OPINIÃO
24/09/2020 06:00 -03 | Atualizado 24/09/2020 06:00 -03

Abaixo-assinados em defesa do padre Júlio Lancellotti reúnem 120 mil apoiadores

Depois de ser vítima de ofensas na internet e enquanto atendia moradores de rua, clérigo passou a receber inúmeras demonstrações de apoio e acolhimento.

Nacho Doce / Reuters
Padre Júlio Lancellotti lava pés de moradora de rua em cerimônia de Páscoa em 2015. 

Mais de 120 mil pessoas se uniram em 2 abaixo-assinados para prestar solidariedade ao padre Júlio Lancellotti e pressionar autoridades e organizações a garantirem proteção ao pároco. Lancellotti tem sido vítima de ataques por conta de sua atuação humanitária junto à população em situação de rua em São Paulo. No último dia 15, foi xingado por um desconhecido enquanto prestava atendimento em uma praça na região central.

“Estou cada vez mais em risco”, declarou o padre em um vídeo postado em suas redes sociais após o ataque. Além do xingamento que veio de um motociclista que passava pelo local, outras declarações contra o padre têm partido do deputado estadual Arthur do Val (Patriota-SP), o Mamãe Falei, que é pré-candidato à Prefeitura de São Paulo. Em uma das ofensas, o deputado acusou o padre de ser “cafetão da miséria”.

Após os episódios, o prefeito paulistano Bruno Covas chegou a dizer, em entrevista ao jornal El País, que o trabalho do pároco por vezes é um “incômodo necessário”. De anônimos a famosos, milhares saíram em defesa de Lancellotti. Os abaixo-assinados, hospedados na plataforma Change.org, simbolizam parte desses gestos de apoio. O maior deles é de autoria do movimento Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) e engaja, sozinho, 70 mil pessoas. 

A socióloga Tabata Pastore Tesser, que integra o movimento, explica que o objetivo da petição é cobrar não só a Arquidiocese de São Paulo a fazer um pronunciamento público e pensar um esquema de proteção em favor do padre, como também cobrar outras organizações, como o Conselho de Direitos Humanos, e a Justiça a atuarem para protegê-lo.

Na visão de Tabata, as agressões contra o padre estão relacionadas ao atual momento da sociedade que, na visão dela, é muito movido pelo sentimento de ódio. “É importante que a gente denuncie que esse setor que patrocina o ódio tem a ver com uma política no Brasil que colabora e que normaliza que as pessoas ataquem e façam atos odiosos contra pessoas que estão defendendo os direitos humanos”, afirma a socióloga. 

Depois da ofensa que sofreu na rua, o padre registrou um boletim de ocorrência por injúria e ameaça. O abaixo-assinado também pede que a denúncia seja levada adiante pela Polícia Civil de SP para que o sacerdote seja protegido de qualquer ataque à sua integridade física e moral.

Coordenador da Pastoral Povo da Rua, Lancellotti é padre há mais de 30 anos e pároco da igreja São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, zona leste da cidade de São Paulo. Em sua longa trajetória de acolhida a pessoas em situação de vulnerabilidade, não é a primeira vez que é alvo de ameaças, mas agora ele acredita que o risco está cada vez maior. “Depois de uns ataques de alguns candidatos à prefeitura contra mim, eu estou cada vez mais em risco. Então, quero deixar claro: se me acontecer alguma coisa, se alguém me atingir, se eu for atingido por alguém, vocês sabem de quem é a culpa, de quem cobrar”, declarou o padre no vídeo que já teve quase 150 mil visualizações em seu Instagram. 

Alvo de ataques 

Rodrigo Paiva via Getty Images
Padre Júlio Lancellotti utiliza máscara em ação em paróquia de São Paulo.

Porta voz do abaixo-assinado que defende o padre, Tabata destaca a importância do papel de Lancellotti para a articulação de políticas públicas de saúde e de moradia, especialmente neste momento de pandemia, em que houve aumento da quantidade de pessoas em situação de rua em São Paulo. Para a socióloga, a cidade trata o morador de rua como um problema de segurança pública e não como questão de saúde ou moradia. 

“A gente acha que ‘incômodo necessário’ é justamente o aumento das pessoas em situação de rua no momento de pandemia; incômodo é ter tanta casa vazia e muita gente nas ruas sem casa, incômodo é saber que essas pessoas estão sendo servidas com comidas azedas dentro dos serviços de atendimento”, comenta Tabara em referência à fala de Covas. “O que incomoda para nós é a desigualdade e não quem combate essas desigualdades.” 

Ainda em março, padre Júlio Lancellotti já se preocupava com o número crescente de pessoas vivendo nas ruas e como elas estariam ainda mais vulneráveis durante a pandemia do coronavírus. Na ocasião, também recorreu a um abaixo-assinado para pedir que a Prefeitura de São Paulo fornecesse álcool gel e acolhesse a população em situação de rua. 

Pressão por providências 

A integrante do movimento Católicas pelo Direito de Decidir entende que, por ser um órgão religioso, não é tarefa da Igreja Católica oferecer um serviço de proteção ao padre. Porém, ela espera que a instituição se pronuncie publicamente sobre o assunto e que apoie trabalhos locais como o de Lancellotti, bem como faça mobilizações dentro de suas comunidades para conscientizar os fiéis sobre o problema da desigualdade social no Brasil.  

“É preciso que a Justiça coloque um serviço de proteção, mas não um serviço policialesco”, pontua Tabata, detalhando que essa ação deve resultar de uma organização entre o Judiciário, o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) e o PopRua (Políticas para a População em Situação de Rua) da prefeitura. 

“Mas também que [a Justiça] cobre os grupos políticos e que faça justiça e saiba de onde vêm essas ameaças. Descobrir quem é esse gabinete do ódio em São Paulo, que acha e se sente autorizado a cometer essas violências, é parte desse processo de justiça que a gente quer cobrar dentro dessa petição”, finaliza a socióloga sobre medidas preventivas.

A Change.org entrou em contato com o arcebispo de São Paulo, o Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, para saber se a Arquidiocese se pronunciaria sobre o assunto. O cardeal comentou apenas que já havia se manifestado. Ao final de uma missa na última quinta-feira (17), Dom Odilo expressou solidariedade e apoio a Lancellotti e ressaltou que conversa constantemente com o pároco sobre as situações que vem enfrentando.

“É preciso ajudar os pobres, colocar-se ao lado deles em vez de xingar, insultar ou ameaçar quem cuida dos pobres. Quem faz isso, ponha a mão na consciência! Se, eventualmente, alguém está querendo tirar alguma vantagem política de atitudes tão detestáveis, tenha a certeza de que será castigado por Deus”, diz trecho do discurso do arcebispo publicado no portal do Semanário da Arquidiocese de São Paulo. 

Ambos abaixo-assinados seguem abertos na plataforma. Procurado, Lancellotti enviou uma mensagem às milhares de pessoas que o estão apoiando: “Gratidão e compromisso na defesa da vida dos descartados e que sobrevivem pelas ruas das cidades”.  

A Change.org também entrou em contato com a assessoria de imprensa do pré-candidato à Prefeitura de São Paulo Arthur do Val. Em nota, ele disse que reitera as críticas sobre o padre, que segundo ele “não permite que haja qualquer discussão racional, por exemplo, sobre a recuperação do Centro da cidade de São Paulo, da região da Cracolândia”.

Mamãe Falei tachou Lancellotti de esquerdista e o acusou de politizar a religião, assim como o movimento CDD. “O que eu vou dizer sobre esse possível apoio ao padre é que é algo natural, afinal, são todos de esquerda. É  um apoio ideológico. Apoiam o padre, assim como o padre apoia o ex-presidente Lula e o PT”, conclui a nota.

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