LGBT
23/06/2019 01:00 -03 | Atualizado 24/06/2019 16:18 -03

Primeira Parada do Orgulho LGBT no governo Bolsonaro terá atos independentes contra presidente

Organização optou por não politizar o evento, mas grupos preparam manifestações; Expectativa é que cenário político leve mais pessoas à Avenida Paulista neste domingo.

Paulo Whitaker / Reuters
Neste ano, Parada LGBT contará com atos independentes contra o presidente Jair Bolsonaro. 

Pela 23ª vez, a Avenida Paulista, em São Paulo, receberá a Parada do Orgulho LGBT, que chega à edição deste domingo (23) com o título de maior do mundo.

Este ano, no entanto, promete ser diferente. Será a primeira Parada após a posse de Jair Bolsonaro, conhecido por seu histórico recente de declarações homofóbicas e cuja agenda conservadora coloca em risco conquistas e pleitos da comunidade LGBT. 

Os organizadores oficiais do evento optaram por não politizar a Parada, mas são esperadas manifestações, de grupos específicos, contrárias ao presidente. Também há a expectativa de um maior comparecimento - os organizadores estimam em mais de 3 milhões de pessoas.

Para Claudia Regina Garcia, presidente da APOGLBT, organização de voluntários responsável pela organização do evento, a Parada trará “resistência e impacto” para as ruas neste ano. Na sua visão, o tema “50 anos de Stonewall - Nossas conquistas, nosso orgulho de ser LGBTI+” veio a calhar.

“A gente quis colocar esse histórico de luta nas ruas. O tema calhou muito. Com ele, a nossa ideia é mostrar para o LGBT que começou a militar agora que a luta é na rua, com todos juntos, ainda mais nesse contexto atual”, diz.

O tema faz referência à invasão, em 28 de junho de 1969, pela polícia de Nova York, do bar Stonewall Inn, localizado em Manhattan, e conhecido por ser um dos poucos locais que aceitavam a presença de gays, lésbicas, trans e drag queens. A ação desencadeou uma série de protestos e iniciativas que reverberaram no mundo inteiro. Até 1962, ser homossexual era crime nos Estados Unidos.

Nossa ideia é mostrar para o LGBT que começou a militar agora que a luta é na rua, com todos juntos, ainda mais nesse contexto atual.Claudia Regina Garcia, presidente da APOGLBT.

“Nesses 50 anos, LGBTs se acostumaram com o empoderamento e você não tira isso das pessoas. Isso já é nosso”, pontua Garcia. “Eles [governantes] vão entender que ninguém vai voltar para a casa, para o armário, para a senzala. O pessoal vai para a rua e é isso que eu espero: não existe recuar.”

Em seus primeiros meses de governo, Bolsonaro já vetou uma propaganda do Banco do Brasil que exaltava diversidade sexual e racial, afirmou que o Brasil “não pode ser o País do turismo gay” porque “temos famílias” - e tirou este tipo de incentivo do Plano Nacional de Turismo -, e criticou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de equiparar a LGBTfobia ao crime de racismo, alegando que a decisão pode dificultar que a população LGBT consiga um emprego.

Prepare-se! 

 

A Parada se concentrará no vão livre do Masp, na Avenida Paulista, às 10h e o desfile está previsto para acontecer a partir das 12h. Neste ano, o evento contará com 19 trios elétricos e com atrações como a ex-Spice Girl Mel C, e os artistas Iza, Luisa Sonza, Gloria Groove, Aretuza Love, Lexa, Mc Pocahontas, entre outros.

Da Avenida Paulista, os trios da Parada seguirão pela Avenida da Consolação até a região da República, no centro, onde terá um show de encerramento.

Parada terá atos independentes contra Jair Bolsonaro

Ricardo Moraes / Reuters
“Bloco LGBTs contra Bolsonaro” já conta com quase 3 mil pessoas interessadas.

Por mais que a Parada não se posicione diretamente contra o governo ou faça alguma menção específica ao presidente, existirão alguns atos independentes durante o desfile que farão oposição direta a ele. É o caso do “Bloco LGBTs contra Bolsonaro” que já conta com quase 3 mil pessoas interessadas.

“No momento de retirada de direitos, retrocesso e fortalecimento do conservadorismo e do reacionarismo, estamos lutando e não estamos derrotados”, diz manifesto do movimento.

O bloco foi pensado há cerca de dois meses e, até o momento, conta com 24 organizações envolvidas ― desde entidades estudantis, coletivos feministas e LGBTs, até movimentos sem-teto e organizações sindicais.

Matheus Gonçalves, de 23 anos, um dos organizadores, que pertence ao Coletivo LGBT Comunista, afirma que a intenção é “resgatar um potencial de articulação” desta população frente ao governo atual.

O Brasil é hoje um dos países que mais mata LGBTs no mundo, e a postura do atual presidente e de seus seguidores encoraja ainda mais os mais diversos ataques às nossas vidas”, diz Gonçalves. 

Segundo o Atlas da Violência, o número de homicídios de LGBTs denunciados ao Disque 100, órgão oficial do governo para denunciar violações de direitos humanos, subiu de 5 em 2011 para 193 em 2017. Lesões corporais saltaram de 318 em 2016 para 423 em 2017, passando pelo pico de 783 casos em 2012.

“Uma coisa muito importante para nós do ‘bloco’ é que a luta LGBT deve ser feita inclusive por pessoas que não são LGBTs”, diz o manifestante. ”É uma luta de toda a população trabalhadora”, completa, ao destacar que o bloco busca se posicionar também contra as alterações propostas na reforma trabalhista.

“Independentemente do que o governador João Doria e Jair Bolsonaro quiserem, do que as empresas que bancam a festa quiserem, nós não vamos deixar passar em branco a pauta política”, destaca o manifestante.

Claudia Garcia, organizadora da Parada, afirma que atos como este não estão diretamente ligados à organização, que não tem um posicionamento único sobre o atual presidente, mas que “o chão é livre”.  

“Como ano passado teve [manifestações] pela liberdade do Lula e [por] Marielle Franco, neste ano vai ter diretamente contra o Bolsonaro. O chão é livre. Este não é um posicionamento da Parada em si. A gente representa a comunidade inteira, né? Ironicamente, no ano passado, muitos LGBts votaram nele [Bolsonaro] também”, afirma.

Segurança não será reforçada na Parada LGBT

andreaantunes1 via Getty Images
Sem apoio financeiro do poder público, o apoio de empresas privadas é o que faz a Parada LGBT .

Garcia aponta que, por conta do cenário político mais conservador, eram previstos cortes no número de trios, mas isso não ocorreu. Sem apoio financeiro do poder público, o apoio de empresas privadas é fundamental. Burger King, Uber, Amstel e Avon são algumas das marcas que investem na Parada deste ano.

“A gente sentiu que [os patrocinadores] vieram com mais garra”, avalia, ao citar o cenário do atual governo e destacar que, neste ano, a Parada terá um trio a mais ― 19, no total. Segundo Garcia, a marca de fast food Burger King “comprou uma briga” por ser o maior patrocinador do evento neste ano.

A gente sentiu que [os patrocinadores] vieram com mais garra.Claudia Regina Garcia

Outra questão preocupante no atual contexto era a segurança. A Prefeitura de São Paulo afirmou que o efetivo na Parada será o mesmo do ano passado.

Garcia diz não estar “tão” preocupada com possíveis ataques direcionados à população LGBT por grupos conservadores mais radicais. “Até por conta dos escândalos [no governo] que estão acontecendo, muitos estão baixando a bola”, diz.

A Prefeitura afirma que investiu cerca de R$ 1,8 milhão em ações de apoio neste ano ― garantindo banheiros químicos, gradeamento para controlar o fluxo, tendas e efetivo da Guarda Municipal, além de seis trios elétricos – quatro deles para suas próprias organizações, e dois para a APOGLBT.

De acordo com informações da Prefeitura, o efetivo de segurança contará com 60 viaturas e 300 homens da GCM, além de 80 bombeiros civis, 540 seguranças privados e 800 policiais militares. Equipes da delegacia especializada em crimes raciais e delitos de intolerância também estarão em campo durante o evento para registrar possíveis ocorrências.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, a ação da Polícia Militar também incluirá 16 bases comunitárias móveis distribuídas em pontos estratégicos, além de dois helicópteros e equipes de policiais a pé e do Corpo de Bombeiros. 

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