LGBT
29/06/2019 08:28 -03

Como fãs LGBT ajudaram a construir fenômenos da música como Pabllo Vittar

Engajados em ajudar nos números, fãs acabam encontrando uma motivação extra para impulsionar carreiras de artistas LGBT+.

Mauricio Santana via Getty Images
Legião de fãs foi responsável por impulsionar carreira de Pabllo: os Vittar Lovers.

Não basta berrar na beira do palco, escrever carta quilométrica ou bater ponto na porta de hotel para conseguir uma foto. Fã que é fã quer ver seu ídolo chegar ao topo. Hoje, isso significa bater recordes nas paradas dos tocadores de streaming, virar trending topic no Twitter, explodir as visualizações no YouTube em um flash.

“Sempre tem aqueles grupos de fãs mais unidos que se propõem a alcançar algum objetivo. Principalmente nas primeiras horas de desenvolvimento da música, para ela subir o máximo possível nos charts do Spotify”, conta Lucas Toledo, um dos seguidores mais aguerridos da cantora Pabllo Vittar, usando linguajar técnico do mercado musical.

Ele está falando da prática de ouvir as canções repetidas vezes, inclusive revezando entre perfis, já que o Spotify contabiliza no máximo dez plays em cada música por perfil diariamente. É equivalente ao que fanáticos de décadas passadas faziam, ligando exaustivamente para as rádios e pedindo para tocar sua banda preferida.

“A base de fãs de um artista é fundamental para o start e manutenção de uma estratégia de marketing eficiente”, detalha o coordenador de marketing da Sony Music Brasil, Ricardo Bertozzi. “Em grande parte, é responsável pela promoção orgânica dos lançamentos, e [os fãs] fomentam isso 24 horas pelas redes sociais, fóruns, memes.”

Quando lançou o álbum Não Para Não, em outubro de 2018, Pabllo emplacou todas as dez músicas no top 50 do Spotify Brasil logo na primeira semana – três delas no top 10. O feito rendeu um recorde; era a primeira vez que um artista brasileiro alcançava a façanha.

O produtor musical Rodrigo Gorky, responsável pela carreira de LGBTs como a Banda Uó e a própria Pabllo Vittar, também enfatiza a dedicação dessas pessoas na trajetória de seus apadrinhados. “Acho incrível a força que os fãs dão a cada lançamento. Não estaríamos onde estamos sem eles”, diz.

Lucas afirma que os fãs recebem mensagens carinhosas de agradecimento de Pabllo, e ela própria reconhece a importância de admiradores como ele para uma música virar hit. “Acompanho ela do comecinho até o boom. Eu me assustei também, não porque não esperasse, mas porque aconteceu muito rápido – e eu me sinto parte disso”, conta o fã.

Gênese dos Vittar Lovers

Até aí pode-se imaginar que qualquer clube de adoradores se empenha igualmente para ver os ídolos perseverarem, certo? Mas Ricardo Bertozzi, da Sony, explica por que os fãs LGBT+ não estão na mesma categoria de outros. “A diferença se encontra no impressionante engajamento e paixão, movidos por um elemento a mais de cunho ideológico, para enaltecer artistas capazes de representar e inspirar a diversidade e valores de comunidades do ponto de vista cultural e político.”

Alvo de fake news que vão desde a substituição da estátua do Cristo Redentor por uma imagem sua à história de que seu rosto estamparia notas de reais, Pabllo se tornou um ícone de resistência para muitos jovens LGBT, como Lucas. “O fato de a gente ter a Pabllo nos conforta um pouco porque não estamos sozinhos... Tem alguém lutando e representando a gente, sabe? Uma conquista dela é uma conquista de todos nós”, conta o fã.

A recíproca é verdadeira. Para o DJ Gorky, produtor da artista, os passos e decisões são calculados com tietes em mente. “Nosso maior objetivo sempre foi e sempre será o envolvimento total dos fãs, que são o alicerce”, defende.

Se Lady Gaga tem sua legião de “Little Monsters”, a drag queen com o maior número de seguidores no Instagram mundial reúne seus “Vittar Lovers”. Essas comunidades criadas em torno de divas pop geram o apoio comercial, é verdade, mas também promove a autoestima e aglutinação de pessoas marginalizadas, que se identificam por meio da música.

“O que mais fez com que eu me apegasse à Pabllo foi a representatividade, porque antes dela ser uma drag queen, é um menino gay, como eu. Ela passou pelas mesmas coisas que passei na infância até me aceitar. Ela me entende”, diz Lucas.

“A importância dessa fan base se coloca, assim, a serviço de outro poder da música, que é o da transformação”, conclui o executivo da Sony.