NOTÍCIAS
15/07/2020 19:27 -03 | Atualizado 16/07/2020 08:59 -03

Brasil é 'um grande exemplo de combate no mundo' à covid-19, diz secretário do Ministério da Saúde

"O primeiro grande motivo é que talvez somos o país com o maior número de recuperados da doença", disse Arnaldo Medeiros, sem citar mortes.

O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Correia de Medeiros, afirmou nesta quarta-feira (15) que o Brasil é um exemplo para o mundo de resposta à pandemia do novo coronavírus. “Acho que o País é um grande exemplo de combate no mundo à doença”, disse, em coletiva de imprensa.

De acordo com levantamento divulgado pelo Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde), com dados compilados até às 18h, há 1.966.748 casos confirmados e 75.366 mortes causadas pela covid-19.

“Discordo literalmente, frontalmente, que nosso país é um dos piores no mundo no combate da doença. Isso não é verdade por vários motivos. O primeiro grande motivo é que talvez somos o país com o maior número de recuperados da doença. Os Estados Unidos têm mais que o dobro do quantitativo dos nossos casos e temos muito mais recuperados”, afirmou o secretário.

De acordo com Medeiros, “esse ministério tem feito sim, nos últimos meses, um esforço imenso para dar aos profissionais da ponta capacidade para o manejo clínico dos seus pacientes”.

Segundo boletim divulgado pelo próprio Ministério da Saúde nesta quarta, há 1.255.564 pessoas recuperadas no Brasil, frente a 1.049.098 nos Estados Unidos. 

Por ser uma doença nova, com chances de causar sequelas, especialistas são cautelosos ao falar de cura. A infecção pelo novo coronavírus é uma doença sistêmica, que afeta vários órgãos. A presença do vírus desencadeia a chamada “tempestade de citocinas”, uma resposta imunológica do próprio corpo que, se for descontrolada, pode acabar agravando o quadro.

Além de atacar o sistema respiratório, o vírus é danoso à parede dos vasos sanguíneos. Estudos também identificaram pacientes que desenvolvem sintomas e descompassos neurológicos e lesões na retina, por exemplo. 

SERGIO LIMA via Getty Images
Ao analisar o ranking mundial, o Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos e é o segundo país com mais mortes causadas pela covid-19, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins.   

Placar da vida

O discurso de Medeiros está alinhado com o Palácio do Planalto. A Secom (Secretaria de Comunicação Social) criou o “Placar da Vida”, publicado diariamente nas redes sociais da Presidência. A publicação omite as mortes e destaca o número de recuperados. 

Em junho, houve uma série de idas e vindas na forma de divulgação dos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde. Após atrasar o horário de envio dos dados, a pasta deixou de informar o acumulado de mortes e diagnósticos em 5 de junho. A divulgação regular só foi retomada em 9 de junho, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).

A pasta também chegou a anunciar que adotaria uma nova metodologia, com boletins diários de óbitos ocorridos nas últimas 24 horas e não confirmados. Na prática, ela inviabilizava uma comparação com os dados anteriores, dificultando a compreensão da evolução da pandemia no Brasil. Ela também atrapalhava a comparação dos números com outros países, por adotar critérios distintos do resto do mundo. A mudança, contudo, não foi colocada em prática até agora.

Questionado sobre minimizar as mortes na pandemia, Medeiros afirmou que “perder um ente querido para uma doença em um processo pandêmico é triste para qualquer governo”, mas negou que haja omissão.

“Às vezes é uma opção, se você prefere pensar nos dados do óbito ou se você prefere pensar nos dados de vida. Às vezes é uma opção se você prefere fazer relatos da tristeza, da dor de quem perdeu uma vida, ou você fazer um relato de quem lutou com essa doença no serviço público de saúde e alcançou a sua recuperação”, completou o secretário.

Ao analisar o ranking mundial, o Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos e é o segundo país com mais mortes causadas pela covid-19, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins. 

Os dois países repetem as posições também em relação aos diagnósticos. Em território americano, foram registrados 3,1 milhões de casos. A diferença das taxas de testagem entre os dois países - 37.188 testes por milhão de habitantes nos EUA e 8.737 por milhão de habitantes no Brasil - por sua vez, é uma evidência da subnotificação da crise sanitária no cenário brasileiro.

De acordo com boletim do Ministério da Saúde divulgado nesta quarta, a incidência da doença é de 9.359 por milhão de habitantes no Brasil e a mortalidade é de 359 por milhão. Dessa forma, o País está na 10ª e 11ª posição, respectivamente, em comparação com outras nações.

Adriano Machado / Reuters
Eduardo Pazuello assumiu o Ministério da Saúde com a saída de Nelson Teich, em 15 de maio. O total de mortes pela covid-19 passou de 70 mil e há quase 2 milhões de casos confirmados.

Ministério da Saúde não responde sobre Pazuello 

Integrantes do Ministério da Saúde não responderam a questionamentos acerca da atuação do ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello. O militar conversou nesta quarta com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes, com o objetivo de conciliação entre Judiciário e Executivo.

No sábado, o magistrado afirmou que o Exército se associou a um “genocídio”, em referência à condução das ações de combate à epidemia. “O Exército está se associando a esse genocídio, não é razoável. Não é razoável para o Brasil. É preciso pôr fim a isso”, disse Mendes em uma live.

Pazuello assumiu a pasta com a saída de Nelson Teich, em 15 de maio. A ascensão do general levou a uma ocupação de militares sem formação sanitária na cúpula do Ministério da Saúde. O total de mortes pela covid-19 passou de 70 mil e há quase 2 milhões de casos confirmados. 

Em reação à fala de Gilmar Mendes, o Ministério da Defesa divulgou uma nota de repúdio e enviou, nesta terça, uma representação contra o ministro do STF à PGR (Procuradoria-Geral da República). Por outro lado, nos bastidores, há um esforço de ambos os lados em colocar panos quentes.

O episódio reforçou a pressão para que Pazuello deixe a pasta em uma tentativa de evitar uma associação entre a gestão na Saúde e o Exército brasileiro. O argumento, contudo, contraria a atuação de outros ministros militares, como Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), responsáveis por levar o protagonismo da condução da crise sanitária para o Palácio do Planalto.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost