LGBT
14/06/2020 07:00 -03 | Atualizado 14/06/2020 07:00 -03

Como LGBTs reinventam a celebração do orgulho mesmo sem a Parada na rua

No contexto da pandemia do novo coronavírus, "ocupação virtual" substitui a maior Parada LGBT do mundo realizada nas ruas de São Paulo.

“Assim como muitos, eu sinto falta da Parada LGBT este ano.” É assim que começa uma história em quadrinho que viralizou nas redes sociais. Desenhada pelo designer Felipe Sesoko, a mensagem é sobre invisibilidade mas também sobre a importância de comemorar o orgulho de ser LGBT em tempos de distanciamento social, em meio à pandemia do novo coronavírus.

Em 5 imagens, Sesoko conta como se sente quando vê jovens que vão até o evento todos os anos mas, ao voltar para casa, guardam adereços, se escondem e mentem sobre frequentar a Parada. “Eu vivi isso na pele por alguns anos. Fiz o quadrinho com a intenção de levantar esse diálogo: pensei neste momento de pandemia, em que as pessoas estão isoladas em casa com suas famílias muitas vezes sem poder se expressar e em como a Parada é esse momento, né? E pensei: ‘este é o meu desabafo’”, conta.

Veja página especial do HuffPost Brasil: ‘Orgulho Reinventado’

Neste ano, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo - considerada o maior evento do gênero no mundo - não ocupará as ruas da Avenida Paulista, como tradicionalmente ocorre todos os anos durante um domingo do mês de junho. Pela primeira vez, a festa que leva mais de 3 milhões de pessoas às ruas anualmente terá uma versão online que pode ser acompanhada de dentro de casa.

Com a iniciativa, realizada neste domingo (14), a Parada de São Paulo se junta a outras organizações pelo mundo que, mesmo diante da epidemia de covid-19, seguem tentando reinventar as celebrações do orgulho de ser LGBT.

“Querendo ou não, a Parada é o maior ato político LGBT não só do Brasil, mas do mundo. No mês de junho a gente coloca as cores nas ruas. Eu acho que é válida a intenção da Parada online. Neste momento a gente precisa ter alguma forma de falar sobre isso, sobre representatividade”, diz Felipe Sesoko.

Ele conta que, nos anos anteriores à Parada, tinha o costume de se preparar um mês antes. Compartilhar com amigos. Pensar e elaborar figurino. Se “montar”, no jargão drag. “Além da ocupação do espaço público, esse é o momento em que todo mundo da comunidade se junta com seus amigos para se montar, celebrar. É glitter para todo lado [risos], bandeira amarrada para todo lado. Estar longe da celebração e do que vem antes dela é bem complicado.”

Sesoko, que está trabalhando de home-office há 3 meses, diz que encontrou na arte uma forma de levantar discussões e celebrar o orgulho de ser quem é. “A tirinha foi a primeira manifestação que eu pretendo fazer durante o mês inteiro”, conta o designer, que também trabalha com arte drag. “Eu penso em incentivar que as pessoas busquem expressão, deixem a casa toda colorida etc.”

“Além da Parada, eu vi uma série de outros eventos acontecendo online e outros espaços fazendo essa discussão sobre diversidade, no contexto das manifestações que estamos vendo acontecer nos Estados Unidos”, diz. “A gente está fazendo o máximo possível para manter isso [aqui], e também estamos abrindo mão dessa festa por uma questão de saúde pública, de sobrevivência.”

Os eventos citados por Sesoko ganharam as redes sociais, para além da Parada LGBT. O HuffPost Brasil selecionou alguns eventos e criou um calendário para você acompanhar à distância em junho. Durante o mês de junho, ele será atualizado com novos eventos à medida que forem anunciados. 

Organização responsável pela organização da Parada LGBT, a APOGLBT, afirma que “todos são conscientes sobre as restrições que vivemos, a mobilidade urbana, o confinamento social”, e estes fatores não poderiam deixar “a data de celebrar nosso Orgulho” passar em branco.

Por isso, a Parada online será transmitida simultaneamente durante 8 horas em 12 canais no YouTube, a partir das 14h (horário de Brasília). Tantos os convidados, quanto os apresentadores vão interagir remotamente, cada um de sua casa, respeitando o isolamento social.

Fih e Edu, do canal Diva Depressão, serão hosts do evento, juntamente com os youtubers Lorelay Fox, Mandy Candy, Jean Luca, Nátaly Neri, Louie Ponto, Spartakus Santiago, e Herbertt e Fernanda, do Canal das Bee. 

Durante a live, os apresentadores receberão virtualmente convidados para debater direitos sociais, preconceito e diversidade. O tradicionais shows da Parada estarão representados por Glória Groove, Ellen Oléria, Liniker e Daniela Mercury. Já Pabllo Vittar, Ivete Sangalo e nomes internacionais como Katy Perry e Mel C vão enviar depoimentos que serão transmitidos na live.

Coronavírus impôs novas formas de celebrar o orgulho

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A maior Parada LGBT do mundo acontecerá apenas virtualmente em 2020.

A APOGLBT afirma que esta também é uma oportunidade de coletar doações para o projeto “Rede Parada Pela Solidariedade” que, no atual momento, tem apoiado uma parcela da população LGBT em situação de vulnerabilidade ao fazer mutirões de distribuição de marmitas e kits de higiene pessoal.

“Nosso objetivo [com o evento] é ajudar e dar visibilidade para a comunidade LGBT como parte da estratégia da ONG de manter as pessoas seguras em suas casas e conectadas com o movimento”, diz comunicado da ONG.

Além do evento, São Paulo vai receber uma instalação de luzes da artista porto-riquenha Yvette Mattern. As cores do arco-íris, que simboliza o movimento LGBT, vão iluminar toda a extensão da Avenida Paulista entre 19h e 22h, para marcar o dia em que a Parada e milhares de pessoas estariam nas ruas.

Batizada de Global Rainbow, a performance idealizada por Mattern já foi exibida em outros países e esta será a primeira vez no Brasil. Em 2020, a artista já apresentou em festivais e em outras ações do orgulho LGBT.

ASSOCIATED PRESS
Imagem de quando o 'Global Rainbow' foi projetado no céu da Scrabo Tower, em Newtownards, na Irlanda do Norte, em 2012.

“Eu sempre vou. Desde que eu tenho autonomia pra sair sozinha na rua eu vou à Parada”, conta a ativista e mulher trans Gabriela Augusto. Ela pretende acompanhar a Parada online, sabe que não será a mesma coisa mas, assim como Sesoko, reconhece que é uma forma de gerar visibilidade da comunidade a que pertence.

“Eu acho que são várias formas possíveis de celebrar o orgulho. A Parada LGBT é uma delas, é uma das mais importantes e simbólicas, das que unem mais as pessoas aqui no Brasil, mas há outras maneiras”, diz Gabriela.

Ela conta que, no início da pandemia, ficou apreensiva porque pensou que o tema da diversidade, da inclusão e do orgulho LGBT, em especial, em junho, seria engolido pelo noticiário político e de saúde, com foco na covid-19.

“Eu tenho me surpreendido positivamente com o movimento de pessoas que querem organizar algo para celebrar o orgulho de alguma forma”, conta. “Eu não sei se é reflexo desse momento que a gente vive agora de solidão, incerteza. Mas, no fim das contas, tenho me sentido animada”, diz. 

Ela acredita que a internet é aliada, mas pondera que “não é só de live que a gente vive”. Gabriela, que trabalha com empregabilidade trans, afirma que uma das formas que encontrou de celebrar foi produzir artigos sobre a questão LGBT. Recentemente, ela publicou um texto “6 coisas que a sua empresa pode fazer no mês do orgulho de forma remota e com pouco orçamento” em uma rede social voltada para relacionamentos profissionais.

“A experiência de agora é traduzir o que a gente fazia presencialmente, para o online, né? Eu pretendo acompanhar a Parada, eu estou em casa com a minha esposa fazendo home-office e tenho trabalhado muito mais este mês. Isso foi muito surpreendente”, conta. “Eu tenho produzido muito conteúdo. É uma forma de dizer que a gente tem que ir além da Parada, né? E eu me sinto bem fazendo isso neste momento.”

‘Nossa felicidade é uma forma de resistência também’

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“Eu enxergo a Parada como um movimento muito bonito e importante", diz Demétrio Abrahão, ator e LGBT, frequentador da Parada.

Ano passado, as revoltas de Stonewall - que deram pontapé para manifestações LGBTs em todo o mundo - completaram 50 anos e consagraram a Parada de 2019 como uma celebração dos movimentos por reivindicação de direitos.

Também em 2019, o evento ocorreu sob o governo Bolsonaro pela primeira vez e, por isso, a expectativa sobre como os participantes se posicionariam em relação ao presidente, conhecido por histórico de declarações homofóbicas, era grande. 

Mas a maioria dos participantes, e na maior parte do percurso da Parada, preferiu não fazer de Bolsonaro o centro do movimento. O recado geral dos LGBT foi claro: o protagonismo é deles, e não há volta para o “armário”.  

“Eu enxergo a Parada como um movimento muito bonito e importante. Mas também acho que ela tem problemas da forma como ela é feita”, diz Demétrio Abrahão, 27, ator que frequenta a Parada há pelo menos 6 anos, ao criticar a proliferação de marcas que patrocinam a festa e ganham protagonismo.

Porém, o ator pondera afirmando que, apesar das críticas, a vê como uma festa que traz a oportunidade de mostrar felicidade. “Pra mim não existe nada mais importante do que mostrar para quem não nos quer vivos que nós não só estamos vivos como estamos muito felizes, né? Tem muita gente que questiona como é que a gente pode ser feliz no país que mais nos mata. A nossa felicidade é uma forma de resistência também”, lembra.

“Neste contexto atual eu tenho sido a pessoa que mais ajuda os outros do que a que pede ajuda [risos]. E eu tenho achado essa ocupação virtual muito importante na quarentena. Mas não tenho uma resposta sobre como vai ser no futuro. Só sei que estou apoiando o que estou vendo acontecer. Acho muito importante festivais como o Marsha! [festival online feito por pessoas trans], e a própria Parada neste domingo”, diz.

Para o evento presencial deste ano, o tema escolhido foi “Democracia”, com o slogan “Sejamos o pesadelo dos que querem roubar nossa Democracia”. Mesmo com a alteração e a realização do evento virtual, a temática se mantém, segundo organizadores.

“Estamos em um momento que exige por parte da sociedade organizada uma ação coletiva. A APOGLBTSP, organizadora da maior manifestação social e por direitos humanos de rua e que luta por igualdade, diversidade, direitos humanos e por democracia no Brasil, vem a público conclamar todas as organizações que têm apreço pelo regime democrático e aos princípios fundamentais a unir forças”, diz texto do manifesto da ONG, sem citar o nome do presidente Jair Bolsonaro, que tem sido alvo de manifestações nas ruas tanto a favor dele como contra, no contexto da pandemia do novo coronavírus.

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Milhares de pessoas participam da Parada do Orgulho LGBT em São Paulo, em 2019.

Segundo levantamento feito pela Secretaria Municipal de Turismo, por meio do Observatório da Secretaria de Turismo, o evento realizado na Avenida Paulista em 2019 reuniu cerca de 3 milhões de pessoas e movimentou R$ 403 milhões. 

Ainda conforme a pesquisa, a Parada registrou aumento de 78% no número de visitantes em relação a 2017, último ano em que o estudo fora realizado. Nesses dois anos, o número de não residentes que participaram do evento na cidade subiu de 24,3% para 43,4%. 

Em 2020, devido à pandemia, os números não vão refletir os efeitos da Parada na economia - ao menos até o momento. Mas a organização responsável pelo evento diz que, por enquanto, a Parada presencial, que foi adiada para o dia 29 novembro, está mantida.

1ª Parada do Orgulho LGBT+ Online

Data: 14 de junho, domingo

Horário: das 14 às 18h

Transmissão oficial: GNT, Dia Estúdio, APOGLBT