COMPORTAMENTO
03/09/2019 14:54 -03

O que acontece no seu cérebro quando você esquece o filho no carro

“É fácil julgar, mas muito mais difícil e importante tentar entender por que isso acontece”, explica um especialista em memória.

pigphoto via Getty Images
São mortes evitáveis. Mas o primeiro passo para que elas não ocorram mais é aceitar a possibilidade.

Todos os anos há notícias de crianças que morreram porque foram esquecidas dentro do carro pelos pais. Em julho, Juan Rodriguez, assistente social de Nova York, deixou o filho de 4 anos na escolinha e foi para o trabalho, num hospital – mas esqueceu que seus gêmeos de um ano estavam no banco de trás do carro. Os bebês morreram por causa do calor.

“Me deu um branco completo”, disse Rodriguez mais tarde para a polícia. “Matei meus bebês.” Ele afirmou às autoridades que achava que tinha deixado os gêmeos na creche.

Quando você lê sobre essas situações, tende a pensar: “Eu não esqueceria meus filhos”. A dura realidade, porém, é que esses lapsos de memória podem acontecer com qualquer um. 

Entre 1998 e 2019, pelo menos 829 crianças morreram nos Estados Unidos trancadas em carros em dias de calor, segundo o meteorologista Jan Null, que fundou o noheatstroke.org e compila dados anuais citados pelo National Safety Council e pela National Highway Traffic Safety Administration.

No começo de agosto, uma criança foi encontrada morta num carro no estacionamento de um supermercado de Knoxville, Tennessee. Outra de 2 anos morreu em Lawrence, Kansas. Entre 1º de janeiro e 12 de agosto, 32 crianças morreram vítimas de insolação pediátrica em veículos, segundo Null.

A insolação pode ocorrer quando a temperatura do corpo atinge 40 graus centígrados – ponto em que o sistema de resfriamento do corpo se desliga.

Dentro de um carro, a temperatura de um dia pode se tornar muito perigoso. “Depois de uma hora dentro do carro, estamos falando de temperaturas acima dos 40 graus, muito mais quente do que a temperatura externa”, afirma Null.

As crianças são especialmente vulneráveis ao calor. “Os corpos de bebês e crianças pequenas se aquecem três a cinco vezes mais rápido que o dos adultos”, explicou ao HuffPost. “Poucos graus a mais para a gente podem equivaler a 6 graus ou mais para um bebê ou uma criança pequena.” 

Embora algumas crianças sejam conscientemente deixadas para trás, Null descobriu que na maioria dos casos de morte o responsável esqueceu que a criança estava no carro.

Pode ser fácil tachar esses pais de negligentes, mas pesquisas mostram que, sob estresse, nossos cérebros podem esquecer até mesmo as pessoas mais importantes de nossas vidas.

O HuffPost conversou com dois pesquisadores para explicar como os nossos cérebros falham e como evitar que isso aconteça com você.

Reconheça que esses lapsos de memória acontecem com todo mundo

David Diamond é professor de psicologia da Universidade do Sul da Flórida e, nos últimos 15 anos, vem estudando a psicologia por trás desses incidentes. Ele conversou com muitos pais que esqueceram os filhos nos carros, incluindo Rodriguez, o pai dos gêmeos de Nova York.

Em entrevista ao HuffPost, ele explica que nesses casos há uma disputa de poder entre nossa memória consciente e nosso subconsciente.

“Temos esse sistema de piloto automático em nosso cérebro que nos permite fazer várias tarefas ao mesmo tempo, fazer as coisas automaticamente, quase de maneira inconsciente, o que significa que podemos ir de A a B por puro hábito”, afirma Diamond. “E, no processo de ligar esse sistema de piloto automático, perdemos a consciência de um sistema de memória concorrente, que é o nosso sistema de memória consciente.”

Diamond disse que o caso de Rodriguez ― deixar uma criança na creche, mas não as outras ― não é único. O padrão é o pai levando o filho mais velho todos os dias para a creche, às vezes durante anos. Vira um hábito. Um novo bebê (ou bebês) quebra esse padrão. Levar as crianças mais novas para a creche compete com o hábito mais antigo.

“Depois de levar o primeiro filho à creche, o velho hábito entra em ação e você vai direto para o trabalho. Você perde a consciência de que tem um segundo filho, gêmeos, e esquece que tem de levá-los para um outro lugar”, afirma Diamond. 

No trabalho, não dispara nenhum alarme na sua cabeça, porque seu cérebro entra numa rotina diferente. “Toda vez que você estava no trabalho, nunca havia uma criança no carro. Portanto, seu cérebro diz:  ‘Agora você está sozinho. Não ficou nenhuma criança no carro’”, diz Diamond. “O pai agora tem essa memória criada artificialmente, dizendo: ‘Agora toque o seu dia’.”

A melhor dica é não negar que isso pode acontecer com você

A dica de Diamond para pais e cuidadores de crianças é aceitar que isso pode acontecer com qualquer um.

“Se vamos a uma loja, levamos uma lista do que não queremos esquecer. Anotamos tudo. Se temos uma consulta e sabemos que vamos encontrar o médico à tarde, vamos colocá-la na agenda, porque sabemos que existe o risco de esquecer”, afirma Diamond. “As pessoas se recusam a aceitar que podem esquecer os filhos no carro, porque isso é admitir a possibilidade de que isso aconteça de fato.”

O maior risco de que esse erro catastrófico aconteça é tornar-se complacente, afirma Diamond.

Você poderia argumentar que os pais deveriam estar conversando com os filhos no carro. Mas Diamond diz que ninguém conversa com uma criança que está dormindo. “Se você tem um bebê de três meses dormindo numa cadeirinha no banco de trás, você não o vê, não o ouve, não sente o cheiro dele, não vai conversar com ele no caminho da creche.”

Existem tecnologias e lembretes que podem te ajudar

Você pode usar alguns lembretes, é claro. Você deveria combinar com a creche um aviso caso seu filho não seja deixado na hora certa, recomenda Diamond. Também existem soluções tecnológicas. Alguns carros têm alarmes que lembram o motorista de checar o banco de trás.

Um projeto de lei apresentado na Câmara dos Estados Unidos requer que os carros emitam um alarme se o motor for desligado e houver alguém no banco de trás.

Mas Null afirma que a tecnologia não vai resolver o problema completamente, porque ainda há crianças deixadas propositalmente dentro de carros, e outras que entram nos carros sem que os adultos percebam.

“Toda vida salva deve ser celebrada, mas você não vê uma grande adesão a esse tipo de produto, porque as pessoas vão dizer: ‘Jamais esqueceria meu filho’.”

Use lembretes visuais

Uma solução simples é ter um objeto no seu campo de visão quando as crianças estiverem no carro. Diamond sugere algo visual ou auditivo que alerte o sistema de memória consciente, para que ele não seja sobreposto pelo piloto automático.

Ele recomenda algum objeto único, como a bolsa de fraldas, um bicho de pelúcia ou um brinquedo. “Mas esse item não deve estar sempre no carro. Somente quando a criança estiver com você. O objeto estará à vista só quando a criança estiver no banco de trás.”

Não julgue; seja compreensivo

Acima de tudo, os especialistas recomendam compreensão e compaixão. “Tenho uma lista de pessoas muito diferentes com quem isso aconteceu”, afirma Null. “Pode acontecer com qualquer um.”

Diamond acrescenta: “Essa é a hora de demonstrar compaixão e empatia, de tentar entender por que isso acontece com centenas de pais maravilhosos e atenciosos. Eles sofrem demais por isso. É fácil julgar, mas muito mais difícil e importante tentar entender por que isso acontece”.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.