OPINIÃO
09/02/2020 02:00 -03 | Atualizado 10/02/2020 01:34 -03

Por que 'Parasita' tem que ganhar o Oscar de Melhor Filme em 2020

Filme sul-coreano entra para a História como o primeiro não falado em inglês a conquistar a estatueta mais desejada do cinema.

É claro que há grandes filmes concorrendo à principal estatueta do Oscar em 2020, como O Irlandês, História de um Casamento e Era uma vez em... Hollywood, e que o grande favorito ainda é 1917, mas entre os 9 candidatos ao prêmio de Melhor Filme em 2020, nenhum merece mais que Parasita.

Mas, por quê?

Antes da cerimônia de entrega do Oscar, que será realizada neste domingo (9) no Teatro Dolby, no coração de Hollywood, em Los Angeles, enumeramos para você os principais motivos para a vitória de Parasita.

Atualização: Parasita venceu 4 prêmios em no Oscar 2020: Melhor Filme, Melhor Diretor, para Bong Joon-ho, Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original.

Veja aqui:

Campeão em Cannes

CHRISTOPHE SIMON via Getty Images
O cineasta Bong Joon-ho recebe a Palma de Ouro das mãos da atriz francesa Catherine Deneuve.

O Oscar é, sim, a premiação mais famosa do cinema, mas nenhum outro festival de cinema tem mais prestígio que Cannes. E na edição de 2019, que aconteceu em maio no balneário francês, o filme que levou a Palma de Ouro, o principal prêmio do evento, foi Parasita.

E olha que o ano era dos mais fortes! Só para se ter uma ideia do alto nível da competição no ano passado, filmes como os franceses Os Miseráveis e Retrato de uma Jovem em Chamas, o brasileiro Bacurau, o senegalês Atlantique e o espanhol Dor e Glória foram alguns dos vencedores de outras categorias da competição principal do festival.

Já passou da hora de um filme “estrangeiro” ganhar

Kevin Winter via Getty Images
Bong Joon-ho dá uma alfinetada nos americanos ao vencer o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro.

Se Parasita vencer o Oscar de Melhor Filme, será a primeira vez em 92 anos do prêmio que um filme falado em uma língua que não o inglês conseguirá tal feito. E já está mais do que na hora de isso acontecer. Ou o cinema mundial se resume a filmes falados em inglês?

O próprio diretor Bong Joon-ho deu um recado ao ganhar outro prêmio de peso, o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, no início de janeiro: “Uma vez superada a barreira das legendas, vocês conhecerão muitos filmes incríveis”.

Um filme em total sintonia com seu tempo

Divulgação
A atriz So-dam Park na famosa sequência da descida das escadas na chuva.

O planeta está em conflito. Um conflito de classes tão evidente no mundo atual que é pano de fundo para histórias de filmes das mais diversas nacionalidades que se destacaram em 2020, como Bacurau, Os Miseráveis, os americanos Nós e Coringa e o israelense Synonymes (vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim), por exemplo.  

Mas nenhum deles conseguiu passar essa mensagem de forma tão eficiente ao mesmo tempo que entretém o público quanto Parasita. Um filme que é igualmente sutil e violento como um soco no estômago. Te faz rir, chorar, ter medo e diverte ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão profunda sobre um mundo de sonhos reservados apenas a uma pequena elite, que assiste de camarote ao povo se estapeando por algo que nunca terá acesso.

Uma história universal

Divulgação
Todo o elenco de Parasita em foto promocional do filme.

Mesmo se passando na Coreia do Sul em meio a uma cultura tão diferente da ocidental em tantas coisas, a história de Parasita é tão universal que o filme foi um sucesso de bilheteria em países onde o cinema coreano nunca teve muita força, como no Brasil e nos Estados Unidos, por exemplo.

Peguemos o Brasil, por exemplo. A família Kim e seus “jeitinhos” para sobreviver são tão brasileiros, não? Parece que conhecemos diversas pessoas que poderiam fazer parte dessa família. Assim como as atitudes da rica família Park. Vendo por esse prisma, a trama de Parasita poderia muito bem ser usada em uma novela brasileira.

Bong Joon-ho nos dá uma aula de ritmo

Divulgação
"Parasita": Da comédia pastelão à tragédia sanguinolenta em questão de minutos.

Uma característica do cinema de Bong Joon-ho é a mistura de gêneros em uma mesma trama. À primeira vista, Parasita pode soar como uma comédia, mas ao longo de suas pouco mais de duas horas de duração, vai ganhando elementos de drama, suspense e até de terror, culminando com um clímax trágico dos mais tocantes. O segredo para que isso dê certo tem um nome: ritmo.

O cineasta coreano é um mestre do ritmo. Ele pensa cada cena se conectando a outra em uma narrativa tão fluida e em harmonia entre diálogos, música e imagens que seu filme pode mudar de humor (no sentido de tom) diversas vezes sem que o espectador se dê conta, ajudando-o a nunca se perder na história, por mais complexa que ela seja.

A força de um elenco que fez história

Xinhua News Agency via Getty Images
Atores de "Parasita" ganharam um inédito prêmio de Melhor Elenco no SAG Awards, prêmio do sindicato dos atores de Hollywood.

Considerada uma das mais importantes prévias do Oscar (principalmente nas categorias de atores), o SAG, premiação do sindicato dos atores de Hollywood deu, no dia 20 de janeiro, sua principal estatueta, a de Melhor Elenco, para Parasita. Um feito histórico, já que, novamente, nunca um filme não falado em inglês havia conquistado esse prêmio. Um feito mais do que merecido.

Kang-ho Song, ator muito famoso na Coreia do Sul e antigo colaborador de Bong Joon-ho, chegou até a ser cotado para concorrer ao Oscar de Melhor Ator. Porém, infelizmente não entrou na lista final.

Um prêmio para o crescimento do cinema coreano

Divulgação
Parasita foi filme estrangeiro com a maior bilheteria de 2019 nos Estados Unidos e faturou no mundo todo mais de US$ 100 milhões.

Desde o início dos anos 2000, o cinema coreano vem conquistando cada vez mais espaço e reconhecimento fora do país. No mercado interno as maiores bilheterias geralmente são de filmes nacionais batendo grande blockbusters americanos.

De 2004 até 2019, filmes americanos só chegaram ao topo da bilheteria por lá cinco vezes, com: Uma Noite no Museu (2006), A Bússola de Ouro (2007), Avatar (2009), Missão Impossível - Protocolo Fantasma (2011) e Bumblebee (2018).

Em 2003, um filme do próprio Bong Joon-ho ajudou muito à visibilidade do cinema coreano no ocidente, Memórias de um Assassino, que deu o que falar em Cannes daquele ano. Aliás, o mesmo festival deu o Grand Prix (o segundo prêmio mais importante do evento) para Old Boy, de Park Chan-wook no ano seguinte. 

De lá para cá, o cinema coreano cresceu ainda mais, apesar de preso a um circuito mais alternativo, com exceção de Old Boy. Porém Parasita está quebrando essa barreira e, se ganhar o Oscar de Melhor Filme, tem tudo para destruir esse muro.