LGBT
29/08/2020 01:00 -03

Como é a minha vida sendo pansexual em um 'casamento heterossexual'

“Muitas pessoas se surpreendem quando ficam sabendo sobre minha sexualidade. Imaginam que o fato de ter marido significa que sou hétero."

Divulgação/Jillian Johnson
A autora deste depoimento e seu marido, Brad, quando ele voltou de viagem temporária de trabalho. Las Vegas, 2018.

Meu marido serve na Força Aérea fazendo a manutenção de aeronaves, e eu sou mãe que cuida dos filhos em casa, estudante universitária e escritora freelancer. Trabalho como voluntária no clube de cônjuges da instalação militar local, na função de presidente do comitê. Temos três filhos lindos (duas meninas e um menino), dois gatos e um cachorro. Moramos num sobrado na base que tem quintal grande e fica no final de uma rua sem saída, bem tranquila. Acenamos para nossos vizinhos quando os vemos na rua e procuramos não fazer muito barulho, para não incomodar ninguém.

Quem nos vê deve imaginar que somos um casal heterossexual totalmente normal e monogâmico. Mas, embora seja verdade que somos monogâmicos (e talvez levemente normais), só um de nós é hétero.

Muitas pessoas se surpreendem quando ficam sabendo que sou pansexual. Não que eu procure esconder minha sexualidade – falo disso abertamente quando o assunto é mencionado numa conversa. Mas as pessoas geralmente supõem que eu seja hétero porque sou uma mulher casada com um homem.

O tópico de minha sexualidade vem à tona com frequência em junho, que é o mês do Orgulho LGBTQ. Falo muito abertamente sobre minha sexualidade nas redes sociais, e também sobre a aceitação da comunidade LGBTQ como um todo. Quando amigos recentes descobrem sobre minha sexualidade, uma de duas coisas acontecem. Ou eles aceitam e continuamos a conversar, ou ficam espantados, porque, como dizem, “afinal, você é casada com um homem”.

Até agora não me aconteceu de alguém dizer “não podemos ser amigos porque você é uma abominação”. É surpreendente, considerando que vivemos no Sul profundo dos Estados Unidos. Me considero uma pessoa de sorte por isso.

Quando alguém toma conhecimento de minha sexualidade, a pessoa geralmente tem perguntas a me fazer, incluindo: o que significa ser “pansexual”? De que modo difere de “bissexual”? Quantas mulheres você já namorou? Você transaria com um extraterrestre? E se o extraterrestre não tivesse gênero? (Sim, essa é uma pergunta de verdade que já me fizeram.) O que seu marido pensa disso? Vocês têm um casamento aberto?

Não me importo de responder algumas dessas perguntas, sinceramente, nem de desfazer alguns dos equívocos inerentes a outras delas.

Ser pansexual significa que me sinto atraída por pessoas de todos os gêneros. Tenho o maior respeito pela identidade de gênero de uma pessoa, mas o gênero não influi muito sobre minha atração romântica ou sexual inicial por alguém. Sem medo de usar um chavão, posso dizer que o que me atrai mais é o que a pessoa é por dentro, não por fora.

Me identifico como pansexual, em lugar de bissexual, porque sinto atração pelas pessoas independentemente de como elas entendem ou rotulam seu gênero, ou se elas se negam a identificar-se com qualquer gênero, e não apenas pelos dois gêneros binários, masculino e feminino, que a sociedade reconhece mais amplamente. Muitos bissexuais também sentem atração por todos os gêneros, mas ainda usam o termo “bissexual” por seu legado histórico e para manter a visibilidade da comunidade bissexual, e eu os apoio nisso. Mas “pansexual” é o termo que me parece mais adequado para descrever minha própria identidade sexual.

Ser pansexual significa que sinto atração por todos os gêneros. Tenho o maior respeito pela identidade de gênero de uma pessoa, mas o gênero não influi muito sobre minha atração romântica ou sexual por alguém.

Quanto a algumas das outras perguntas, já namorei algumas mulheres e uma pessoa que se considerava não binária, ou seja, não se identificava como exclusivamente mulher ou homem.

Eu namoraria um extraterrestre de gênero neutro, sim, se ele tivesse qualidades pessoais que eu achasse atraentes. Talvez até fosse dar uma voltinha em sua nave espacial e fosse conhecer seu planeta.

Meu marido me aceita de todas as maneiras – aceita até minhas falhas, que incluem teimosia, impaciência e, de vez em quando, ser melodramática demais. Somos supermonogâmicos e, sob muitos aspectos, vivemos uma vida tão emocionante quanto a de muitos outros casais casados. Discutimos sobre quem fica com o contrrole remoto, quem vai lavar a louça naquela noite; trollamos os posts um do outro nas redes sociais, nos aconchegamos juntinhos no sofá para curtir Netflix. Quando vamos para a cama, dormimos de conchinha.

Acredite se quiser, já tive mais reações negativas de outros membros da comunidade LGBTQ. Já me falaram que eu “escolhi um lado” e que não sou realmente LGBTQ “porque você casou com um homem”. Ser acusada de invalidar minha sexualidade por ter um relacionamento heterossexual é ao mesmo tempo um pouco engraçado e um pouco desanimador, especialmente quando isso parte das pessoas que eu imaginava que seriam as que mais me aceitariam. Mas isso só ocorreu algumas vezes, então procuro não me abalar demais.

Uma vez uma mulher que eu realmente respeitava (e por quem ainda sinto muito respeito) me fez uma pergunta difícil de responder: “Por que sua sexualidade é tão importante, agora que você é casada?”.

Eu não soube realmente como lhe responder na época, mas hoje acho que consigo responder perfeitamente à pergunta dela. Há duas coisas que quero que ela e todo mundo saibam:

  1. Ser casada com meu marido não me converte automaticamente em hétero. Na realidade, acho que isso valida ainda mais meu amor por ele, devido à razão por que o amo. Sim, ele é um homem incrivelmente atraente, mas me apaixonei por ele porque ele é inteligente, bondoso, altruísta, hilário e temos um vínculo profundo de alma. Respeito o homem que ele é, mas não foi por causa de seu gênero que me apaixonei por ele.
  2. Quero ser aceita como sou, pelo que eu sou. Minha sexualidade pode não me definir por inteira, mas é uma parte de mim. Como qualquer outra pessoa que saiu do armário, por assim dizer, quero ser aceita por outros e não ter que esconder algumas das coisas mais importantes a meu respeito. É importante eu ser ouvida e validada pelas pessoas que amo. E mais, minha pansexualidade não desapareceu quando me casei com um homem (e nunca vai desaparecer), e o simples fato de nosso casamento poder ser definido tecnicamente como um relacionamento heterossexual não significa que eu seja heterossexual.

Há momentos em que minhas respostas acabam confundindo as pessoas. Mas não as culpo, já que eu mesma só descobri o que é pansexualidade dois anos atrás. Foi quando percebi que o rótulo de “pansexual” me descreve melhor do que “bissexual”.

Eu me assumi como bissexual originalmente em 2001, quando tinha 13 anos de idade e tive minha primeira namorada. Se bem que o termo não me parecesse muito apropriado, mesmo na época, foi o que fazia mais sentido para mim. Vivíamos numa cidade pequena onde ser LGBTQ não era considerado “normal” ou “aceitável” na época. Tentamos guardar segredo sobre nosso relacionamento, por medo de sermos ridicularizadas (os adolescentes podem ser muito cruéis, sabe?!). Mas, como é o caso com a maioria dos segredos, a verdade acabou vindo à tona.

Quando as pessoas souberam que estávamos namorando, muitas desaprovaram. Minha mãe descreveu nosso relacionamento como “uma fase”, dizendo que eu acabaria “superando isso”. Nosso relacionamento durou uns seis meses. As críticas constantes dos nossos colegas acabaram pesando, e terminamos o namoro.

Quatro meses mais tarde, comecei a namorar um garoto de minha classe. Não demorou para a maioria dos meus colegas esquecer meu relacionamento anterior (e o fato de eu ter me assumido como bissexual).

Meu hoje marido e eu começamos a namorar no colégio, e só depois de alguns meses é que eu me assumi como bissexual para ele (não sei bem como, ele não ficara sabendo que eu havia namorado uma menina, apesar de a nossa cidade ser minúscula e de as fofocas se propagarem a jato). Ele ficou espantado em um primeiro momento, mas acabou se conformando com o fato de eu “não ser exatamente hétero”. Afinal, eu o havia escolhido.

Divulgação/Jillian Johnson
A autora com seu marido em 2015, na cerimônia de promoção E-6 dele.

Rompemos um ano depois de começarmos a namorar. Ele foi meu primeiro amor de verdade. Fiquei arrasada. Mas, depois de sofrer por algum tempo, comecei a sair com homens, mulheres e a pessoa não binária que citei acima. Aprendi muito sobre o que eu realmente queria de um relacionamento e não me arrependo de nada.

Alguns anos mais tarde, meu futuro marido e eu voltamos a ficar juntos. Nos casamos, tivemos filhos e agora vivemos felizes para sempre (geralmente).

Ele eu conversamos frequentemente sobre questões LGBTQ. A visão dele sobre a comunidade evoluiu muitíssimo desde que primeiro ficamos juntos. Pelo fato de termos crescido numa cidadezinha pequena, ele não chegou a ser exposto a muitas pessoas abertamente LGBTQ, por isso não sabia realmente como reagir. Hoje, como meu marido e militar, ele já aprendeu muito sobre nossa comunidade e como ser um aliado.

Agora que nossos filhos estão crescendo, estamos tendo conversas sobre questões ligadas a LGBTQs também com eles. Meu filho mais velho tem 14 anos e foi ensinado a enxergar todas as formas de amor como normais. Não me surpreendi quando ele me contou que sua melhor amiga é lésbica e acho que ele não pensou duas vezes no assunto quando ela lhe contou. Ele é um ótimo aliado dela e acredito que ele o será para o resto da comunidade quando crescer.

Minha filha do meio, que recentemente assistiu àquela revelação surpreendente de amor (alerta de spoiler!) e àquele beijo entre Catra e Adora em “She-Ra: Princesses of Power”, me perguntou por que as personagens se beijaram.

“Você não ouviu o que elas estavam falando?”, respondi. “Elas se amam!” “Bem, Mamãe, que legal que elas podem ficar juntas”, ela respondeu.

É incrível (se bem que não deveria ser, na realidade) como as crianças aceitam facilmente o amor entre duas pessoas – quaisquer duas pessoas. Os adultos têm muito a aprender com elas. Podemos aprender que às vezes a resposta mais simples é a melhor e que, em última análise, o amor é bom em todas suas formas.

Então me casei com um homem hétero, sim, mas isso não quer dizer que eu ainda não seja pansexual. Quer dizer que optei por passar minha vida com a pessoa que amo – que, por acaso, é um homem. Tenho orgulho de minha sexualidade e abraço a oportunidade de ter papos sadios sobre pansexualidade com pessoas que queiram entender isso melhor. Espero continuar a contribuir para conversas que incentivem a aceitação, tanto com a comunidade LGBTQ quanto com meus pares heterossexuais. 

Jillian Johnson é esposa de um militar da Força Aérea, mãe, ativista da saúde mental e LGBTQ, Sonserina com muito orgulho e uma alma criativa. Ela é uma garota da Califórnia que está se adaptando à vida no Sul com seu marido, três filhos e três filhos bichos. Ela é também uma escritora freelancer, está estudando psicologia com foco sobre o desenvolvimento infantil e adolescente, e é voluntária ativa em sua comunidade militar local. Seu trabalho já foi publicado no blog MilSpo Co. e na revista Military Spouse. Em suas horas de lazer, Jill curte ler, jogar games e fazer ocasionais viagens de carro espontâneas com sua família.

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.