MULHERES
16/11/2019 03:00 -03

Não incentivamos ninguém a fazer tratamento sem anestesia. Por que na hora do parto isso é diferente?

Eu optei por um parto sem anestesia, mas não deveríamos demonizar as mulheres que fazem a opção contrária.

David Aaron Troy via Getty Images
"Dizer a mulheres que elas “fracassaram” se elas se rendem e pedem gás analgésico ou ainda uma anestesia peridural completa não ajuda ninguém."

O número de mulheres que usam anestesia quando dão à luz caiu muito nos últimos anos, segundo novas cifras do NHS, o Serviço Nacional de Saúde britânico.

Em 2018 e 2019, 70 mil mulheres menos recorreram a drogas como gás para aliviar a dor do parto, petidina ou anestesia epidural do que foi o caso em 2008 e 2009 – uma redução de 6%.

A queda levou o British Pregnancy Advice Service (Serviço Britânico de Recomendações na Gravidez) a destacar que esse declínio não deve ser interpretado como “algo a ser festejado”. Para Clare Murphy, diretora de questões externas da entidade beneficente, é preciso avaliar melhor os fatores responsáveis por essa mudança.

Murphy disse que muitas mulheres acham que “fracassaram” se precisaram de anestesia no parto. Eu entendo exatamente o que elas querem dizer. Minha decisão de tentar dar à luz a minha primeira filha sem anestesia virou uma narrativa de resiliência pessoal e cautelosa.

Quando eu estava grávida de minha filha, que tem 7 anos hoje, fiz como muitos pais e mães – me inscrevi na filial local da NCT (National Childbirth Trust, ou Fundação Nacional do Parto). Eu não sabia nada sobre parto; nunca tinha ouvido falar em petidina, pensei que o gás usado no parto devia ser um pouco como hélio e nunca segurara um recém-nascido nos braços.

Achei a ideia de um parto na água intrigante, mas tive medo de que o bebê pudesse se afogar se estivesse debaixo d’água (spoiler: isso não acontece). E presumi inequivocamente que eu aceitaria qualquer tipo de anestésico que me fosse oferecido. Isso até o momento em que me procurei a NCT. Nos encontros semanais promovidos pela entidade, ao longo de seis semanas, meu marido e eu aprendemos sobre amamentação, troca de fraldas e os prós e contras do uso de anestesia no parto.

O interessante é que dos seis outros casais grávidos com quem fizemos o curso, cinco optaram por um parto dito “natural”, se possível – ou seja, um parto sem indução, drogas, epidural, fórceps, ventosa, episiotomia ou cesárea.

Depois de fazer o curso pré-natal, também eu fiquei com muita vontade de ter um parto “natural” – uma ideia que parece um pouco maluca, já que hoje sei como o parto pode ser doloroso. Afinal, não incentivaríamos ninguém a fazer um tratamento de canal “natural” ou uma artoplastia “natural” do quadril. Por que seria tão diferente no caso do parto?

“E eu era teimosa. Não queria ‘fracassar’ no parto. Queria ‘vencer’.”

Desde então eu conversei com a NCT. A organização diz que seu objetivo é que as mulheres se sintam empoderadas para “tomar suas próprias decisões informadas sobre sua experiência de assistência e parto” e insiste que as futuras mamães “não devem nunca sentir-se pressionadas a dar à luz de determinada maneira, nem ser julgadas por suas decisões”.

Mas dar à luz sem anestesia virou uma questão importantíssima para mim. Eu queria ver quanta dor eu conseguiria resistir. Estava curiosa para ver até onde meu corpo suportaria. E eu era teimosa. Não queria “fracassar” no parto. Queria “vencer”.

Ridículo, não? Porque é uma questão totalmente aleatória – e eu tive sorte. Meu parto foi rápido e relativamente pouco doloroso. Não cheguei ao ponto em que senti que eu precisava de ajuda extra, então não recebi essa ajuda. Mas, e se não tivesse tudo ido tão bem? Não tenho dúvida de que nesse caso eu teria pedido anestesia aos gritos. E com muito orgulho.

Nascer no Brasil

O número de cesáreas no Brasil é muito superior ao de outros países. De acordo com dados de 2016 do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos, as cesáreas são 55,6% do total de nascidos vivos no País. Só perde para a República Dominicana, onde o índice é de 56%.

No cenário brasileiro, os partos cesarianos na rede privada chegam a 84%, mais do que o dobro dos 40% registrados no SUS (Sistema Único de Saúde).

A recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) é no sentido de reduzir esse número. Estudos da organização apontam que a cesárea pode causar mortes e sequelas permanentes, especialmente se feita fora das condições adequadas.

Já ouvi muitas histórias de terror sobre parto; já vi os rostos assustados de minhas melhores amigas. As ouvi relatar como foram levadas ao hospital às pressas para fazer cesáreas de emergência ou contar que passaram 36 horas em um trabalho de partido sofrido e extenuante. Já vi as cicatrizes delas, tanto físicas quanto emocionais.

E é por conta de partos traumáticos como esses que sou contra as pessoas que promovem a ideia de um parto “natural” idílico e tranquilo. Entrar em trabalho de parto ainda é assustador e imprevisível, mesmo quando o parto é de baixo risco e transcorre sem problemas.

Dizer a mulheres que elas “fracassaram” se elas se rendem e pedem gás analgésico ou ainda uma anestesia peridural completa não ajuda ninguém. Especialmente não as mães.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.