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03/11/2019 04:31 -03 | Atualizado 04/11/2019 12:24 -03

Paulo Câmara cobra do governo Bolsonaro transparência em testes de contaminação por óleo

Em entrevista exclusiva ao HuffPost, governador de Pernambuco avalia que "maior acidente ambiental" do Brasil envolvendo óleo tomou essa proporção porque governo Bolsonaro subdimensionou vazamento.

Hélia Scheppa/SEI-Divulgação
Para Paulo Câmara, faltou "priorização" na gestão do vazamento de óleo no mar do Nordeste pelo governo Bolsonaro.

Recife (PE) — As praias de Pernambuco chegam a este domingo (3) limpas, sem praticamente nenhum vestígio de óleo segundo as equipes de monitoramento. Mas o avanço da mancha escura sobre as águas, que se intensificou a partir de 17 de outubro, atingiu 47 praias do estado e culminou com mais de 1,5 mil toneladas de petróleo recolhido. Tornou-se o “maior acidente ambiental de vazamento de óleo que o Brasil já teve notícia” pela demora do governo federal em colocar a questão como prioridade. Essa é a avaliação do governador de Pernambuco, Paulo Câmara, em entrevista exclusiva ao HuffPost na noite de sexta-feira (1º), no Palácio Campo das Princesas, Recife.

“Uma das grandes falhas [do governo federal] foi subdimensionar isso”, atesta o governante do PSB. “60 dias sem a origem do óleo ser investigada e, sem se colocar na plenitude um Plano Nacional de Contingência que já existe desde 2013... Só depois que [o óleo] chegou em Pernambuco, que houve uma mobilização por parte do Ministério Público Federal, é que estamos vendo alguma coisa desse plano sair do papel efetivamente”, defende. 

Crítico à forma como o presidente Jair Bolsonaro conduziu a crise que agora já atinge os nove estados do Nordeste e, de acordo com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), pode chegar a Santos e ao Rio de Janeiro, Paulo Câmara cobrou transparência do governo federal. 

Quando se fala em uma live que pode comer os peixes, a gente entende que deve ter tido algum teste, em alguma área infectada e deve ter dado negativo, mas nunca nos foi apresentado. Então, é importante também ter transparência de todos esses procedimentos, porque isso é fundamental.

Câmara se refere à transmissão ao vivo feita por Jair Bolsonaro em seu Facebook na última quinta-feira (31). Na ocasião, o secretário de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif, que acompanhou o mandatário na live, foi taxativo ao dizer que não há problemas em consumir peixes, lagostas e camarão da região contaminada. “O peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê uma manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo”, disse Seif.

“Cadê o exame, cadê a prova de que pode? Não há nenhum risco de contaminação? Tudo isso a população pede respostas e nós também”, questionou o governador pernambucano.

Câmara frisou a necessidade de um laudo dos órgãos federais para comprovar não haver riscos à saúde no consumo de pescados das águas atingidas pelo óleo. Destacou, porém, que até 8 de novembro a população de Pernambuco terá o resultado de uma análise encomendada pelo próprio governo do estado sobre a água do mar e as areias da praia. 

“Estamos contratando as universidades e aguardamos para 8 de novembro a análise da água para mostrar se há existência de hidrocarbonetos e outros produtos químicos — benzeno, tolueno, xileno e etilbenzeno. Já foi mandada amostra para exame da qualidade da água e também da qualidade do solo. Contratamos também, a partir da Universidade Rural de Pernambuco, para se fazer exames em amostras de pescados, em vários tipos, buscando saber se há algum risco para a saúde ou não, em áreas que possam ter sido contaminadas”, contou o governador Paulo Câmara ao HuffPost. O laudo sobre a qualidade dos pescados está previsto apenas para o fim deste mês.

Impacto sem precedentes 

O vazamento de óleo - que ainda não se sabe exatamente de onde vem, quanto tempo vai durar e se voltará a sujar mais locais - chegou a 296 praias, em 101 municípios, dos nove estados do Nordeste até sexta-feira, conforme o último balanço do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente). 

Stringer . / Reuters
Voluntário em Tamandaré, Pernambuco, remove óleo do mar.

Com o início das operações de limpeza pelo Grupo de Acompanhamento e Avaliação, formado pela Marinha, Ibama e também Agência Nacional de Petróleo, a situação é bem menos grave do que já esteve, quando voluntários, desesperados pela quantidade de óleo nas águas, decidiram colocar s mão na massa, muitas vezes sem proteção e com risco de contaminação.

De acordo com levantamento oficial, ainda há vestígios de óleo em 172 praias, mas 105 das que foram atingidas estavam limpas até sexta. Esse número é variável, uma vez que ainda não se sabe quanto óleo ainda há no oceano e se ainda há algo para chegar. 

Apesar dos esforços, 19 praias ainda estão com manchas. No sábado (2), o Parque Nacional de Abrolhos, na Bahia, foi afetado e a Marinha chegou a recolher fragmentos de óleo. 

Em Pernambuco, até sexta, sete das 47 praias atingidas ainda tinham poucos vestígios - Cupe, Merepe, Boca da Barra, Enseada dos Corais, Itapuama, Janga e Nossa Senhora do Ó -, mas no sábado o governo informou que a situação estava controlada pela primeira vez — desde que as primeiras manchas foram detectadas.

Praias de Pernambuco atingidas por óleo 

Catuama - Goiana

Ponta de Pedras - Goiana

Ilha de Itapessoca - Goiana

Praia de Forte Orange -Itamaracá

Enseada dos Golfinhos - Itamaracá

Praia de Jaguaribe - Itamaracá

Praia do Pilar - Itamaracá

Sossego - Itamaracá

Pontal da Ilha de Itamaracá

Conceição - Paulista

Nossa Senhora do Ó - Paulista

Janga - Paulista

Maria Farinha - Paulista

Pau Amarelo - Paulista

Praia de Del Chifre - Olinda

Candeias – Jaboatão dos Guararapes

Piedade - Jaboatão dos Guararapes

Barra de Jangada - Jaboatão dos Guararapes

Boa Viagem - Recife

Ilha Cocaia – Cabo de Santo Agostinho

Itapuama - Cabo de Santo Agostinho

Pedra de Xaréu - Cabo de Santo Agostinho

Porto de Suape - Cabo de Santo Agostinho

Praia de Suape - Cabo de Santo Agostinho

Praia do Paiva - Cabo de Santo Agostinho

Praia de Gaibu - Cabo de Santo Agostinho

Ilha do Amor - Cabo de Santo Agostinho

Enseada dos Corais - Cabo de Santo Agostinho

Praia de Gamboa - Ipojuca

Nossa Senhora do Ó - Ipojuca

Muro Alto - Ipojuca

Pontal do Cupe - Ipojuca

Praia do Cupe - Ipojuca

Merepe - Ipojuca

Pontal de Maracaípe - Ipojuca

A Ver o Mar - Sirinhaém

Guaiamum - Sirinhaém

Ilha de Santo Aleixo - Sirinhaém

Barra de Sirinhaém - Sirinhaém

Praia de Sirinhaém - Sirinhaém

Carneiros- Tamandaré

Tamandaré

Boca da Barra - Tamandaré

Praia da Pedra - Tamandaré

Reduto – Rio Formoso

Mamucabinhas - Barreiros

São José da Coroa Grande

O estado de Pernambuco implantou barreiras em 10 estuários, para tentar barrar a passagem do óleo. Apesar disso, parte do poluente passou para os rios e, por isso, há ações de mergulhadores em várias localidades da região. Entre quinta (31) e sexta, equipes da Marinha encontraram mais de 400 kg petróleo no fundo do Rio Persinunga, em São José da Coroa Grande.

Leia a íntegra da entrevista com o governador de Pernambuco: 

HuffPost: Como o governo estadual tem atuado no controle do óleo nas praias? 

Paulo Câmara: A gente tem tido muita atenção desde que as primeiras manchas começaram a chegar, em 2 de setembro. O dado mesmo certo é 30 de agosto, mas 2 de setembro foi quando começou a ter um alerta mais geral. Aqui em Pernambuco o dano maior começou efetivamente no dia 17 de outubro, quando houve realmente uma mobilização para a limpeza das praias. 

A gente não tinha informação. Acho, na verdade, que uma das grandes falhas do processo foi subdimensionar isso. É o maior acidente ambiental de vazamento de óleo que o Brasil já teve notícia.

Começou entre 30 e agosto e 2 de setembro e, hoje [sexta (1/11)], é a primeira notícia sobre a possibilidade de ter se achado a origem desse óleo. Então, 60 dias sem a origem do óleo ser investigada e, sem se colocar na plenitude um Plano Nacional de Contingência que já existe desde 2013, e que só depois que [o óleo] chegou em Pernambuco que houve uma mobilização por parte do Ministério Público Federal, é que estamos vendo alguma coisa desse plano sair do papel efetivamente. 

Houve uma demora muito grande para se colocar isso como uma prioridade nacional. E nem podemos dizer que há uma prioridade nacional, até porque se demorou muito e, efetivamente, a gente só viu movimentos a partir de 21 de outubro, quando o presidente em exercício [Hamilton Mourão] anunciou reforços com as Forças Armadas, tanto com a chegada do Exército, quanto da Aeronáutica. Houve muita demora. 

Aqui no estado a gente, desde o primeiro momento, se preparou. Seja fazendo ações que já deveriam estar preparadas, ou seja, nós que tivemos que comprar equipamentos de proteção individual, nós que contratamos a destinação dos resíduos coletados - contratamos um centro de tiragem desde o primeiro dia que chegou o óleo em quantidade a gente recolhe para um centro de tratamento -, nós colocamos barreiras de proteção em todos os nossos rios - não havia esse planejamento por parte do governo federal -, fomos o primeiro estado que colocou barcos para identificar essas manchas ainda em alto mar. Então, tomamos todas as providências dentro da nossa competência e, evidentemente, fomos um estado que cobrou muito também as providências federais. 

Porque quando não se tem um responsável, cabe ao governo federal, por se tratar de contaminação em águas marinhas, tomar essas providências. Então isso foi uma necessidade muito grande que tivemos de cuidar disso. 

Evidentemente que tivemos uma preocupação muito grande com o grau de contaminação nos estuários. Isso ainda está sendo verificado, também por ações nossas. Então, só quando cobramos mais efetivamente - tivemos que provocar tanto o Ibama, como a Petrobras, como a Marinha, como outras organizações - é que foi autorizado entrar nas APAs (áreas de proteção ambiental) federais e se utilizar mergulhadores dentro dos rios para saber exatamente o grau de contaminação. 

Stringer . / Reuters

Contratamos também as universidades para fazer exames da qualidade da água. Estamos fechando a contratação [de testes] dos pescados, porque não existia nem protocolo ainda para exames de pescados. Tudo isso estamos fazendo e, com 60 dias, com o que aconteceu aqui e nos outros estados? Ainda não houve um resultado oficial federal. 

Apesar de o presidente ontem ter dito na live dele que pode comer peixe etc e tal… Cadê o exame, cadê a prova de que pode? Não há nenhum risco de contaminação? Tudo isso a população pede respostas e nós também. Então, estamos fazendo o que precisa ser feito em virtude dessa lacuna e respostas em relação a muitas respostas que, diante da gravidade do assunto, era pra ter sido a prioridade número um do governo federal desde o início. 

Como o senhor disse, o MPF tem alegado que o governo federal não acionou o Plano Nacional de Contingência para Incidente de Poluição por Óleo desde o início. Qual a avaliação do senhor? O senhor acredita em omissão?

Não posso dizer omissão. Mas a priorização necessária de um problema tão grave precisava ter sido dada e só foi dada bem mais na frente. Precisou mais de 40 dias para que isso entrasse realmente na pauta efetiva e, se ter coisas básicas, como acionar as Forças Armadas, já que a Marinha é coordenadora do processo, para ajudar na limpeza das praias. Só a partir de 21 de outubro, quase 50 dias, é que houve esse acionamento de reforço de gente. 

O que a gente estava vendo: o volume de voluntários da forma que foi, é algo importante, mas tem que ter cuidados. Era para ter tido cuidados de quem estava à frente disso, para as pessoas verem que isso estava tendo a devida atenção e não ter se acionado tanto voluntário quanto se acionou. Isso pode ter colocado até em risco. 

Precisou ter uma série de alertas nossos também, para manuseio desse material, riscos que se poderiam provocar, até pela falta de informação. Isso a gente teve que acionar ao longo desse processo. Isso já deveria ter um protocolo desde o início, desde que manchas chegaram em outros estados, porque a situação da Bahia, de Alagoas, de Sergipe não é de agora. 

O senhor mencionou a live do presidente Jair Bolsonaro da última quinta (31/10), em que o secretário de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif, afirmou que não há riscos de contaminação no pescado. Porém, especialistas alertam para riscos à saúde. O senhor disse que espera respostas. Mas o que o governo de Pernambuco tem feito enquanto isso sobre essa questão dos pescados, especificamente?

Estamos contratando as universidades e aguardamos para 8 de novembro a análise da água para mostrar se há existência de hidrocarbonetos e outros produtos químicos - benzeno, tolueno, xileno e etilbenzeno. Já foi mandada amostra para exame da qualidade da água e também da qualidade do solo. Contratamos também, a partir da Universidade Rural de Pernambuco, para fazer exames em amostras de pescados, em vários tipos, buscando saber se há algum riscos para a saúde ou não, em áreas que possam ter sido contaminadas. 

Houve uma demora muito grande para se colocar isso como uma prioridade nacional. E nem podemos dizer que há uma prioridade nacional, até porque se demorou muito e, efetivamente, a gente só viu movimentos a partir de 21 de outubro, quando o presidente em exercício [Hamilton Mourão] anunciou reforços com as Forças Armadas, tanto com a chegada do Exército, quanto da Aeronáutica.

O que nos preocupa, é que uma questão como essa, em que os óleos chegaram desde o dia 2 de setembro, a gente nunca recebeu nenhum exame oficial de nenhum órgão do governo em relação a esses cuidados que estamos tomando desde o dia 17, ou seja, qualidade da água, do solo e pescados. 

Quando se fala em uma live que pode comer os peixes, a gente entende que deve ter tido algum teste, em alguma área infectada e deve ter dado negativo, mas nunca nos foi apresentado. Então, é importante também ter transparência de todos esses procedimentos, porque isso é fundamental. Se é o mesmo óleo, e foram feitos exames em algum dos estados afetados, esses exames têm que chegar a conhecimento de todos e a gente desconhece qualquer tipo de teste oficial que foi feito em algum tipo de laboratório ou por algum tipo de expediente institucional. 

Existe preocupação do governo de Pernambuco com consequências também no turismo, também impactos econômicos? 

Veja, nossa preocupação sempre foi com a questão ambiental e a saúde das pessoas. Econômica, lógico que pesa, mas você tem que cuidar primeiro disso [saúde e ambiente]... Em 25 de outubro eu lancei um edital, através da nossa fundação de pesquisa e amparo, Facep (Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco), de R$ 2,5 milhões, para 12 áreas a serem pesquisadas, justamente pra gente saber os possíveis efeitos desse óleo, tanto para economia, quanto para o meio ambiente, quanto para a situação de médio e longo prazo do nosso estado. Essas providências foram tomadas. 

Evidentemente que somos um estado turístico e temos essa preocupação e, por isso, temos uma agilidade muito grande na limpeza e no envio desse material para o centro de resíduo. 

Agora, a falta de resposta, a imprevisibilidade no tocante a essas manchas faz que um grande ponto de interrogação continue em relação a quando isso vai parar. Então isso é um ponto que realmente nos preocupa, porque a gente não sabe… Talvez agora, se a descoberta dessa origem for realmente eficaz, a gente possa ter uma previsibilidade maior do que ainda pode acontecer para frente, e aí tomar as providências para que o turismo não seja afetado e não haja nenhum risco para o nosso meio ambiente.