Por que estamos criando cada vez mais etapas para conhecer alguém

Excesso de expectativas, de medos ou de possibilidades?
Juntamente com a liberdade dos relacionamentos, convivemos também cada vez mais com a insegurança.
Juntamente com a liberdade dos relacionamentos, convivemos também cada vez mais com a insegurança.

Você segue alguém no Instagram e quase imediatamente já está sendo seguido de volta. Curte algumas publicações, talvez uma foto antiga. Assiste fielmente aos stories e até reage, esporadicamente, demonstrando algum interesse. Um tempo depois, comenta nas fotos, envia memes e troca mensagens no WhatsApp.

Embala horas de conversas, indica filmes, séries e até restaurantes. Algumas vezes, finge desinteresse para mostrar que não está tão afim assim. Poucas semanas depois desses papos parece que vocês já se conheciam há anos.

Paquerar na internet é poder ousar na criatividade. Apesar disso, é quase impossível que você nunca tenha vivido alguma das etapas um tanto óbvias do flerte-em-tempos-de-likes.

O que parece uma fórmula matemática, no entanto, nem sempre é uma estratégia infalível. Afinal, quantas paqueras ficam somente no ambiente virtual? A verdade é que parece que estamos criando cada vez mais etapas na hora de conhecer - e de nos interessar por - outra pessoa.

″É como se no passado existisse uma função óbvia para os relacionamentos e, com isso, papéis bem definidos em cada relação. Um homem gostava da mulher, se mostrava assertivamente interessado por ela e tentava entrar em uma relação que visava o casamento. Hoje, ainda bem, somos livres e não temos mais que cumprir tanto essas regras”, explica Desirée Cassado, psicóloga, professora e terapeuta da The School of Life em entrevista ao HuffPost Brasil.

Mas juntamente com a liberdade dos relacionamentos, convivemos também cada vez mais com a insegurança. Se por um lado estamos repensando cada vez mais os papeis dos gêneros, a vivência da sexualidade, a forma de se relacionar, não parece surpreendente que hoje temos um milhão de formas de dizer que estamos interessados e, obviamente, questionamos cada vez mais o propósito de cada relação.

Com tudo isso em jogo, parece que fica mais difícil assumir uma relação e entender, entre os envolvidos, qual é a regra ali vigente (e se é necessário ter uma).

Como saber se uma paquera virtual é somente amizade? Ou se pode virar algo a mais? E o que aquela pessoa espera da relação? É só sexo ou pode se tornar um namoro?

“Hoje, homens e mulheres estão tendo cada vez mais escolhas, opções e possibilidades que não envolvem apenas uma relação. As pessoas estão fazendo muitas outras coisas e têm uma rede de contatinhos, liberdade sexual e amorosa para explorar”, analisa Cassado.

Segundo a psicóloga, a sensação de que o processo de paquera, muitas vezes, passa por muitas etapas, na verdade pode ser entendido como uma estratégia para dar sinais aos poucos e, assim, lidar com as inseguranças e vulnerabilidades da vida a dois.

As redes sociais aumentaram muito as expectativas sobre um relacionamento

Pode confessar: quantas vezes você idealizou um relacionamento baseado naquilo que você viu no feed do Instagram? É fato que a gente anda insistindo em padrões que não são reais de relacionamentos. Esquecemos, muitas vezes, que dividir a vida com alguém é ter que lidar com as imperfeições do outro e realmente investir tempo e energia para que aquilo dê certo.

“Em determinados grupos, se relacionar é muito mais sobre atender expectativas. Então eu nego para mim o que eu preciso emocionalmente e afetivamente para poder estar de acordo com o esperado pela outra pessoa”, explica a psicóloga Maria Olímpia Jabur Saikali.

De acordo com a especialista, outra relação contraditória na paquera virtual é entender a intensidade do sentimento do outro. Por lá, uma risada a mais pode significar muita coisa e uma palavra afetuosa colocada em uma frase já é o gatilho para se criar grandes expectativas. O spoiler? Para não cair em ciladas, é essencial não se desconectar do mundo real.

Por isso, se torna ainda mais importante viver experiências fora da rede e não ter medo delas. “No quesito emocional você precisa experimentar e construir histórias. Você pode ser uma pessoa mais imediatista, intensa e voltada para o prazer, mas a emoção, não tem jeito, é preciso vivê-la”, diz a especialista.

O sentimento de vulnerabilidade aparece (e tá tudo bem)

Você também pode não querer admitir, mas no fundo, no fundo, a gente sabe que grande parte da apreensão em se relacionar é resultado do medo que a gente tem de fracassar.

Qualquer fracasso é visto com muita seriedade, como se fosse definir todo o futuro. Mas o interessante é que tudo na nossa vida passa por essa possibilidade e, se eu não estou disposta a fracassar, tenho que abrir mão de coisas muito importantes pra mim”, pontua Desirée Cassado.

A nutricionista Beatriz Cruz diz estar numa fase em que sente preguiça de conhecer pessoas novas para uma possível relação. “Só de pensar já fico nervosa, com vergonha e insegura, em dúvida se a pessoa vai ou não gostar de mim”, conta.

Talvez por essa razão a nutricionista prefere hoje se envolver em relações mais superficiais. “São mais fáceis, não necessariamente tem aquela coisa de compromisso com o outro. Isso não quer dizer que não precise de respeito ou responsabilidade emocional, mas é algo que não me deixa criar esperanças de que pode vir a ser algo sério”, diz.

O segredo quando algum crush simplesmente não dá certo? Fazer as pazes com o fracasso, o ridículo e o constrangimento. Dar risada de si mesmo e colecionar experiências, sejam elas boas ou ruins.

“Não viver situações de medo e constrangimento te faz evitar as situações mais interessantes da sua vida”, alerta a psicóloga. “Você vai empobrecendo suas experiências e possibilidades.”

A vida (não) é como um catálogo da Netflix

Você certamente já passou pela situação de querer assistir a algum programa em um serviço de streaming, mas se perdeu diante das infinitas opções.

Para muita gente, o mesmo tem acontecido na hora de se relacionar, principalmente quando você se vê em meio a um catálogo de perfis em aplicativos.

“É difícil tomar uma decisão quando se tem muitas possibilidades. Existe uma dificuldade muito grande em focar energia em uma única pessoa ou história para conseguir construir um encontro que seja gostoso para todo mundo”, explica Cassado.

Mas nem sempre o excesso de possibilidades realmente significa várias opções de quase-contatinhos. Às vezes, só de ter que escolher entre sair com alguém que você mal conhece ou ficar em casa na paz do seu sofá, a segunda opção já é bem mais tentadora.

Poder remarcar o encontro para outra ocasião, por exemplo, também pode parecer uma oferta irrecusável.

O grande desafio é a gente entender que essa lógica de achar que temos acesso a todo mundo a todo tempo, às vezes, pode estar te induzindo a não fazer realmente nada.