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17/07/2020 13:23 -03 | Atualizado 17/07/2020 13:29 -03

Novas explosões de casos de covid levam governos em todo o mundo a rever reabertura

Com mais de 13 milhões de casos no mundo, países e regiões voltam a impor medidas restritivas severas, em cenas que lembram os dias mais difíceis de março e abril.

Depois de algumas poucas semanas de relativa normalidade em diversos países e em regiões dos Estados Unidos, a explosão de novos casos de covid-19 forçaram governos do mundo todo a impor novamente restrições de circulação e a fechar bares, restaurantes e outros negócios. Centenas de milhões de pessoas estão sendo afetadas.

Nos Estados Unidos, mais de 20 estados suspenderam ou reverteram seus planos de reabertura por causa do aumento das infecções. Na terça-feira, a Califórnia registrou mais de 11.000 novos casos de covid-19, o maior total diário no estado desde o início da pandemia.

Na Índia, o estado de Bihar, no norte do país, impôs um bloqueio de 15 dias para combater a propagação do coronavírus também na terça. Bihar tem 125 milhões de habitantes. Horas depois, a cidade de Bengaluru, no sul, onde moram cerca de 13 milhões de pessoas e há um importante centro de prestação de serviços de tecnologia para empresas internacionais, também determinou lockdown de uma semana.

A cidade, que havia sido elogiada pelo sucesso inicial na contenção do coronavírus, tornou-se um estudo de caso sobre o que pode dar errado quando as autoridades baixam a guarda cedo demais.

A capital venezuelana, Caracas, também está sob um lockdown estrito desde quarta-feira. Na Espanha, cerca de 160 mil pessoas na região da Catalunha foram as primeiras no país a voltar ao isolamento enquanto as autoridades tentam controlar uma nova onda de contágios poucas semanas depois da suspensão do lockdown no país inteiro.

De acordo com as novas regras, os moradores da cidade de Lleida e das cidades próximas só podem sair de casa para atividades essenciais. Barcelona também está considerando reimpor restrições depois que os casos de coronavírus triplicaram em uma semana.

Medidas semelhantes estão sendo tomadas na Austrália, onde as autoridades da semana passada forçaram aproximadamente 5 milhões de moradores de Melbourne a ficar em casa por seis semanas. Nos dois estados mais populosos da Austrália, Victoria e New South Wales, restrições ainda mais severas podem ser impostas se o surto não for controlado rapidamente, afirmaram as autoridades.

Na quinta, Victoria registrou 317 novos casos de coronavírus, um recorde diário, e o secretário de saúde do estado alertou que o surto local pode não ter atingido seu pico.

MANJUNATH KIRAN via Getty Images
Segurança guarda joalheria fechada em Bengaluru, na Índia, para conter o avanço do coronavírus, 14 de julho.

O Reino Unido também está seguindo o que o primeiro-ministro Boris Johnson chamou de estratégia “whack-a-mole” (jogo em que uma toupeira aparece de repente em um de vários buracos e o jogador tem de acertá-la com uma marreta).

Enquanto grande parte do país volta a frequentar bares e restaurantes, o ministro de Saúde do Reino Unido, Matt Hancock, disse nesta semana que “ações pontuais” estão sendo tomadas para combater mais de 100 surtos locais em todo o país.

“Toda semana são realizadas mais de 100 ações locais em todo o país ― algumas delas serão noticiadas, mas muitas são tratadas de forma rápida e silenciosa”, disse Hancock.

O governo britânico não detalhou o que considera um surto. O ministro da Justiça, Robert Buckland, disse à BBC esta semana que cada caso seria diferente, mas “acho que sabemos identificar quando estamos diante [de um surto]”.

A cidade de Leicester foi a primeira no país a reintroduzir a quarentena, no fim do mês passado, por causa a uma nova onda de infecções. O governo iria revisar as restrições no fim desta semana.

“O essencial é garantir que estejamos prontos para combater crises locais”, disse Johnson no mês passado, segundo o HuffPost UK.

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Homem caminha por rua comercial vazia de Leicester, em 1º de julho. A cidade foi a primeira do Reino Unido a restabelecer um lockdown regional, no fim do mês passado.

O número crescente de novos lockdowns deixa claro que, sem uma vacina, viver com o coronavírus vai exigir um equilíbrio constante entre abrir as economias e eventualmente voltar a fechá-las caso haja novos surtos.

As autoridades devem “estar prontas para avançar ou retroceder”, dependendo do número de casos registrados, disse Michael Ryan, diretor do Programa de Emergências de Saúde da Organização Mundial de Saúde.

“Se quisermos evitar novas grandes epidemias depois de um lockdown, temos de ficar atentos a pequenos grupos de casos. E eles devem ser controlados rapidamente”, afirmou Ryan.

Gavin Newsom, governador da Califórnia, comparou a reabertura do estado a um interruptor com dimmer, que pode ser ajustado gradualmente, conforme as circunstâncias.

“Nada é constante”, afirmou Newsom na segunda-feira, quando os californianos foram informados da volta de diversas restrições. “Quando se trata de doenças infecciosas, nada é linear.”

Darrian Traynor via Getty Images
Policiais do estado australiano de Victoria patrulham a região de um complexo de apartamentos em Melbourne que foi submetido a um lockdown estrito, 11 de julho de 2020.

A Alemanha caracterizou sua abordagem como um “freio de emergência”, que desencadeia novas restrições locais caso haja muitas novas infecções em uma determinada área. Essas restrições foram reimpostas pela primeira vez no mês passado, quando mais de 1.500 funcionários de uma fábrica de processamento de carne no estado da Renânia do Norte-Vestfália foram identificados com o coronavírus.

O foco em surtos locais pode ajudar os países a evitar os bloqueios mais abrangentes que provocaram uma crise econômica global. Mas as mudanças constantes nas regras têm causado confusão na população – além de dificultar o planejamento para os empresários.

“Eu estava preparando o restaurante, rearranjando as mesas, encomendando divisórias de plástico, máscaras e viseiras”, disse ao HuffPost UK Shaf Islam, dono de um restaurante indiano de Leicester. “Estava ansioso para finalmente reabrir, e aí recebo um telefonema às 9h de uma pessoa perguntando se eu já tinha ficado sabendo que não poderia voltar a funcionar.”

“Acho muito injusto”, acrescentou Islam. “Somos praticamente cobaias em Leicester.”

Isso não é lockdown, é prisão

As autoridades de Leicester culpam o governo central, que teria demorado semanas para compartilhar dados detalhados dos testes de coronavírus. Além disso, eles afirmam que bloquear a cidade inteira foi uma medida exagerada.

“Olhando para os dados, fica muito claro que algumas áreas da cidade têm índices de transmissão mais altos que a média”, disse o prefeito de Leicester, Peter Soulsby, à BBC nesta semana. “Impor um bloqueio na cidade toda, e até mesmo além de seus limites, não se justifica.”

Em Melbourne, o governo enviou centenas de policiais para impor um bloqueio estrito de nove complexos de apartamentos onde se verificaram novos casos de covid-19. De acordo com as duras restrições impostas às pressas, os 3.000 moradores dos edifícios foram proibidos de sair casa, qualquer que fosse o motivo.

O governo disse que a medida extrema era necessária para evitar mais infecções. Mas muitos moradores disseram que o governo não forneceu alimentos e assistência médica.

“Olhei pela janela e não havia enfermeiras, produtos de limpeza nem comida ― apenas muitos policiais”, disse um morador à agência Reuters. “Isso não é lockdown, é prisão.”

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Mulher passa pelo El Capitan Theatre, na Hollywood Boulevard, em Los Angeles, em 12 de junho. Com novos recordes de casos na Califórnia, o estado está revertendo os planos de reabertura.

Em entrevista coletiva da OMS na semana passada, Michael Ryan argumentou que o sucesso do isolamento pontual depende de cooperação estreita entre autoridades locais e nacionais, além de aderência da população.

“No fim das contas, tudo se resume a comunidades e indivíduos, a como nos protegemos e aos outros”, disse ele. “Isso exige uma parceria muito forte e de muita confiança entre comunidades e autoridades. Uma parceria baseada na honestidade, baseada na transparência, baseada em informações regulares em que todos podem confiar.”

Ryan acrescentou: “Todos querem evitar que países inteiros voltem ao bloqueio total. Ninguém quer isso de novo.”

 

Com reportagem do HuffPost UK, HuffPost Índia, HuffPost Austrália e Reuters.

 

* Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.