OPINIÃO
13/02/2020 12:19 -03 | Atualizado 13/02/2020 12:19 -03

Por menos declarações infelizes do ministro da Economia

É inadmissível que o guardião da economia brasileira fale como um playboy, ainda que seja ele um Chicago Boy.

OLIVIER DOULIERY via Getty Images
Ministro da Economia não cansa de nos espantar com suas declarações infelizes e, em alguns casos, preconceituosas.

Já sabemos há mais de ano que o governo Bolsonaro não se incomoda em produzir dezenas de pérolas imprecionantes (sic), frases polêmicas, carregadas de ideologia, para constantemente lembrar quem é que está no poder e qual é o pensamento hegemônico.

Não deixa de me espantar, porém, a boca suja do ministro da Economia — ou sua inabilidade com as palavras ou retórica inadequada, como o leitor definir melhor essa característica de Paulo Guedes.

Menos de uma semana depois de Guedes comparar os servidores públicos a “parasitas”, em uma palestra a favor da reforma administrativa (a repercussão foi muito ruim para a proposta), agora o ministro criticou a época de dólar baixo — situação bem distante de nossa realidade atual — para dizer que “todo mundo [estava] indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada”. 

Ele tentou reformular sua frase, emendando que o dólar a R$ 1,80 permitia até as classes sociais mais baixas irem diversas vezes a Disney. Sugeriu que, em vez de ir aos EUA, os brasileiros viajem mais pelo Brasil — a praias do Nordeste, Foz do Iguaçu (PR), Cachoeiro do Itapemirim (ES), terra de Roberto Carlos. (Leia o contexto aqui.)

Ainda que a explicação econômica do impacto positivo de dólar alto e juro baixo para a economia brasileira faça sentido, mais uma vez o ministro errou feio na maneira como se expressa. A frase “empregada doméstica indo para Disneylândia” seguramente carrega uma conotação classista — do lugar que cabe a cada pessoa no mundo.

Curiosamente, esse discurso insultuoso de Guedes alimenta a cantilena petista, entoada à exaustão pelo ex-presidente Lula, segundo a qual há uma feroz luta de classes no Brasil, do nós contra eles. Nós, o povo. Eles, os empresários, os inimigos do povo que não suportam ver a nossa ascensão, possibilitada por políticas do governo lulista.

Não é objeto deste texto a narrativa petista, mas sim observar como ela volta a se fortalecer com esse tipo de declaração de Paulo Guedes.

É inadmissível que o guardião da economia brasileira, homem que está incumbido de ajudar o País a retomar o crescimento, a combater o desemprego de milhões, se comunique como um playboy, ainda que seja um Chicago Boy.

Criminalizar servidor público, desmerecer doméstica, minimizar AI-5...

Menos, ministro. Menos.