Com a pandemia passou a ser aceitável dizer que não está tudo bem

“Estamos todos no mesmo barco, com os mesmos problemas. Então, eu escuto a sua dor porque também está doendo em mim", explica a psiquiatra Giuliana Cividanes.

Se tratar sobre saúde mental sempre foi necessário, em meio à pandemia se tornou indispensável. Neste período de crise sanitária, um fenômeno invisível tem acontecido, o de ser aceitável responder “não está tudo bem” quando alguém te pergunta por educação se está tudo bem.

No episódio do podcast do Tamo Junto sobre a importância de se falar sobre transtornos mentais o ano todo, a radialista e jornalista Amanda Ramalho, chamou a nossa atenção para isso.

“A pandemia aproximou as pessoas e hoje a gente tem a oportunidade de falar ‘oi, tudo bem?’, ‘não’. Eu acho que em nenhuma vez na nossa vida a gente falava ‘não’. Sempre foi ‘oi, tudo bem?’, ‘tudo, e você?’. Hoje é aceitável porque tem uma pandemia você falar que não está tudo bem.”

A psiquiatra Giuliana Cividanes, mestre em psiquiatria pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), concorda que responder “não está tudo bem antes” da pandemia não era nada aceitável. Depois que o coronavírus chegou, se tornou ok responder dessa forma.

“Isso era quase falta de educação. Se eu pergunto que está tudo bem você tem que responder que está, não me venha com os seus problemas”, afirma. Ela acredita que isso mudou radicalmente porque estamos todos vivendo juntos a primeira pandemia de nossas vidas.

“Estamos todos no mesmo barco, com os mesmos problemas. Então, eu escuto a sua dor porque também está doendo em mim. No dia a dia eu não quero saber dos problemas dos outros. Hoje em dia o problema é de todo mundo”.

Por essas e outras que viralizou um print de uma conversa de WhatsApp com uma pessoa dizendo “amiga vou bem e vc” e a outra respondendo “amiga não minta”.

Falar com os amigos, colegas ou familiares sobre os próprios sentimentos também é um dos pilares para se ter uma boa saúde mental. É o que os profissionais chamam de rede de apoio.

“E a covid não é um sofrimento interno, é um sofrimento externo, é algo que alguém impôs, não algo que brotou dentro de mim. E existe a crença de que ele vai passar, de que ele não vai ficar pra sempre. Isso o torna mais suportável”, diz Giuliana.

Além disso, expor os próprios sentimentos sempre que possível é importante para evitar a chamada psicofobia, como explica o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva.

“A psicofobia, ou seja, o preconceito que cerca os doentes mentais e seus familiares, ainda é uma triste realidade. As pessoas menosprezam os transtornos psiquiátricos e não os encaram como doenças, como enfrentam a diabetes e patologias cardiovasculares, por exemplo.”

<i>Falar com os amigos, colegas ou familiares sobre os pr&oacute;prios sentimentos tamb&eacute;m &eacute; um dos pilares para se ter uma boa sa&uacute;de mental.</i>
Falar com os amigos, colegas ou familiares sobre os próprios sentimentos também é um dos pilares para se ter uma boa saúde mental.

De acordo com Silva, é fundamental o conhecimento e a compreensão para desmistificar os estigmas envolvidos com as doenças mentais.

Ele acredita que o Setembro Amarelo tem ficado mais conhecido, com um aumento da abordagem do tema pela imprensa e a sociedade como um todo. Mas reforça também que a sociedade precisa lembrar que em muitos casos somente ações efetivas podem resolver problemas de saúde mental e o primeiro passo é procurar ajuda profissional.

“É preciso encaminhar para o médico psiquiatra, vá junto ao paciente na consulta, não deixe para depois. A ação que você toma hoje pode salvar esta vida.”