MULHERES
30/03/2020 03:00 -03

'Estou grávida de 8 meses durante pandemia do coronavírus. E isso me dá medo'

“Tento não pensar num trabalho de parto solitário, sem poder receber visitas, esperando que um médico tenha tempo livre para me ajudar.”

nelic via Getty Images
“As incertezas relacionadas à pandemia são um fardo enorme e se somam às incertezas da gravidez.”

Chego à sala onde vou dar aula para 20 calouros de uma universidade suburbana nos arredores de Boston. Um aluno tosse, depois outro. Alguém espirra. A sala fica em silêncio por um momento, enquanto nos perguntamos coletivamente se esse seria o espirro que espalharia o covid-19, a doença causada pelo coronavírus, por toda a sala, como um incêndio fora de controle. Considerei pegar meu último frasquinho de álcool-gel pela terceira vez naquela hora.

Normalmente, fungadas e tosse ocasional são comuns entre universitários que não querem ser penalizados por perder muitas aulas. Mas, naquele dia, estávamos esperando para saber se a universidade seria fechada até o fim do semestre, com aulas via internet, para que pudéssemos praticar o distanciamento social, conforme recomendado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Estou grávida de oito meses e meio.

Como a maioria dos pais sabe, o nascimento do primeiro filho é uma ocasião épica e importante na vida de qualquer adulto. Comprei livros sobre as fases da gravidez, como ter um parto calmo, estimulante e até hipnotizante. Visitei a maternidade, fiz cursos online e conversei sobre possíveis planos para o parto com meu parceiro e com meu médico.

Tínhamos acabado de decidir pelo clampeamento tardio do cordão umbilical quando surgiram as notícias sobre o coronavírus se espalhando na nossa cidade. Confirmou-se o primeiro caso, depois um segundo. Aí, uma conferência realizada em um hotel de Boston criou um efeito cascata e disseminou o vírus por toda a comunidade. Álcool gel e papel higiênico desapareceram das prateleiras, as escolas foram fechadas, e trabalhadores não-essenciais foram obrigados a ficar em casa.

Agora, a pilha de roupas de bebê que ganhei no chá de bebê está numa pilha, e os livros sobre gravidez estão embaixo da mesinha de centro. Fiquei de pijama boa parte do meu primeiro dia de teletrabalho, lendo obsessivamente os sites de notícias em busca dos detalhes mais terríveis pudesse encontrar sobre a pandemia. Não é o material típico das meditações e mantras para reduzir o estresse e me preparar para o parto que eu imaginava que fosse me ocupar nas últimas seis semanas de gestação.

Fiquei de pijama boa parte do meu primeiro dia de home office, lendo obsessivamente os sites de notícias em busca dos detalhes mais terríveis pudesse encontrar sobre a pandemia.

A cereja do bolo é que eu também estou prestes a lançar meu primeiro livro. Meu romance de estreia, “The Way You Burn”, será lançado em 14 de abril ― mesmo que as leituras públicas, as conferências e as turnês de lançamento tenham sido canceladas. Pelo menos tenho algum tipo de certeza em relação a este prazo. Mas escolher a decoração do quarto do bebê agora parece quase tão irrelevante agora quanto as perguntas sobre os ajustes que teria de fazer no meu website em preparação para o lançamento do livro.

Me pergunto de devo ir à academia, porque li sobre a importância de continuar com as atividades físicas durante a gravidez ― mas será que os aparelhos estarão contaminados? Penso em passar o tempo pesquisando lançamentos de livros feitos pela internet, mas prefiro atacar o resto de bolo da geladeira. Considero ir ao supermercado para estocar enlatados, mas leio nas redes sociais que as filas vão até o lado de fora e as prateleiras estão vazias. Além disso, o que realmente quero fazer agora é tirar uma soneca. 

Meu médico diz que eu não devo me preocupar. Os CDC afirmam que, embora não haja muitas informações sobre como o coronavírus afeta mulheres grávidas e recém-nascidos, não há exemplos suficientes para indicar que minha população de mulheres barrigudas e seus futuros filhos corram riscos maiores de complicações, ― como é o caso da gripe. Mas não tenho certeza se isso serve para acalmar a ansiedade causada pela palavra pandemia.

As incertezas relacionadas à pandemia são um fardo enorme e se somam às incertezas da gravidez. Vão faltar médicos e enfermeiros saudáveis nos hospitais daqui seis semanas? Será que vou entrar em trabalho de parto mais cedo ou o bebê chegará tarde? Será que dezenas de milhares acabarão morrendo por causa de doenças respiratórias durante o próximo mês ou as precauções de quarentena vão “achatar a curva”? Meu parto será normal ou terei de fazer cesariana?

Li que na China as mulheres grávidas foram forçadas a cancelar seus exames regulares antes do nascimento porque a equipe e os recursos do hospital foram realocados para pacientes com coronavírus. Neste momento, não está claro se a situação nos Estados Unidos terá as mesmas proporções de Wuhan ou da Itália nas próximas semanas ou meses. Mas quem precisa de intervenções médicas regulares, enfrenta emergências inesperadas ou se prepara para dar à luz carregando o fardo do desconhecido quando se trata do risco da disseminação do vírus em hospitais e da falta de leitos para os pacientes que não têm o vírus.

Tento não pensar num trabalho de parto solitário, sem poder receber visitas, esperando que um médico – que pode não ter os equipamentos de segurança necessários ― tenha tempo livre para me ajudar. Ou talvez nem seja num quarto privado, mas num corredor. É aí que eu paro. Os hospitais já não têm máscaras suficientes para os seus funcionários porque as pessoas estão estocando esse tipo de material em casa. Mas já aprendi que sofrer pensando na pior das hipóteses não serve para nada.

Embora essa seja a primeira pandemia de coronavírus enfrentada pela minha geração e pela dos meus pais, me pergunto se meu filho crescerá em um mundo em que novos vírus se tornarão mais comuns, à medida que aumenta a interconectividade global. Imagino dedos gordinhos de crianças voando sobre iPads e teclados, à medida que o ensino à distância se torna a regra, e as redes sociais são um dos únicos meios seguros para fazer parte de uma comunidade sem o risco de infecção.

Embora essa seja a primeira pandemia enfrentada pela minha geração e pela dos meus pais, me pergunto se meu filho crescerá em um mundo em que isso se tornará comum.

Por enquanto, a técnica de esperar para ver – além de lavar as mãos vigorosamente ― parece ser a única opção para se render a circunstâncias pessoais e globais nunca antes vividas. A ideia de me jogar com confiança em direção ao futuro, com os braços abertos e os olhos fechados, traz consigo uma forte sensação de terror ― e, no entanto, de outras maneiras, um pouco de alívio. 

Christine Meade é escritora, editora e educadora. Ela tem Mestrado em Escrita Criativa pelo California College of the Arts. Christine mora em de Boston. Seu romance de estréia, “The Way You Burn”, será publicado pela She Writes Press em abril de 2020. Para saber mais sobre a vida e o trabalho de Christine Meade, visite seu site, christine-meade.com.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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