Efeito Covid-19: O espaço tornou-se um recurso escasso, como antes era o tempo

O sociólogo do consumo Mauro Ferraresi descreve como nossos modos de viver e consumir vão mudar por causa da pandemia. Uma espécie de Big Bang espaço-temporal: “Não se pode voltar no tempo, o vírus traz mudanças para sempre. Elas estão aí”.
Espaços públicos como praia passam a ser escassos e deverão ter ofertas diferenciadas.
Espaços públicos como praia passam a ser escassos e deverão ter ofertas diferenciadas.

Os nossos modos de viver e consumir vão mudar definitivamente por causa da pandemia do novo coronavírus. Será uma espécie de Big Bang espaço-temporal, na avaliação do sociólogo do consumo Mauro Ferraresi.

“Não se pode voltar no tempo; o vírus traz mudanças para sempre. Elas estão aí”, sentencia o cientista social italiano, em entrevista ao HuffPost Itália.

Uma de suas principais observações é sobre a escassez do espaço, no pós-covid, em relação ao tempo.

Leia a íntegra:

HuffPost Itália: Professor Ferraresi, vários proprietários de negócios de praia são forçados a admitir que alugar um guarda-sol vai custar mais caro este verão: os preços serão de 10% a 20% mais altos. Isso se deve ao fato de que, por causa da pandemia, o espaço entre eles deve ser maior. Esse me parece somente um entre vários exemplos das mudanças que o vírus nos obriga a fazer em relação ao espaço. Nos tempos pré-covid, todos tentávamos comprar tempo, talvez viajando em alta velocidade ou usando a tecnologia para tarefas cotidianas. Mas agora teremos de buscar mais espaço. Estou errado?

Mauro Ferraresi: A interpretação é correta. O espaço tornou-se um recurso escasso, como era o tempo. Lembro de uma bela frase dita anos atrás por um grande empreendedor: “Não vamos a lugares diferentes dos frequentados pela maioria, só vamos antes e com mais conforto”. Representa bem um mundo que queria mais tempo, em que era possível comprá-lo. Agora talvez tenhamos de substituir a dimensão temporal pela espacial. Em geral, a covid já trouxe muitas mudanças na nossa maneira de viver. Sintetizo tudo na sigla SSTEI: sanitização, sedentarismo, teletrabalho-teleamizade-teleamor, em casa, por meio da internet. Os dois primeiros indicam como mudou nossa relação com o espaço.

Comprar tempo era uma espécie de símbolo de status, a verdadeira diferença entre ricos e pobres. Agora será cool ter mais espaço?

Se pensarmos bem, o espaço sempre foi um símbolo de status, mas agora será ainda mais. Explico. Até aqui, considerávamos os chamados “espaços estruturados”: a casa ou o escritório. Ter uma casa bonita, espaçosa e cheia de confortos, além de um escritório amplo e iluminado, foi e continua sendo uma mensagem social muito clara. Bem, agora temos que estender isso aos “espaços não-estruturados” ou aos espaços públicos. Praias, teatros, cinemas. Em resumo, todos aqueles lugares que eram indiferentes a questões de espaço, que talvez fossem melhores quanto mais lotados e compactos. Por exemplo, tenho certeza de que, quando reabrirem, alguns cinemas oferecerão um sistema de reservas que permitirá que aqueles que podem pagar tenham mais conveniências e metros quadrados.

O mesmo acontecerá com o transporte, do trem ao avião, você não acha?

Certamente. E isso terá um custo, teremos uma diferenciação da oferta, haverá mais diferenças entre a primeira classe e as demais.

Vamos ter novamente uma terceira classe, como no tempos do Titanic?

Não acho que voltaremos ao Titanic, mas as companhias aéreas ou companhias de navegação precisam controlar seus orçamentos de alguma maneira.

É uma má notícia para as companhias aéreas de baixo custo...

Elas terão muitos problemas. O que é que elas podem fazer? Farão os passageiros pedalar para que os motores funcionem? Elas serão simplesmente forçadas a aumentar os preços e, portanto, não terão mais preço baixo.

Falando de preços, outro efeito prejudicial da covid para nós consumidores é que gastaremos mais...

Haverá aumentos, não há dúvida. Talvez não para todos os produtos, mas certamente para vários. Não estou pensando apenas em comida, mas também em roupas. Algumas lojas de roupa já começaram a aumentar os preços, por causa do aumento súbito de seus custos fixos. Também estou pensando em higienização dos espaços, instalação de divisórias de acrílico e assim por diante.

E também existem aqueles que ganham com o coronavírus, como acontece em todas as crises. Penso na economia digital.

Passamos por um processo rápido e violento de alfabetização digital. De repente, tivemos de passar a administrar online várias pequenas atividade diárias, como fazer compras ou ver amigos e parentes. E nós fizemos isso. Um sinal da grande adaptabilidade do ser humano. Obviamente, tudo isso foi um grande benefício para as plataformas tecnológicas, a Amazon acima de todas. Mas acho que, a longo prazo, também pode haver outro efeito que poderia nos poupar algum dinheiro. Muitas pessoas irão para o mundo digital em busca de trabalho e ganho pessoal. A concorrência aumentará e, portanto, os preços dos serviços podem diminuir. Um pouco como o que aconteceu até agora com os bares: uma espécie de refúgio para quem queria abrir um negócio e tinha certeza de que poderia obter com ele um rendimento decente. De qualquer forma, as tecnologias digitais se tornaram ainda mais predominantes em nossas vidas. E elas seguirão assim quando derrotarmos o vírus.

O que acontecerá quando todos forem vacinados, daqui um ou dois anos? O que permanecerá diferente em nossa sociedade? Ou tudo voltará a ser como antes?

Vou roubar um conceito querido do historiador Alessandro Barbero: a covid-19 será uma periodização, ou seja, um evento histórico que trará mudanças definitivas, como por exemplo a Primeira ou a Segunda Guerra Mundial. A última periodização remonta quase 20 anos atrás: os atentados do 11 de setembro de 2001. Passamos por um período bastante longo sem grandes sobressaltos. Agora o choque chegou. E é algo que já nos fez mudar a maneira de pensar. Nada será como antes; quem acredita o contrário está equivocado.

E devemos ser pessimistas ou otimistas?

Haverá uma fase de recomeço, na qual a euforia prevalecerá sobre a disforia. Não estou entre os arautos de um “destino magnífico e progressivo”, mas acredito que voltaremos depois dessa emergência, assim como nossos pais fizeram depois da guerra.

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost Itália e traduzido do italiano.