fora. As pessoas acham que não pode opinar. Isso é um argumento fascista, né, de desautorizar a pessoa. Como eles não têm argumento, eles precisam destruir a história pessoal. E o guru do Bolsonaro [Olavo de Carvalho] mora nos Estados Unidos, mas ninguém reclama.

Portugal é uma democracia intelectualmente mais bem construída. O prazer de viver em uma democracia estável é o que os brasileiros mereciam.

Qual a diferença primordial entre Brasil e Portugal?

A estabilidade da democracia. Isso é o grande bem-estar. Na maior crise política, não há a menor possibilidade de nenhum militar europeu achar que tem o direito de dizer que vai intervir se as coisas não forem do jeito que eles querem. Como aqui no Brasil, quando houve a possibilidade de soltar o Lula e teve uns generais dizendo que isso eles não iriam admitir. Esta é a grande diferença: a de você não viver ameaçado por uma ditadura militar. É uma democracia intelectualmente mais bem construída e, principalmente, uma democracia que é suportada por um acordo entre 20 e tantos países, que é a União Europeia. O prazer de viver em uma democracia estável é o que os brasileiros mereciam.

Milhares de pessoas te acompanham na internet para ouvir suas reflexões sobre os mais variados assuntos. E você, quem você gosta de ouvir?

Eu gosto de ouvir Cartola, Pixinguinha, Dolores Duran, Criolo, Chico Buarque, Caetano Veloso. Eu gosto de ouvir artista. E eu gosto de ler… Ler García Márquez, Vargas Llosa, William Faulkner. Gosto de ler jornal.

Esse é o segundo ano consecutivo que você e Graziella vêm ao Brasil fazer a residência artística no teatro. Já sabem se voltam em 2020?

Dessa vez, estamos com o futuro em aberto. Eu e Graziella temos algumas possibilidades profissionais em televisão que, ao se confirmarem, vão alterar a nossa agenda. Eu ainda não sei quando volto, não sei o que fazer. O que eu gosto também, de estar um pouco assim. Eu trabalhei 35 anos na TV Globo, então, durante 35 anos da minha vida, eu tinha uma rotina profissional muito rigorosa. E hoje em dia eu gosto de ter um pouco de tempo livre.

SERVIÇO

À Sombra dos Outros

Data: até 3/10 - quintas (21h)

Preço: R$ 50

 

Os Ignorantes

Data: até 6/10 - sextas (21h), sábados (21h) e domingos (19h)

Preço: R$ 80 e R$ 100

Local: Teatro MorumbiShopping (Avenida Roque Petroni Junior, 1.089, estacionamento do Piso G1, Jardim das Acácias - São Paulo)

Ingressos: à venda pelo site teatromorumbishopping.com.br