Leandro Karnal: Comunicação agressiva é o mais assustador na pandemia

“O que me assusta nessa crise é a tônica de uma comunicação de todo mundo se insultando”, diz o historiador em entrevista ao UM BRASIL.
Para Leandro Karnal, a comunicação agressiva é um grave problema deste momento da pandemia do coronavírus no mundo.
Para Leandro Karnal, a comunicação agressiva é um grave problema deste momento da pandemia do coronavírus no mundo.

O historiador, professor e escritor Leandro Karnal ressalta em entrevista ao UM BRASIL que cada epidemia é única. “A covid-19 mata menos do que a peste bubônica e mata menos do que a varíola matava até o século 18, mas tem um potencial de destruição econômica talvez ainda pior do que todas as outras no passado”, pondera.

Apesar da peculiaridade de cada pandemia, Karnal se diz assustado com a situação mais recente por causa da agressividade instaurada no diálogo com o próximo. “O que me assusta nesta crise é a tônica de uma comunicação de todo mundo se insultando, achando que o perigo é o vizinho que bate ou não bate panela, e não o vírus. É preciso enfatizar esta questão: primeiro, preservar a vida; segundo, os empregos e a economia; e, por fim, nossa capacidade de comunicação”, analisa.

Ele ainda ressalta que, historicamente, toda pandemia gera negacionistas e histéricos, dois polos terríveis: “Há aqueles que dizem que não está ocorrendo nada – são pessoas perturbadas – e aqueles que dizem que é o fim do mundo”, explica.

Karnal ainda contextualiza o fator “comunicação” durante a pandemia ao lembrar a heterogeneidade de público e as formas distintas como diferentes brasileiros lidam com tal crise. “Há uma dissociação de públicos. Se o político ‘A’ faz um discurso dizendo que covid-19 não é nada, ele tem um público que aceita isso. Há público para alarmistas, para negacionistas, para pessoas que seguem a OMS (Organização Mundial da Saúde) e há público para quem manda um áudio dizendo que não se deve usar máscaras importadas da China – esse tipo de histeria também tem público. Hoje, o desafio da retórica é maior.”

A esperança dele é de que a grande lição dessa crise seja a consciência de que estamos inseridos em uma realidade maior. “Não adianta me fechar em meu condomínio, na minha ilha de conforto; se ignorarmos o todo, os bárbaros tomam Roma”, conclui.

“Precisamos pensar em soluções extraordinárias para um período extraordinário. Não se trata mais de liberar um pequeno crédito para quem está desempregado; trata-se de [elaborar] um novo Plano Marshall competitivo e amplo que envolva FMI, Banco Mundial, BNDES e nossas reservas para salvar a maioria da população da doença e do desastre econômico”, avalia, referindo-se ao plano de reconstrução da Europa no fim da década de 1940 com base no auxílio internacional econômico e financeiro, de modo a reavivar a atividade econômica e garantir estabilidade social.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa necessariamente ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.