A pandemia acabou com minhas habilidades sociais. O que fazer?

"Outro dia uma amiga ligou para bater papo. Atendi dizendo: 'Como posso ajudá-la?'"

Eu teria algum motivo para eu fugir do país e começar uma vida nova em outro lugar, com uma nova identidade? Bem, hoje de manhã eu ergui o punho pros caras que vieram limpar as janelas.

Bateram na minha porta, e lá estava a simpática dupla que limpa as janelas do bairro – com as mãos na cintura, como super-heróis – para avisar que o serviço estava voltando depois de meses de lockdown.

Como decidi responder? Soltei um “eba!” ou um “graças a Deus?”, ou então ofereci uma xícara de chá e perguntei se eles estavam bem? Não. Eu não.

Eu ergui o punho. Ergui o punho para os caras que limpam as janelas, como se estivesse num protesto. Percebi que não era a resposta adequada enquanto estava levantando o braço, e o próximo passo lógico naquela hora foi fechar a porta.

Isso mesmo. Me disseram uma coisa absolutamente trivial, e respondi erguendo o punho, sem soltar uma palavra. Depois fechei a porta.

Mas não a empurrei com força suficiente, e no tempo que ela demorou para fechar, meus filhos, que estavam pintando no quintal, vieram me acompanhar no corredor. Vendo aquela cena, eles também ergueram os punhos.

Jamais esquecerei a cara de espanto dos limpadores de janela ao ver aquela cena bizarra – três pessoas, duas pequenas, com algum tipo de pintura de guerra – esperando em silêncio no corredor, com os punhos erguidos, os fitando com cara de maus.

Há quatro meses, eu não vou a nenhum lugar diferente nem falo com ninguém que não seja meu marido ou meus dois filhos.
Há quatro meses, eu não vou a nenhum lugar diferente nem falo com ninguém que não seja meu marido ou meus dois filhos.

Então você entende por que tenho de ir embora imediatamente para recomeçar a vida em algum lugar bem distante, onde ninguém saiba dessa vergonha.

O isolamento acabou com minhas habilidades sociais. Há quatro meses, eu não vou a nenhum lugar diferente nem falo com ninguém que não seja meu marido ou meus dois filhos.

Apesar da quarentena, meus amigos têm vidas sociais movimentadas. Eles fazem happy hour e até encontros românticos virtuais; estão ativos nos apps de relacionamentos; jogam jogos, assistem peças pela internet; participam de reuniões do clube do livro. Alguns até reúnem a família para almoços de domingo na frente do computador.

“Não faço nada disso. Mas, diferentemente de mim, muitos desses amigos estão isolados sozinhos, ou então dividindo o apartamento com colegas de quarto. Ou então têm apenas a companhia de seus bichos. Eu nem sequer tenho conta de Zoom.”

O isolamento acaba sendo muito parecido com minha vida normal.
O isolamento acaba sendo muito parecido com minha vida normal.

Não faço nada disso. Mas, diferentemente de mim, muitos desses amigos estão isolados sozinhos, ou então dividindo o apartamento com colegas de quarto. Ou então têm apenas a companhia de seus bichos. Eu nem sequer tenho conta de Zoom.

Porque tudo o que eu quero é um pouco de silêncio. Eu e meu marido estamos tentando trabalhar e, ao mesmo tempo, submeter nossos filhos às aulas online. Mas muitas vezes a gente simplesmente desiste e vai dar uma volta na floresta, ou então fica anestesiado na frente de uma tela.

Nossos dias começam antes das 6h, e nossos meninos, confusos com a mudança e com as novas regras, às vezes não vão para a cama antes das 21h. Isso significa que meu “horário de adulta” dura meia hora por dia – e eu prefiro passá-lo na banheira, depois de meia garrafa de sauvignon blanc, ou então pescando assistindo “Succession”, não olhando para uma webcam.

O isolamento acaba sendo muito parecido com minha vida normal. Quando estava grávida do primeiro filho, há cinco anos, eu e meu marido nos mudamos para o subúrbio. Quando chegou o bebê, entramos nesse proto-lockdown que é a bolha do recém-nascido. Mal encontrávamos outras pessoas.

Aí percebemos que o bebê era uma ótima desculpa para não ter de ir a compromissos sociais – e perfeita para dois introvertidos que ficam exaustos com esse tipo de atividade. Recusamos convites para jantares e encontros em bares (“O bebê está com cólica...” – o que não era mentira).

Quando terminou minha licença-maternidade, decidi virar freelancer, e passei a trabalhar de casa. Foi uma ótima decisão. Mas agora, depois do segundo filho, estou mais antissocial que nunca.

O que quero dizer é: aperfeiçoei a arte de vestir pijama (tenho um para usar durante o dia, um para trabalhar e um profissional). Mas minhas habilidades sociais estão enferrujadas.

Até minha família é melhor que eu nesse departamento. Os dois meninos estão acostumados a brincar com os amigos por vídeo, e meu marido – que diz que odeia todo mundo – está em grupos de WhatsApp da rua e da escola. Eu, da minha parte, criei um grupo de mães de recém-nascido no começo do lockdown. O grupo é bem movimentado, mas acho que postei uma vez. Minha família também visita o avô duas vezes por semana – meu sogro ―, mantendo distância no jardim da casa dele.

Mais recentemente, tenho recebido mais convites para encontrar amigos, tanto online quanto ao vivo, em caminhadas. Talvez eu devesse aceitá-los. Minha épica bolha de licença-maternidade-vida de frila-quarentena pode ser confortável, mas só vai piorar minha ansiedade em situações sociais.

Outro dia uma amiga ligou para bater papo. Atendi dizendo: “Como posso ajudá-la?” Numa consulta por telefone com o clínico geral, soltei: “Como minha pele está errada?”

Ou é vida com distanciamento social ou terei de recomeçar minha vida em algum outro lugar.
Ou é vida com distanciamento social ou terei de recomeçar minha vida em algum outro lugar.

Pior: num domingo fiz uma lasanha para meu sogro e cometi o maior erro do lockdown. Quando ele apareceu em casa, o abracei. Sim. Dei um abraço. Ele não mora com a gente, e eu o abracei. Meu marido e meus filhos deram um gritinho, mas demorei uns 30 segundos para perceber o que estava fazendo errado.

“Bom, eu gostei”, brincou meu sogro. Fiquei sem palavras.

Até aqui, estamos todos bem. Respeitamos o isolamento, então a exposição tem sido mínima – e ainda assim não é tudo uma maravilha. No caso desse abraço, se eu não estivesse tão dentro da minha própria bolha talvez não tivesse interferido na bolha dele.

Então, vida com distanciamento social, aqui vou eu. Ou é isso ou terei de recomeçar minha vida em algum outro lugar. Bom, pelo menos já criei uma conta no Zoom.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.