MULHERES
12/02/2020 13:32 -03 | Atualizado 12/02/2020 14:59 -03

Jornalistas organizam manifesto em apoio a Patricia Campos Mello após acusações em CPMI

A repórter da Folha foi alvo de ataques nas redes sociais após o depoimento de Hans River na CPMI das Fake News.

Após a jornalista Patricia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, ser alvo de ofensas misóginas e insinuações machistas, jornalistas mulheres de diversos veículos organizaram um manifesto em defesa do direito de trabalhar e informar.

“Nós, jornalistas e mulheres de diferentes veículos, repudiamos com veemência este ataque que não é só a Patricia Campos Mello, mas a todas as mulheres e ao nosso direito de trabalhar e informar”, diz texto do manifesto. “Não vamos admitir que se tente calar vozes femininas disseminando mentiras e propagando antigos e odiosos estigmas de cunho machista”, pontua.

A jornalista da Folha foi atacada nas redes sociais após o depoimento de Hans River, ex-funcionário de uma empresa de disparos em massa por WhatsApp, durante a CPMI das Fake News, no Congresso, na última terça-feira (11).

De acordo com o depoimento de River, a jornalista teria insinuado interesse sexual em troca de obter informações sobre a Yacows, empresa especializada em marketing digital, na qual River trabalhou durante a campanha eleitoral de 2018. 

“Quando eu cheguei na Folha de S.Paulo, quando ela [repórter] escutou a negativa, o distrato que eu dei e deixei claro que não fazia parte do meu interesse, a pessoa querer um determinado tipo de matéria a troco de sexo, que não era a minha intenção, que a minha intenção era ser ouvido a respeito do meu livro, entendeu?”, afirmou o depoente no Congresso.

A acusação de River foi endossada pela fala do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) ainda durante a CPMI, e reforçada nas redes sociais bolsonaristas.

“Então, só para destacar esse ponto, eu fiquei aqui perplexo de ver, mas eu não duvido, que a senhora Patrícia Campos Mello, jornalista da Folha, possa ter se insinuado sexualmente, como disse o senhor Hans, em troca de informações para tentar prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro”, declarou Eduardo Bolsonaro.

O jornal Folha de S. Paulo reagiu imediatamente às ofensas contra a jornalista.

Em seguida, Mello compartilhou a reportagem em que expõe áudios, documentos e prints screens das conversas que teve com a fonte durante a realização da apuração de sua matéria.

As reproduções das mensagens deixam claro que Hans mentiu ao dizer que não encaminhou documentos para o jornal. Também mostram uma conversa em que Hans convida a repórter para ir a um show, e ela não responde. 

“A repórter nunca se insinuou para Hans. Desde o primeiro contato, ela afirmou que fazia uma reportagem sobre o processo trabalhista. Conforme mostra reprodução da conversa, parte dele o convite para assistirem a um show. A repórter não responde e não vai ao show”, diz o texto do jornal.

O discurso de Hans River provocou indignação de outras jornalistas e mulheres de diferentes veículos, que saíram em defesa da profissional.

Em um abaixo-assinado compartilhado nas redes sociais em apoio à Patricia Campos Mello, as jornalistas afirmam que ”é inaceitável que essas mentiras ganhem espaço em uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que tem justamente como escopo investigar o uso das redes sociais e dos serviços de mensagens como Whatsapp para disseminar fake news.”

De acordo com a nota, o direito da jornalista de trabalhar e informar não pode sofrer tentativas de silêncio por parte de ofensas machistas.

No Twitter, Patricia Campos Mello recebeu apoio de suas colegas.

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) também repudiou a ação do deputado Eduardo Bolsonaro.

De acordo com a Associação, o parlamentar repercutiu para milhões de seguidores alegações difamatórias.

″É assustador que um agente público use seu canal de comunicação para atacar jornalistas cujas reportagens trazem informações que o desagradam, sobretudo apelando ao machismo e à misoginia. Além disso, esta é mais uma ocasião em que integrantes da família Bolsonaro, em lugar de oferecer explicações à sociedade, tentam desacreditar o trabalho da imprensa”, diz a nota. 

As acusações contra a reportagem da Folha 

Patricia Campos Mello é jornalista premiada e uma das autoras da reportagem da Folha que, baseada em documentos da Justiça do Trabalho e em relatos de Hans River, expos uma rede de empresas, incluindo a Yacows, que fizeram o uso de nomes e CPFs fraudulentos para registrar chips de celulares e realizar o disparo de lotes de mensagens no WhatsApp durante a campanha eleitoral.

A reportagem foi publicada em dezembro de 2018. De acordo com o jornal, o contato de Patricia Campos Mello e Hans River aconteceu no mês de novembro daquele ano. 

Em uma primeira troca de mensagens, Mello deixa claro que está escrevendo uma reportagem sobre empresas de marketing digital. Hans aceita colaborar com a matéria e responde as perguntas da jornalista.

Dias depois, no entanto, o ex-funcionário desiste da colaboração e pede para que a jornalista retire todas as informações da matéria.

A decisão de Hans se deu após ele fazer um acordo com a antiga empregadora, informação que está registrada no processo da Justiça do Trabalho, documento público ao qual o jornal teve acesso.

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