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21/07/2020 17:46 -03

Ministro interino da Saúde diz que Brasil negocia pagamento de vacina de Oxford

“Tome os medicamentos e, se Deus quiser, você vai ficar bom”, disse Eduardo Pazuello.

O ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, afirmou nesta terça-feira (21) que o acordo para acesso à vacina para covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford está na fase de negociação do pagamento. O militar também defendeu o tratamento na fase inicial da doença e disse que a palavra do médico é soberana. “Tome os medicamentos e, se Deus quiser, você vai ficar bom”, afirmou em coletiva de imprensa em Porto Alegre (RS). 

Questionado sobre o acordo com a AstraZeneca, farmacêutica detentora dos direitos de comercialização da vacina de Oxford, Pazuello afirmou que “o momento agora é o pagamento à AstraZeneca”. “A negociação do pagamento, o caminho certo da contratação. Já está feito o acordo e o protocolo de intenções. O tempo disso aí é final do ano. A previsão é dezembro e janeiro estejamos fabricando a vacina com a AstraZeneca, que é a solução”, disse.

Em 27 de junho, o Ministério da Saúde anunciou o acordo de cooperação que prevê tanto a compra do ingrediente farmacêutico ativo quanto a transferência de tecnologia para que etapas da produção possam ser feitas em território nacional. A primeira fase, com custo de US$ 127 milhões, terá a produção de 30,4 milhões de doses, divididas em dois lotes: um em dezembro de 2020 e outro em janeiro de 2021. 

Na época, o governo brasileiro apresentou uma carta de intenção à embaixada britânica. O acordo só será fechado de fato pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ligada ao Ministério da Saúde, o que ainda não ocorreu. As negociações estão sendo conduzidas por integrantes do Instituto Bio-Manguinhos, unidade da fundação responsável por monitorar as iniciativas de vacina contra o novo coronavírus (SARS-CoV-2). 

Além da vacina de Oxford, Pazuello afirmou que está sendo pactuada a  possibilidade de compra com prioridade da vacina desenvolvida pela farmacêutica Moderna, dos Estados Unidos. 

O general também afirmou que a vacina desenvolvida pela Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, “está mais ou menos no mesmo momento da AstraZeneca e essa fabricação seria feita no Butantan para complementar as quantidades que nós estamos trabalhando”. Ele não citou qualquer informação de acordo para acesso ao produto. Todas as três iniciativas ainda estão em teste.

Cloroquina e ivermectina para covid-19

Em uma apresentação antes de responder a perguntas de jornalistas, o ministro interino da saúde defendeu o diagnóstico clínico, sem exame laboratorial, para covid-19, e o tratamento na fase inicial da doença. “O tratamento ideal é o tratamento precoce. O diagnóstico é feito pelo médico. Ele erroneamente foi classificado apenas como teste”, afirmou.

No final de junho, o Ministério da Saúde alterou os critérios de notificação de casos do novo coronavírus. Desde então, o médico tem a palavra final para diagnosticar a doença. A medida desincentiva a aplicação de testes moleculares RT-PCR, única forma de ter certeza de que a pessoa foi contaminada pelo SARS-CoV-2. 

Andressa Anholete via Getty Images
"'Tome os medicamentos e, se Deus quiser, você vai ficar bom", diz general Eduardo Pazuello, ministro interino da Saúde.

Ao defender o diagnóstico clínico, o general orientou que as pessoas procurem o sistema de saúde ao ter sintomas da doença, ainda que leves. “Se diagnosticado covid, receba a prescrição de medicamentos. O médico vai dizer quais medicamentos são mais eficazes para cada um. É soberano o médico nesse aspecto. Receba ou compre os medicamentos, tome os medicamentos e, se Deus quiser, você vai ficar bom. Se você piorar, continue em contato com o médico”, disse. 

O ministro interino da Saúde também afirmou que internação em UTI (unidade de terapia intensiva) e uso de respirador só deve ser feito em “último caso”.

Questionado sobre a orientação do Ministério da Saúde sobre o uso de medicamentos sem comprovação científica para tratar a covid-19, Pazuello disse que a palavra final é do médico. “Não é um protocolo nem uma diretriz. Ele [ministério] apresenta os medicamentos usados pelo SUS, quais estão dando resultado em termos de prescrição, qual a melhor dosagem e qual melhor momento desse uso. Temos aí a hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina já listadas nessa orientação. Cabe ao médico avaliar o paciente, diagnosticá-lo e cabe ao médico prescrever qual o medicamento ideal naquela fase para aquele paciente”, respondeu, em referência à nota informativa do Ministério da Saúde.

O documento citado, contudo, não inclui a ivermectina. Na nota, a pasta recomenda o uso da cloroquina com azitromicina (antibiótico) ou uso de sulfato de hidroxicloroquina com azitromicina mesmo para casos leves. Além de não ter se provada eficaz, a cloroquina aumenta o risco cardíaco. Já foram entregues 4,3 milhões de comprimidos pelo Brasil, de acordo com o governo federal.

A distribuição da ivermectina, antiparasitário usado principalmente para tratar piolho, por sua vez, tem sido feita pela prefeituras. Os chamados “kits covid” incluem ivermectina, além da azitromicina, dipirona e cloroquina. Não há comprovação científica de eficácia do vermífugo para prevenir ou tratar o novo coronavírus e o uso com outros medicamentos pode ser tóxico, de acordo com especialistas.

Inquérito sorológico cancelado

Sobre o inquérito sorológico conduzido pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas), Pazuello disse que a pesquisa não foi renovada porque não trouxe informações nacionais sobre a epidemia. “A pesquisa estava muito boa, mas com dificuldade de a gente ter uma posição nacional. Para efeitos de Brasil, a gente precisaria mudar alguns focos do que foi contratado pela universidade e estamos discutindo isso”, disse.

De acordo com o ministro interino, a equipe teve “dificuldade de transferir o raciocínio, fazer uma triangulação das ideias para efeitos de Brasil como um todo”. “O Brasil é muito heterogêneo e a gente precisaria de pesquisas individualizadas em cada região do país. É o que nós estamos avaliando”. Pazuello não anunciou se a pasta irá contratar novos estudos semelhantes. 

Com custo de R$ 12 milhões e chamada de Epicovid, a pesquisa com testes sorológicos é considerada o maior estudo brasileiro sobre prevalência do coronavírus. Nas três etapas concluídas, foram entrevistados moradores de 133 municípios em todos os estados.

O estudo identificou que grande parte das pessoas desenvolvem sintomas, que a população mais pobre está mais vulnerável à doença, além de evidências de subnotificação. Foi encontrada uma grande diferença entre os números das estatísticas oficiais e as pessoas que têm anticorpos para a doença. Segundo o estudo, o total de infectados no Brasil é cerca de 6,5 vezes maior do que mostram os dados oficiais. De acordo com balanço das secretarias de saúde, os infectados passam de 2 milhões e mais de 80 mil mortes foram registradas.

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