ENTRETENIMENTO
19/07/2020 01:00 -03 | Atualizado 19/07/2020 01:00 -03

'As Patricinhas de Beverly Hills' ainda é o filme teen definitivo de Hollywood 25 anos após lançamento

Como a versão atualizada de “Emma”, dirigida por Amy Heckerling, coroou uma nova estrela na pessoa de Alicia Silverstone e uniu gerações.

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost; Photos: CBS/Getty Images
“As Patricinhas de Beverly Hills” estreou em 19 de julho de 1995, arrecadando US$ 17,9 milhões em seu primeiro fim de semana em cartaz.

A cada poucos anos as pessoas dizem que os filmes teen morreram. E então vem alguma coisa que supostamente ressuscita o gênero, gerando imitações, spin-offs e inúmeros beneficiários. Talvez não exista um melhor exemplo desse ciclo que As Patricinhas de Beverly Hills, obra-prima que contestou os esnobes para quem brincadeiras de adolescente só dariam cinema de baixa categoria.

Quando o filme chegou às telas, 25 anos atrás, em julho de 1995, os anos 1980, tão favoráveis aos teens, já haviam ficado totalmente para trás, levando com eles os candidatos a Negócio Arriscado (1983) e seguidores de John Hughes.

Na esteira de Cher Horowitz (a protagonista encarnada por Alicia Silverstone) tivemos possivelmente a maior onda de filmes teen na história de Hollywood, onda essa que durou até meados dos anos 2000 e fez de As Patricinhas de Beverly Hills um fenômeno que uniu várias gerações. O filme foi escrito e dirigido por uma baby boomer, promovido para a geração X, convertido em clássico contemporâneo pelos millenials e transformado em alvo de nostalgia pela geração Z.

Não existe uma explicação única de como As Patricinhas de Beverly Hills virou As Patricinhas de Beverly Hills, exceto pelo simples fato de ser o melhor. Mas sua ascendência, que já dura mais de duas décadas, ajuda a esclarecer por que o gênero dos filmes teen às vezes parece estar em perigo de extinção: mesmo quando esses filmes são bons, raramente são tão bons quanto As Patricinhas de Beverly Hills.

Ao modernizar os ardis casamenteiros de Emma, de Jane Austen, Amy Heckerling procurou não apenas captar a “língua franca” dos adolescentes dos anos 1990, mas criar um ethos idiossincrático que corresponde à experiência teen mais ampla.

Ela entendeu que o público que buscava alcançar tinha sido batizado na MTV e na cultura das revistas, de modo que era muito bem informado sobre tudo ligado à cultura pop. Sabia também que, embora os modismos possam ir e vir, os teens americanos compartilham características em comum que são próprias de seu grupo de pares, sua região e sua origem econômica.

Analisando a trajetória do desenvolvimento de As Patricinhas de Beverly Hills, podemos entender sua longevidade um pouco melhor. Amy Heckerling havia dirigido um dos grandes sucessos teen da década de 1980, Picardias Estudantis (1982). Foi o que levou os executivos da 20th Century Fox a sugerir que ela escrevesse um roteiro sobre uma turma adolescente deslocada. Resistente à ideia de fazer mais um filme teen, Heckerling concordou apenas se pudesse fazer uma sátira. Saiu disso um piloto de televisão. Ela batizou a série de No Worries.

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Os figurinos icônicos de Stacey Dash (à esquerda) e Alicia Silverstone em "As Patricinhas de Beverly Hills" foram criados por Mona May, cujos outros créditos incluem “Romy e Michelle”, “Afinado no Amor” e “Encantada”.

A Fox, aparentemente, não gostou. Mas a agente de Heckerling enxergou o potencial do material e incentivou a diretora a aproveitar o que ela tinha criado – a história de uma adolescente patricinha e cheia de alegria – e convertê-lo em um longa-metragem.

Heckerling então fez uma revisão do roteiro, incorporando elementos de Emma e ambientando a história na sofisticada Beverly Hills, Califórnia. Sua heroína ficou sendo a descolada Cher (Alicia Silverstone), ao lado de sua BFF sempre produzida Dionne (Stacey Dash) e Tai (Brittany Murphy). Cher adota como missão aproximar dois professores solitários (Wallace Shawn e Twink Caplan), até um dia se dar conta de que ela própria está apaixonada. O objeto de seu afeto é seu antigo ex-meio-irmão (Paul Rudd), universitário intelectualizado que zomba do materialismo dela.

A Fox considerou a proposta de Heckerling feminina demais. Na visão convencional de Hollywood, mulheres não eram comercialmente viáveis. A indústria acreditava havia muito tempo que garotas topavam assistir a filmes sobre garotos, mas que garotos não assistiriam a filmes sobre meninas – e que o mesmo se aplicava a homens heterossexuais, cujos hábitos de adolescência muitas vezes os acompanhavam na idade adulta.

Os anos 1980 e início dos anos 1980 foram saturados de blockbusters cômicos sobre homens bobalhões (Porky’s – A Casa do Amor e do Riso, Corra que a polícia vem aí!, Bill e Ted - Uma Aventura Fantástica, Debi & Lóide - Dois Idiotas em Apuros, Billy Madison, um Herdeiro Bobalhão), intensificando essa visão do que merece ser financiado.

Por isso mesmo, a Fox pediu a Heckerling que reservasse mais tempo no filme para os personagens homens. Quando ela recusou, o estúdio desistiu do projeto – decisão que o New York Times descreveria como “embaraçosa” um ano mais tarde, quando As Patricinhas de Beverly Hills bombou.

Cada filme tem uma história de origem que contribui para seu tempo de permanência na atenção das pessoas. Conseguir o distribuidor certo no momento correto pode garantir o sucesso ou fracasso de um filme.

Graças à reação sexista dos executivos da Fox, As Patricinhas de Beverly Hills pôde encontrar abrigo mais apropriado na Paramount Pictures, onde a executiva-chefe Sherry Lansing não demorou a aprovar o projeto. Heckerling também entregou a Lansing uma cópia do vídeo feito pelo Aerosmith para Crazy, apresentando Alicia Silverstone em roupa de colegial. A diretora já a havia identificado como sua escolha para o papel principal. Desse modo, fez sentido que seu filme começasse com algo que parecia um videoclipe ao som de Kids in America, de Kim Wilde.

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Paul Rudd, visto aqui com Alicia Silverstone, tinha um papel recorrente na série da NBC "Sisters", mas “As Patricinhas de Beverly Hills” foi seu primeiro longa-metragem.

Uma coisa que nem a Fox nem a Paramount poderiam ter previsto é que 1995 seria um ano fantástico para as mulheres nos cinemas multiplex. Pocahontas, Mentes Perigosas, Enquanto Você Dormia, Falando de Amor e As Pontes de Madison invalidaram os argumentos de qualquer insensato que pensasse que o público americano iria automaticamente rejeitar filmes em que os homens não estão no primeiro plano.

As Patricinhas de Beverly Hills estreou na segunda posição nas bilheterias (Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo foi imbatível) e se enraizou mais fortemente em nossa memória coletiva do que muitos dos trabalhos daquele ano impulsionados por homens (Duro de Matar - A Vingança, Congo, Waterworld - O Segredo das Águas, Lancelot, o Primeiro Cavaleiro). 

Heckerling alcançou o tipo de status que confunde os cinéfilos que se consideram sérios e que aprenderam a achar que a seriedade é inerente a um tom austero. Sabe aqueles filmes filosóficos densos que algumas pessoas supostamente não entendem? As Patricinhas de Beverly Hills foi um deles – uma brincadeira inteligente que disfarçou sua inteligência por baixo de um véu de brilho pop.

O que é o monólogo de Cher sobre “posso lembrar a vocês que não está escrito ‘RSVP’ na Estátua da Liberdade?” senão um discurso sobre refugiados políticos, como destacou a internet em 2017 quando Donald Trump barrou a entrada no país de candidatos a asilo vindos de sete países de maioria muçulmana?

As críticas do filme foram favoráveis, em sua maioria. Mesmo assim, muitas encerravam um quê de pouco-caso. O crítico Peter Stack, do San Francisco Chronicle, por exemplo, descreveu As Patricinhas de Beverly Hills como “uma diversão de verão, bobinha e descartável”. Kenneth Turan, do Los Angeles Times, admitiu, surpreso, que o filme “revela ter mais conteúdo do que se poderia prever”, como se os altos e baixos do colégio não dessem tramas shakespeareanas. As Patricinhas de Beverly Hills fala de valor próprio e companheirismo, que estão longe de serem tópicos triviais.

A Paramount e a MTV compartilham uma empresa mãe, a Viacom, fato que levou a uma sinergia que ajudou a alinhar o espírito estético de As Patricinhas de Beverly Hills com seu público-alvo. O filme foi divulgado incansavelmente na rede durante semanas. Anúncios com Alicia Silverstone e Stacey Dash a caráter estrearam em conjunto com a participação de Silverstone no MTV Movie Awards de 1995, onde um ano antes ela fora premiada na categoria melhor performance revelação por seu trabalho no thriller erótico Paixão Sem Limite.

Em 14 de julho, menos de uma semana antes de As Patricinhas de Beverly Hills estrear nos cinemas, Silverstone co-apresentou um especial de TV filmado na praia para divulgar o lançamento. Participaram do programa seus colegas de elenco Brittany Murphy e Donald Faison, além de celebridades em ascensão na época como Jennifer Aniston, David Arquette, Jared Leto, Marcia Cross e Mark Wahlberg, descrito por Cher por seu pseudônimo de rapper: Marky Mark. 

“Faz muito tempo que o mercado não recebe um filme feito para este público: mulheres jovens, de 8 a 20 anos”, disse na época o vice-presidente da Paramount, Barry London.

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Parte da genialidade da diretora Amy Heckerling era seu dom de identificar o potencial de jovens talentos em ascensão, como Brittany Murphy, Alicia Silverstone e Justin Walker.

Ele tinha razão, embora as bilheterias de As Patricinhas de Beverly Hills não tivessem previsto a longevidade que o filme ganharia. O filme arrecadou US$ 95,2 milhões em valores atualizados, ficando em 25º lugar na lista das maiores bilheterias de 1995.

Em tempos pré-históricos como aqueles, as arrecadações em cinemas só revelavam metade da história. Os estúdios dependiam das locações de vídeo e retransmissões na televisão para conservar o fluxo de dinheiro entrando. Foi quando As Patricinhas de Beverly Hills passou de sucesso modesto de verão a megahit.

Segundo as paradas da Billboard, o VHS do filme – lançado em dezembro, pouco antes do Natal, em timing perfeito – foi um dos 30 títulos mais alugados por 5 longos meses, às vezes superando filmes mais recentes como Os Suspeitos e A Rede. A Viacom, por acaso, havia comprado a Blockbuster em 1994 por supostos US$ 8,4 bilhões.

Quase exatamente 2 anos depois de estrear nos cinemas, As Patricinhas de Beverly Hills estreou na HBO no fim de semana de 4 de julho. Heckerling já havia ampliado o universo do filme para incluir romances (que ela não escreveu) e uma série de TV do mesmo nome que incluía boa parte do elenco coadjuvante. Na série, Rachel Blanchard, de Clube do Terror, tomou o lugar de Silverstone, que estava sendo apontada como a próxima estrela de Hollywood e assinara um contrato de mais ou menos US$ 10 milhões com a Columbia Pictures.

Silverstone também apresentou um dos troféus na cerimônia dos Oscar de 1996, onde foi apresentada como “a estrela de As Patricinhas de Beverly Hills”. A série teve 3 temporadas e gerou episódios de crossover com Moesha e Sabrina, Aprendiz de Feiticeira, mostrando que Heckerling e sua equipe entendiam perfeitamente como funcionava o setor do entretenimento no final dos anos 1990.

Além de toda essa criação de uma marca, o que converteu As Patricinhas de Beverly Hills em uma obra intergeneracional tão importante foi o fato de ter criado um modelo para protagonistas que eram garotas teens. Heckerling tornara Silverstone parecida com Marilyn Monroe e Goldie Hawn, loiras cujo carisma permitia que os espectadores, homens ou mulheres, atribuíssem a elas o que eles bem quisessem.

Cher curtia atividades movidas a estrógeno como compras e contagem de calorias, sem ter captado ainda que o mundo a enxergaria como superficial (razão do título original, que poderia ser traduzido como “Sem Noção”). No final da história ela fica com o garoto que ama, mas apenas depois de um processo de conscientização maior de quem ela mesma é. O que Cher realmente descobre é que precisa olhar mais além de suas próprias preocupações: precisa valorizar as opiniões e preocupações de outros e se importar com o que acontece à sua volta. Apenas assim é que poderá conhecer a si mesma.

Há traços de Cher – esperta, bem falante, subestimada – em Kat Stratford (Julia Stiles, em 10 coisas que Odeio em Você), Nicole Maris (Melissa Joan Hart, em Fica Comigo), Torrance Shipman (Kirsten Dunst, em Teenagers - As Apimentadas),  Cady Heron (Lindsay Lohan, em Meninas Malvadas) e Olive Penderghast (Emma Stone, em A Mentira). Sem Cher Horowitz, não haveria uma Elle Woods (Reese Witherspoon, em Legalmente Loira).

É verdade que nenhuma delas, com a possível exceção de Elle, se vestem de modo tão singular, razão por que foi o guarda-roupa de Cher, especialmente seus conjuntinhos amarelos axadrezados, que inspirou fantasias de Halloween por gerações.

(É claro que seria possível escrever todo um artigo adicional sobre a brancura de tudo isso. Hollywood não estava criando papéis equivalente para mulheres não brancas, não mesmo.)

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Donald Faison, visto aqui com Alicia Silverstone e Stacey Dash, fez sucesso na TV depois de “As Patricinhas de Beverly Hills” em séries como "Felicity" e "Scrubs".

Nos anos passados desde então, a cultura pop conservou vivo o entusiasmo por As Patricinhas de Beverly Hills. Em 2005 saiu um DVD novo batizado de a “Edição Whatever!”. No mesmo ano, uma professora da Universidade do Oregon acrescentou o filme ao currículo de seu curso de estética de mídia.

O Blu-ray de As Patricinhas de Beverly Hills saiu em 2012, ano que também teve um reencontro do elenco promovido pelo Entertainment Weekly. Iggy Azalea e Charlie XCX recriaram imagens no vídeo de seu single Fancy, que liderou as paradas em 2014, retratando respectivamente Cher e Tai.

As If!: An Oral History of Clueless, de Jen Cheney, foi publicado em 2015. Em 2018 estreou em Los Angeles The Unauthorized Musical Parody of Clueless. Ainda nesse ano, As Patricinhas de Beverly Hills virou um musical da Broadway co-escrito por Heckerling, incorporando Kids in America e outros destaques da trilha sonora original.

Minimizar a importância de As Patricinhas de Beverly Hills já havia virado algo oficialmente não cool. Hoje, o filme está na Netflix, a Blockbuster do século 21, onde foi descoberto pela geração Z.

Em 2019 a CBS TV Studios, outra subsidiária da Viacom, anunciou uma nova versão para a telinha centrada numa versão atualizada de Dionne. Como os direitos pertencem à Paramount, consta que Amy Heckerling teria tomado conhecimento do remake apenas quando foi anunciado para o público.

A notícia incluía um misto tóxico de chavões próprios para divulgação na internet. Segundo a Deadline, a nova versão “é descrita como tendo tom bissexual cor-de-rosa bebê e azul claro, com óculos de sol minúsculos, lattes feitos com leite de aveia – um olhar movido a Adderal sobre o que ocorre quando a rainha do colegial Cher desaparece e seu lugar é tomado por sua eterna número 2, Dionne”.

Talvez a série nos surpreenda quando sair, mas essa sinopse parece não ter entendido por que As Patricinhas de Beverly Hills é tão maravilhoso. Parece uma tentativa desesperada para encontrar relevância. O que é mágico em Patricinhas é que o filme não tentou representar uma era específica.

A gíria, as roupas, a tecnologia foram próprias de seu tempo, é claro, mas sempre de maneiras que continuavam aplicáveis a gerações futuras que talvez vivenciassem o mundo de modo diferente. É isso o que fazem os maiores filmes teen: mostram a universalidade atemporal da adolescência. Qualquer coisa menos que isso não interessa.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.