Pandemias trazem à tona leituras milenaristas e utópicas

Historiadora Mary Del Priore diz que falta de preparo dos governantes ganha importância ainda maior durante tragédias.

A insegurança gerada por pandemias como a do novo coronavírus leva à criação e à divulgação de leituras milenaristas e utópicas como forma de explicar os acontecimentos vividos em nível global. Na análise sobre o tema feita ao UM BRASIL – uma realização da FecomercioSP –, a historiadora e escritora Mary Del Priore considera a atitude quase sistêmica diante de grandes tragédias.

“A visão da pandemia como um flagelo de Deus ou a luta entre o bem e o mal é algo que se repete. O presente, quando terrível, leva à necessidade de se pensar em uma explicação que as próprias estruturas políticas não conseguem dar”, explica Mary.

“A visão da pandemia como um flagelo de Deus ou a luta entre o bem e o mal é algo que se repete.”

Para a historiadora Mary Del Priore, "o presente, quando terrível, leva à necessidade de se pensar em uma explicação que as próprias estruturas políticas não conseguem dar".
Para a historiadora Mary Del Priore, "o presente, quando terrível, leva à necessidade de se pensar em uma explicação que as próprias estruturas políticas não conseguem dar".

A historiadora fala ao jornalista Renato Galeno que a falta de preparo dos governantes ganha importância ainda maior durante uma situação como esta da atualidade: “A incerteza sobre o amanhã é nostálgica e nos convida a pensar em grandes figuras que marcaram a história do mundo pela sua sensatez e compromisso com o seu povo, mas a vida política mudou e hoje o que a população exige são gestores, administradores. Isso cria um problema para a política brasileira que é a busca pelo novo. As pessoas querem um novo gestor ou administrador que possibilite que elas regularizem suas vidas e que dê o mínimo de justiça social. Essa busca do gestor leva o Brasil a uma corrida atrás de soluções”.

Mary Del Priori também traça um paralelo da pandemia do covid-19 – em que o isolamento em algumas regiões do País perdeu força – com a gripe espanhola, de 1918, período em que a ignorância sobre o vírus e a falta de informação imperavam. “Não há cura para o covid-19 e nesse aspecto estamos mais ou menos no mesmo impasse que o da crise espanhola. Observo que no Brasil há o desespero da população, especialmente das camadas menos favorecidas, e um cansaço psíquico de ficar entre quatro paredes, além do desgoverno vindo de um governo que não dá orientações claras”, critica ela.

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