OPINIÃO
07/11/2019 03:00 -03 | Atualizado 07/11/2019 06:55 -03

'Parasita': Entre a comédia e a tragédia da luta de classes

Um dos melhores filmes da década, 7º longa de Bong Joon-ho mostra que o mundo todo está mergulhado na merda.

Se você tiver que escolher apenas um filme para ver em 2019, Parasita é uma bela opção. Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes e grande favorito para abocanhar o Oscar de Melhor Filme Internacional (novo nome da categoria Filme Estrangeiro), a produção coreana consegue o feito de traduzir o atual estado do mundo quebrando qualquer barreira cultural.

Sétimo longa da carreira de Bong Joon-Ho (O Hospedeiro, Expresso do Amanhã, Okja), Parasita, que estreia no Brasil nesta quinta (7), é, ao mesmo tempo, um filme típico do diretor coreano e uma evolução de temas presentes em toda a sua filmografia. 

A característica que é mais familiar aos fãs do cineasta é a mistura de gêneros em uma mesma trama. À primeira vista, Parasita pode soar como uma comédia, mas ao longo de suas pouco mais de duas horas de duração, vai ganhando elementos de drama, suspense e até de terror, culminando em um clímax trágico dos mais tocantes.

Divulgação
Os Kim e os Park no eterno embate entre os que querem e os que podem.

Porém, essa fórmula que parece ignorar barreiras de gênero ganha aqui uma concisão ainda não vista nos filmes anteriores de Bong, por mais que eles sejam ótimos. Essas nuances narrativas têm apenas uma fonte em comum, por isso convergem com tanta naturalidade na trama sem nunca “confundir” o espectador. Parasita trata do abismo social coreano. Um abismo que pode ser também o brasileiro, o chileno, o americano, o chinês...

O planeta está em conflito. Um conflito de classes tão evidente no mundo atual que é pano de fundo para histórias de filmes das mais diversas nacionalidades que se destacaram no ano, como o brasileiro Bacurau, os americanos Nós e Coringa e o israelense Synonymes (vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim), por exemplo.  

A trama foca em duas famílias. Os Kim estão todos desempregados. Eles vivem em um apartamento minúsculo abaixo do nível da rua em um bairro pobre de Seul. Entre um bico aqui e outro ali, eles vão levando a vida dando “jeitinhos”, como roubar o sinal de wi-fi dos vizinhos. Mas a sorte deles pode mudar quando o jovem Kim Ki-woo (Woo-sik Choi) tem a chance de dar aulas particulares de inglês para uma adolescente de uma família rica, os Park.

Ki-woo logo ganha a confiança da Sra. Park (Yeo-jeong Jo) e, maravilhado com a “boa vida” de sus empregadores, passa a “infiltrar” toda a sua família no luxuoso lar dos Park. Sua irmã Ki-jung (So-dam Park) como professora de artes do filho mais novo dos Park, seu pai Ki-taek (Kang-ho Song) como motorista e sua mãe Moon-gwang (Jeong-eun Lee) como governanta. A relação “parasitária” vai de vento em popa até a descoberta de um segredo que vai deixar muito claro que aquele mundo não lhes pertence.

Aqui, o já reconhecido refinamento visual de Bong se reflete também na narrativa, que em muitos momentos não precisa se utilizar da linguagem para explicar o que está acontecendo na tela e, principalmente, o que os personagens estão pensando. Bons exemplos disso são a espetacular sequência da “descida ao inferno” da família Kim durante um temporal e o elemento do cheiro como característica inerente da divisão de classes. Um mergulho quase literal na merda.

Parasita é inteligente em todas as suas escolhas. Consegue ser extremamente sutil e violento como um soco no estômago. Te faz rir, chorar, ter medo e diverte ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão profunda sobre um mundo de sonhos reservados apenas a uma pequena elite, que assiste de camarote o povo se estapeando por algo que nunca terá acesso.

É, definitivamente, um dos melhores filmes do ano. Aliás, da década.