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19/05/2020 02:00 -03 | Atualizado 20/05/2020 07:34 -03

As peças do quebra-cabeça da PF: Quem está sendo ouvido no inquérito Moro X Bolsonaro

Quem são os delegados da Polícia Federal que estão prestando depoimentos: o que já fizeram, onde estavam em 2018 e eventuais relações com a família presidencial.

EVARISTO SA via Getty Images
Presidente Jair Bolsonaro, ex-ministro Sergio Moro e procurador-geral da República, Augusto Aras.

A Polícia Federal faz uma nova rodada de depoimentos a partir desta terça-feira (19) no inquérito que apura as acusações de Sergio Moro contra o presidente Jair Bolsonaro. Desta vez, porém, serão ouvidas pessoas inicialmente não listadas pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Celso de Mello. Estão marcadas 4 oitivas de delegados da corporação: de Carlos Henrique de Oliveira e de Claudio Ferreira Gomes para hoje; e de Cairo Costa Duarte e Rodrigo Morais, na quarta-feira (20). 

Oliveira, alçado da Superintendência da PF no Rio de Janeiro - um dos alvos do inquérito por ser, supostamente, de interesse de Bolsonaro -, ao cargo de diretor-executivo da corporação, já foi ouvido semana passada, mas pediu para falar novamente. 

Os demais foram considerados pelos investigadores da polícia peças necessárias no inquérito. Cláudio Gomes comanda a Diretoria de Inteligência Policial da PF (DIP). Segundo Moro, o mandatário queria acesso a relatórios de inteligência da Polícia Federal. 

Já Cairo Duarte é o atual superintendente da PF em Minas Gerais, onde está sendo tocada a apuração sobre o atentado à faca sofrido por Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018. Quem conduz esse inquérito é o delegado Rodrigo Morais, também na lista dos interrogados nesta semana. 

Bolsonaro colocou em xeque a investigação, que até o momento não encontrou mandantes do crime. O autor, Adélio Bispo, foi considerado inimputável por apresentar problemas mentais e deve ser encaminhado para um manicômio judicial, o que ainda não foi efetivado. O presidente e seu clã repetem que há por trás do atentado um financiador, ligado à esquerda, e apontam interesses eleitorais. 

Uma nova fase concluída do inquérito sobre a facada em Bolsonaro foi apresentada ao novo diretor-geral da PF, Rolando Alexandre. Uma das questões que se discutiu foi a existência de uma nova testemunha que aponte a participação de um terceiro elemento no crime. O delegado Fernando Moraes, que conduz as investigações, porém, não encontrou indícios disso, conforme relatos ao HuffPost.

Semana passada, já ocorreram todos os depoimentos pedidos por Celso de Mello: dos ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Walter Braga Netto (Casa Civil); da deputada Carla Zambelli; e dos delegados da PF Maurício Leite Valeixo, Ricardo Saadi, Alexandre Saraiva, Rodrigo Teixeira e Alexandre Ramagem Rodrigues —além de Oliveira. Sergio Moro já havia falado no sábado (2).

A seguir, o HuffPost mostra quem são, o que fazem agora e onde estavam em 2018 os delegados da Polícia Federal ouvidos na investigação em curso no STF. A corporação se tornou o principal ponto de atenção por ser supostamente alvo de interesse do presidente Bolsonaro.  

Depõem esta semana: 

Claudio Ferreira Gomes 

O depoimento de Gomes, atual diretor de inteligência policial na PF, é mais um considerado central no inquérito, já que a acusação também é de que Jair Bolsonaro desejava obter relatórios de inteligência da corporação. 

Ele está no cargo desde 2 de janeiro de 2019, portanto, logo após a posse de Jair Bolsonaro. Já havia, porém, atuado nessa mesma posição antes, de novembro de 2017 a março de 2018, quando foi exonerado no governo Michel Temer. Para o seu lugar, na época, o então diretor-geral Rogério Galloro nomeou Umberto Ramos Rodrigues. 

Na PF desde 1999, já passou por diversos cargos. Foi superintendente na Paraíba, coordenador geral de Polícia Fazendária, corregedor-geral da PF, e chefe do Serviço Nacional de Armas da Divisão de Repressão ao Tráfico Ilícito de Armas.  

Carlos Henrique de Oliveira 

Oliveira vai depor novamente a pedido dele próprio. Semana passada foi efetivada sua promoção como número 2 da PF, no cargo de diretor-executivo da corporação. Ele deixa, assim, a Superintendência do Rio, de onde o presidente Bolsonaro já queria tirá-lo, conforme relatos de Sergio Moro. Em seu lugar no Rio, assumiu o delegado Tácio Muzzi. 

Em seu depoimento na semana passada,Oliveira afirmou ter participado da indicação de seu sucessor no Rio. Negou que Bolsonaro tenha cobrado dele relatórios de inteligência, mas confirmou que o órgão investigou o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente. O caso foi concluído sem indiciamento. A declaração de Oliveira desmente declarações de Jair Bolsonaro de que a PF “nunca investigou” ninguém da sua família. 

Antes da PF do Rio, o delegado estava no comando da PF em Pernambuco. Antes disso, entre 2017 e 2019, atuou como número 2 da Superintendência do Rio. De 2015 a 2017, foi corregedor regional da PF no estado. Ainda no Rio, atuou no setor de inteligência, chefiando a Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros. Em seu currículo consta que ele já havia comandado a Polícia Federal no Rio entre 2009 e 2011.  

Adriano Machado / Reuters
Alexandre Ramagem já foi ouvido pela Polícia Federal sobre inquérito que apura acusações de Moro contra Bolsonaro.

Cairo Costa Duarte  

Superintendente da PF mineira desde janeiro de 2019, Duarte deve apresentar nos próximos dias ao presidente Jair Bolsonaro as conclusões, até o momento, das investigações sobre a facada da qual ele foi vítima em setembro de 2018. 

Seu currículo mostra passagens também pela Superintendência de Pernambuco, e do Distrito Federal, onde atuou como delegado regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado e delegado regional executivo. Na ocasião, participou da Operação Acrônimo, que investigou desvio de dinheiro para campanhas eleitorais. Também chefiou o Serviço de Repressão a Desvios de Recursos Públicos da Coordenação-Geral de Polícia Fazendária da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado. 

Rodrigo Morais Fernandes 

É o delegado na Superintendência de Minas Gerais que toca as investigações do atentado sofrido por Bolsonaro. Uma nova fase do inquérito conduzido por ele mostra que Adélio Bispo agiu sozinho. 

Segundo o jornalista Fausto Macedo, do Estadão, o delegado assina um relatório de conclusão da segunda fase das investigações em que descarta a participação de agremiações partidárias, facções criminosas, grupos terroristas e paramilitares.  

Rodrigo Moraes já atuou no comando do núcleo de inteligência da PF em Minas e em São Paulo. Também já comandou o Combate ao Crime Organizado, a Delegacia de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente e Patrimônio Histórico, e coordenou as investigações policiais em Minas. Além disso, chefiou a Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários.

Prestaram depoimento semana passada:

Maurício Valeixo

Demitido em 24 de abril do cargo de diretor-geral da PF, Valeixo tornou-se o pivô da saída de Moro do governo. A publicação de sua exoneração no DOU (Diário Oficial da União), depois de um dia anterior inteiro de negociações para os militares fazerem o presidente Jair Bolsonaro mudar de ideia, levou Moro a abandonar o cargo.

Valeixo foi alçado ao comando da PF pelo ex-ministro da Justiça, com quem já tinha contato em Curitiba, quando ambos atuaram na Operação Lava Jato. Antes de rumar para Brasília, Valeixo comandou a Superintendência da PF no Paraná e participou de ações importantes, como a que prendeu o ex-presidente Lula. 

Também já havia comandado o Combate ao Crime Organizado e a Inteligência da PF, atributos que também foram essenciais para levar Sergio Moro a escolhê-lo para o comando da PF.  

Ricardo Saadi

Superintendente da PF no Rio até agosto do ano passado, oficialmente deixou o cargo por motivos pessoais. No seu depoimento, porém, disse desconhecer os motivos que levaram à sua demissão. Na época, Bolsonaro chegou a afirmar que a troca se daria por “produtividade”. 

Ao deixar o governo, Moro destacou que a Superintendência do Rio era um dos focos do presidente. Em seu depoimento à PF, o ex-ministro afirmou ter recebido do ex-chefe uma mensagem dizendo: “Moro, você tem 27 Superintendências. Eu só quero uma, a do Rio”

Após deixar o comando da PF no Rio no ano passado, Saadi foi nomeado para chefiar o serviço de repressão à lavagem de dinheiro na Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado. Já atuou também no Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional.  

Alexandre Saraiva 

O superintendente da Polícia Federal no Amazonas é sempre um dos nomes cotados quando se fala em substituições no comando do Rio. Conta com o aval do clã bolsonarista. Em seu depoimento na semana passada, ele contou aos investigadores que chegou a ser sondado por Alexandre Ramagem –próximo ao clã Bolsonaro – para ocupar o cargo em questão e disse ter aceitado. Negou, porém, qualquer vínculo de amizade com a família Bolsonaro. 

Já comandou a PF no Maranhão e em Rondônia. De acordo com seu currículo no banco de dados da PF, entre 2010 e 2011, chefiou a delegacia da PF em Nova Iguaçu, e de 2009 a 2010, a de Volta Redonda, ambas no estado do Rio. Também já esteve à frente da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra o Meio Ambiente e Patrimônio Histórico da PF no Rio. 

Saraiva foi cotado, ainda em 2018, para assumir o Ministério do Meio Ambiente, ocasião na qual chegou a se encontrar com Bolsonaro. Também foi convidado por Moro para a Funai, mas ele próprio relatou no depoimento não ter obtido retorno do então ministro na sequência.  

Alexandre Ramagem 

Atual diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Ramagem esteve recentemente no centro da polêmica sobre o desejo de Bolsonaro intervir na PF. Foi indicado pelo mandatário ao cargo de diretor-geral após a demissão de Maurício Valeixo, mas teve sua posse suspensa por uma liminar do ministro do STF Alexandre de Moraes. A AGU (Advocacia-Geral da União) chegou a pedir que o magistrado reconsiderasse, mas ele negou. 

Em sua justificativa, Moraes alegou “desvio de finalidade”. Ramagem aproximou-se da família Bolsonaro em 2018, quando coordenou a segurança do político após a campanha presidencial. Em seu depoimento à PF no âmbito do inquérito relatado por Celso de Mello, Ramagem negou qualquer “intimidade pessoal com entes familiares” do presidente. 

O próprio mandatário, porém, já mencionou a proximidade com o delegado, inclusive em entrevista na porta do Alvorada, quando disse que “tomava café junto”. “E daí? Devo escolher uma pessoa que eu nunca vi na minha vida?”. O chefe do GSI, Augusto Heleno, também confirmou em seu depoimento que Bolsonaro e o diretor da Abin se reúnem “corriqueiramente”.

Ramagem atuou na Lava Jato no Rio como coordenador junto ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região em 2017. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Ramagem comandou a Operação Cadeia Velha, que deu origem à Operação Furna da Onça, cujo teor teria sido vazado para Flávio Bolsonaro, de acordo um ex-aliado (leia mais abaixo).

Ramagem passou ainda pela Superintendência da PF em Roraima, onde chefiou o combate ao crime organizado. Em Brasília, comandou a Unidade de Repressão a Crimes contra a Pessoa, a Divisão de Administração de Recursos Humanos, e a Divisão de Estudos, Legislações e Pareceres da Polícia Federal.

Em fevereiro de 2019, foi nomeado superintendente da PF no Ceará, mas acabou assumindo um cargo no Palácio do Planalto, de assessor especial da Secretaria de Governo da Presidência da República, na função de auxiliar direto do então ministro Carlos Alberto Santos Cruz. Em julho, foi para a diretoria da Abin. 

Rodrigo Teixeira

Era o superintendente da Polícia Federal de Minas Gerais em 2018, quando Jair Bolsonaro foi atacado por Adélio Bispo com uma facada. Foi ele quem deu início às investigações que vêm sendo contestadas pelo presidente e seus aliados. Até o momento, a PF não encontrou indícios de que o autor tenha agido a mando de alguém. Os bolsonaristas afirmam que houve mandante com objetivo de matar o então candidato à Presidência da República. 

Escalado por Celso de Mello para depor, ele acabou sendo dispensado pela PF na semana passada. 

Ao Estadão, o delegado disse que, em sua avaliação, sua exoneração ocorreu por não ter encontrado, nas investigações, uma prova que satisfizesse o desejo do mandatário. 

Já chefiou a Delegacia de Repressão ao Tráfico de Entorpecentes na Superintendência de Tocantins, trabalhou no Núcleo de Combate a Crimes Financeiros em Minas, onde também foi corregedor e delegado regional executivo. Hoje é secretário adjunto de defesa social na PF de Minas e também é um dos diretores da Federação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (Fenadepol). 

Andressa Anholete via Getty Images
Senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente: novos ingredientes políticos contra ele.

O fator Flávio e o inquérito do Supremo

No fim de semana, um novo elemento acrescentou movimento à cena política. Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, um dos mais importantes apoiadores de campanha de Jair Bolsonaro em 2018, o empresário Paulo Marinho, eleito suplente de Flávio Bolsonaro no Senado, disse que a Polícia Federal avisou com antecedência ao filho do presidente que a Operação Furna da Onça seria deflagrada em 2018. 

Segundo ele, a PF teria “segurado a operação” para que ela não fosse realizada no meio do segundo turno. Ela foi deflagrada em 8 de novembro, com Bolsonaro já eleito, mas atingiu em cheio seu primogênito ao investigar desvio de dinheiro público e suposto esquema de “rachadinhas” na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) a partir de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio. 

Conforme Paulo Marinho, Flávio Bolsonaro demitiu Queiroz de seu gabinete ao saber da operação. A filha dele, Nathalia Melo de Queiroz, trabalhava no gabinete de Bolsonaro em Brasília e também foi demitida, ambos em 15 de outubro. O empresário disse que outras duas pessoas, além dele e do senador, estavam no momento em que o filho do presidente relatou ter tomado conhecimento da operação. 

Flávio disse em nota que as “estórias” relatadas por Marinho “não passam de invenção de alguém desesperado e sem votos”. O empresário é hoje ligado ao governador de São Paulo, João Doria, apontado como pré-candidato do PSDB às eleições presidenciais de 2022, e pretende se candidatar pelo PSDB à Prefeitura do Rio de Janeiro. 

No domingo (17), a Procuradoria-Geral da República pediu que Marinho seja ouvido no âmbito do inquérito já aberto, o das denúncias de Moro contra Bolsonaro. Há uma divergência interna, nos bastidores, a respeito. Procuradores acreditam que essa revelação do empresário, por se tratar de tema antigo e anterior à posse de Jair Bolsonaro como presidente da República, não poderia ser tratada na mesma ação da PGR. 

De qualquer forma, o Ministério Público do Rio de Janeiro também instaurou inquérito para averiguar o caso. Na época da Operação Furna da Onça, houve uma apuração de que houve vazamento de informações privilegiadas, mas a própria PF relatou não ter encontrado evidências para a abertura de inquérito. Agora, a investigação ocorrerá pelo Núcleo de Controle Externo da Atividade