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05/10/2019 02:00 -03 | Atualizado 05/10/2019 14:35 -03

PDT abalado: Deputados denunciam intimidação e tratamento desigual aos 'traidores'

Sem ser repreendida, Kátia Abreu, vice de Ciro em 2018, votou a favor da reforma da Previdência — como os 8 deputados da sigla, que desobedeceram à orientação partidária e foram punidos.

Reprodução/Facebook/@tabataamaralSP
Deputada Tabata Amara e ex-ministro Ciro Gomes em evento durante a campanha eleitoral em outubro de 2018

O voto favorável da senadora Kátia Abreu (PDT-TO) à reforma da Previdência na última semana reacendeu os debates internos sobre os “infiéis” da legenda na Câmara que, como ela, desobedeceram à orientação partidária. Ao contrário do que deve ocorrer com a senadora, porém, os deputados sofreram sanções e seus casos ainda estão em análise pelo Comitê de Ética do PDT.

Procurada pelo HuffPost, Kátia Abreu, vice na chapa encabeçada por Ciro Gomes, respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa, que “votou de acordo com sua consciência e com responsabilidade para com o País” e “aguarda com tranquilidade a decisão do PDT”. 

Nas redes sociais, a senadora comemorou a aprovação de um destaque que retirou do parecer do relator, Tasso Jereissati (PSDB-CE), o trecho que estabelecia regras mais rígidas para abono salarial. A mudança reduziu em quase R$ 80 bilhões em dez anos a economia pretendida pelo governo com a reforma. 

O caso de Kátia tem sido tratado de forma diferente no partido. O voto divergente da orientação pedetista da ex-vice de Ciro não gerou até o momento nenhuma manifestação pública da legenda.

Quando a PEC da Previdência estava para ser analisada no plenário da Câmara, o PDT alardeou que “traições” seriam punidas com rigor e poderiam levar até mesmo à expulsão do partido. Naquela ocasião, a decisão era de que todos os deputados deveriam votar “não” ao texto. Oito, contudo, disseram sim à PEC e sofreram sanções com perda de espaço na sigla e na Câmara. 

“Essa diferença de tratamento demonstra que o que moveu a punição não foi a causa da Previdência, mas sim uma crise de autoridade por parte do presidente do partido [Carlos Lupi], uma percepção de que uma ordem não estava sendo cumprida e uma punição deveria ser estabelecida”, afirmou ao HuffPost em tom de desabafo o deputado Subtenente Gonzaga (MG), um dos parlamentares que disse “sim” à PEC em agosto e foi punido — perdeu sua vaga na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça). 

Ao HuffPost, o presidente do PDT, Carlos Lupi, negou qualquer abordagem diferenciada nas situações e disse que o caso da senadora só poderá ser analisado após término da votação da Previdência pelo Senado.  

“Eu não tenho que dar satisfação nenhuma a deputado que não cumpriu com as diretrizes do partido. Com a senadora Kátia vai ser feito o mesmo. Vamos esperar acabar a votação. Ainda vai ter o segundo turno. O ser humano é capaz de evoluir. Quem sabe no segundo turno há um voto diferente. Enquanto não acabar a votação, não vamos tomar nenhuma providência”, prometeu Lupi.

Nem mesmo nos bastidores, porém, fala-se em qualquer punição para a senadora por sua opção. A avaliação é, primeiro, de ordem prática: casos de senadores diferem de deputados. O mandato, no Senado, é do próprio parlamentar, que pode trocar de legenda a qualquer tempo. Além disso, Kátia Abreu é considerada um quadro importante demais no PDT para se abrir uma frente de batalha contra ela.

Intimidação e perseguição

Internamente, dirigentes, nomes como o ex-ministro Carlos Lupi, o deputado André Figueiredo (CE) - líder na Câmara -, o senador Weverton Rocha (MA) -líder no Senado -, e claro, o presidenciável Ciro Gomes, acreditam que é questão de tempo para a “poeira baixar”. Mas os novatos, insatisfeitos, parecem não pensar com a mesma cabeça. 

Sem concordar com o direcionamento partidário de modo geral, Gil Cutrim (MA) é um dos parlamentares que integram o grupo suprapartidário que vai entrar na Justiça sob o argumento de intimidação e perseguição política para tentar driblar a janela partidária e mudar de sigla fora do período que a legislação permite. 

“As pessoas devem ficar onde se sentem bem, onde tenham condições de exercer o seu trabalho de forma digna. Entendo que devemos avançar em muitas questões, vejo essa questão da polarização muito nociva ao País. Existem movimentos interessantes que são fundamentais para o fortalecimento da nossa jovem democracia. Nossos mandatos são parlamentares, partidários e da população”, disse o deputado Gil Cutrim ao HuffPost.

Como ele e Tabata Amaral, outros nomes novos no Parlamento, mas não menos populares, como o deputado Felipe Rigoni (PSB-ES), também fazem parte dessa iniciativa. 

A Lei Eleitoral só autoriza aos deputados mudar de partido quando expulsos ou no prazo da janela partidária. A maioria dos parlamentares que integram esse grupo, cerca de 30, já até recebeu convite de outras legendas. É o que corre pelos corredores da Câmara. 

Essa diferença de tratamento demonstra que o que moveu a punição não foi a causa da Previdência, mas sim uma crise de autoridade por parte do presidente do partido e uma punição deveria ser estabelecida.

Clima de guerra

O certo é que o clima no PDT tem andado tenso desde a crise desencadeada com o voto dos oito deputados na contramão da orientação dos caciques da legenda. A crise repercutiu com as trocas de farpas entre o ex-candidato à Presidência Ciro Gomes e a deputada Tabata Amaral (SP). 

Antes da votação, a parlamentar anunciou que votaria a favor da proposta. Foi procurada pessoalmente por Lupi e pelo próprio Ciro. Negou-se a mudar de posição e justificou em suas redes sociais: “O meu ‘sim’ não é ao governo. Em momentos como esse, é preciso olhar para o futuro do País. Não é fácil e não é cômodo escolher esse caminho, mas é absolutamente necessário”.

Ciro, que foi um dos entusiastas de Tabata, chamando-a de “tesouro” e a considerando como uma aposta de renovação pedetista, chegou a ser desprezada pela legenda quando o ex-ministro disse em entrevistas posteriores que ela faz “dupla militância”, em referência aos movimentos Renova BR e Acredito dos quais ela faz parte — ambos fazem questão de ressaltar que não são organizações partidárias — e que ela “não tem mais lugar no PDT”. 

Em entrevista ao Congresso em Foco, a deputada disse nesta semana que Ciro “espalha fake news” sobre ela. 

Nesse “jogo de poder”, palavras usadas pela deputada ao site, Tabata fez questão de retornar às suas redes sociais e parabenizar a senadora Kátia Abreu pelo voto a favor da reforma da Previdência.

Embora a jovem parlamentar tenha ficado conhecida, a relação do PDT ficou abalada com outros deputados — tachados de “traidores” pelo líder da sigla na Câmara, André Figueiredo (CE).

Para o deputado Alex Santana (BA), “a relação interna no PDT ficou arranhada com alguns deputados”. “Mas depende da característica de cada um e do que cada um sofre nas bases”, ponderou. 

Segundo relatou ao HuffPost, ele conseguiu, a partir de diálogo com seus eleitores, e também com a cúpula partidária, “superar” o momento. “Busquei defender meu posicionamento, identificar onde as partes erraram, mas manter uma boa relação”. 

Com menos espaço dentro do PDT e sem sua cadeira na Comissão de Seguridade e Família e também a suplência na de Direitos Humanos, o parlamentar acredita que houve nas sanções aplicadas uma “sentença antecipada”. “Fomos a um Conselho de Ética, mas antes já tínhamos sido sentenciados. Deveria ter sido como em outras siglas, que fizeram primeiro um processo”.