MULHERES
16/11/2019 03:00 -03 | Atualizado 26/11/2019 13:57 -03

Leia trecho exclusivo de 'Os Testamentos', continuação de 'O Conto da Aia', escrita por Margaret Atwood

Em novo livro distópico, Atwood tenta responder à pergunta que deixou em aberto em 1985, frequente entre leitores assíduos: "Como Gilead vai cair?"

Arthur Mola/Invision/AP
Margaret Atwood escreveu o romance mais esperado do ano, "Os Testamentos", que é a sequência de seu clássico "O Conto da Aia" e vencedor do Booker Prize.

“Tem alguma pergunta?”

É assim que Margaret Atwood termina o romance O Conto da Aia, escrito em 1985. Desde então, os fãs mais assíduos e entusiastas de uma distopia que continua assustadoramente atual, se perguntam: “como Gilead caiu, então?”

E agora, 34 anos depois, leitores podem acolher a resposta ― talvez aliviados ― e gritar “bendito seja o fruto” para o mundo. Em Os Testamentos, Atwood salta para 15 anos após o final de seu primeiro livro ― e de ter deixado perguntas em aberto, utilizando-se de três narradoras mulheres para contar essa história.

Dylan Martinez / Reuters
A autora Margaret Atwood lê um trecho de "Os Testamentos" durante o lançamento em uma livraria em Londres, Inglaterra, no final de 9 de setembro.

A escritora disse recentemente à Reuters que não planejou uma continuação da história. Mas que foi inspirada por acontecimentos recentes a repensar a decisão ― sem mencionar o sucesso estrondoso da adaptação do livro para a televisão, que deu ainda mais visibilidade a seu trabalho mundialmente.

“À medida que o tempo passava, ao invés de nos distanciarmos de Gilead, começamos a nos aproximar dele — particularmente nos Estados Unidos”, disse a escritora. “Se vocês olharem as medidas legislativas de uma série de estados dentro dos EUA, podem ver que alguns estão quase lá [em Gilead]. O que estas leis restritivas sobre os corpos das mulheres estão reivindicando é que o Estado seja dono do corpo delas.”

Em maio de 2019, milhares de mulheres foram às ruas em várias cidades dos Estados Unidos protestar pelo direito ao aborto. Isso porque, desde o início de 2019, pelo menos 11 estados aprovaram leis que contrariam a decisão de 1973 da Suprema Corte americana, que autorizou o procedimento em nível federal.

No movimento mais recente, o governador da Louisiana, o democrata John Bel Edwards, assinou uma lei aprovada no legislativo local que proíbe o aborto quando os batimentos do coração do feto já podem ser detectados. Com isso, o estado se junta a Alabama, Missouri, Georgia, Ohio, Mississippi, Kentucky, Arkansas, Indiana, Dakota do Norte e Utah, que também fizeram, neste ano, movimentos para vetar ou restringir o acesso ao aborto no país. 

O aborto é um dos temais mais polêmicos da atualidade e que gera polarização da política não só norte-americana, mas mundial. Em Gilead certamente lutar pelo direito ao aborto seria algo digno de punição, levando mulheres à condenação de more, e quiça ao chamado “muro”. 

Na continuação de O Conto da Aia, a autora traz um enredo tão provocante quanto o do primeiro. E engana-se quem pensa que Offred está ausente. De fato, ela não é citada, não conta nenhuma das histórias ― mas está presente em quase toda a atmosfera do livro de forma quase que fantasmagórica.

David M. Benett via Getty Images
Margaret Atwood e Bernardine Evaristo durante prêmio literário Booker Prize, em 14 de outubro de 2019. Esta foi a primeira vez, em 27 anos, que o prêmio contemplou duas mulheres.

Uma das dificuldades da autora foi exatamente essa: fugir da narrativa de Offred, tão cultuada e que rendeu à obra o título de clássico da literatura moderna. Em Os Testamentos, três vozes ganham corpo nas páginas e se distanciam do imaginário perverso de Gilead. Agora, o estado opressor e teocrático pode ser destruído ― e somente ― por pessoas extraordinárias.

É assim que o leitor conhece Agnes, de 20 anos, que cresceu em Gilead como filha adotiva de um homem importante do Estado; Daisy, de 16 anos, ativista anti-Gilead que mora no Canadá; e tia Lydia, a guardiã controversa das Aias. Elas ganham suas próprias vozes e formam o enredo do livro de Margaret, com destaque para tia Lydia, que conta histórias de “bastidores” e destrincha como é que chegou a um dos cargos mais importantes deste “Estado Novo”.

E foi esta narrativa que rendeu a Margaret Atwood o The Booker Prize. No início de outubro, ela e a escritora britânica Bernardine Evaristo, com Girl, Woman, Other (Garota, Mulher, Outra), ganharam este que é considerado um dos prêmios mais importantes de literatura na atualidade. No Brasil, o livro será publicado pela editora Rocco e tem lançamento previsto para novembro.

O HuffPost Brasil publica com exclusividade o primeiro capítulo de Os Testamentos (leia e tente adivinhar quem é a protagonista):

1

 

O Hológrafo de Árdua Hall

 

Apenas os mortos têm permissão para ter estátuas, mas eu ganhei uma ainda em vida. Eu já estou petrificada.

 

Aquela estátua era um pequeno sinal de agradecimento por minhas várias contribuições, dizia o discurso, que foi lido pela Tia Vidala. Ela fora incumbida dessa tarefa pelos nossos superiores e estava longe de transmitir entusiasmo. Agradeci-lhe com o máximo de modéstia que pude e puxei a corda que desatava o manto que me encobria; ele flutuou morosamente ao chão, e lá estava eu. Aqui em Ardua Hall não se ovaciona ninguém, mas ouviu-se uma discreta salva de palmas. Inclinei minha cabeça em agradecimento.

 

A minha estátua é algo descomunal, como tende a ser toda estátua, e me retrata mais jovem, mais magra e em melhor forma do que tenho estado há tempos. Estou ereta, ombros para trás, meus lábios curvos num sorriso firme, mas benevolente. Meus olhos se fixam em algum ponto de referência cósmico que se presume representar meu idealismo, meu compromisso inabalável com o dever, minha determinação em seguir em frente a despeito de qualquer obstáculo. Não que qualquer parte do céu esteja à vista da minha estátua, plantada onde está, naquele melancólico aglomerado de árvores e arbustos ao lado da trilha de pedestres que passa em frente do Ardua Hall. Nós, as Tias, não podemos ter grandes pretensões, mesmo em forma de pedra.

 

Agarrada à minha mão esquerda há uma menina de sete ou oito anos, mirando-me cheia de confiança. Minha mão direita está apoiada na cabeça de uma mulher agachada a meu lado, de cabelos cobertos, seus olhos voltados para cima em uma expressão que poderia ser lida tanto como amedrontada quanto como grata – uma de nossas Aias –, e atrás de mim há uma de minhas Pérolas, pronta para partir em seu trabalho missionário. Pendendo do cinto que contorna minha cintura está minha arma de choque. Esta arma me lembra de minhas limitações: se eu tivesse sido mais eficiente, não teria necessitado desse acessório. A persuasão da minha voz teria sido suficiente.

 

Como grupo estatuário, não somos um grande sucesso: há elementos demais. Eu preferiria uma maior ênfase na minha pessoa. Mas pelo menos eu pareço estar em meu perfeito juízo. Poderia ter sido bem outro o caso, dado que a escultora idosa – uma crente fervorosa que veio a falecer – tendia a esbugalhar os olhos das modelos para sinalizar devoção. O busto que ela fez da Tia Helena tem ares de hidrofobia, o de Tia Vidala está com hipertireoidismo, e o de Tia Elizabeth parece prestes a explodir.

 

Na inauguração, a escultora estava nervosa. Será que havia me adulado o suficiente com sua escultura? Eu a aprovava? As pessoas iam entender que aprovei? Cogitei franzir a testa assim que o manto caísse, mas achei melhor não: não sou totalmente destituída de compaixão.

 

– Ficou muito realista – falei.

 

Isso foi há nove anos. Desde esse dia minha estátua vem se deteriorando: pombos me adornaram, musgo brotou nas minhas dobras mais úmidas. Devotos adquiriram o hábito de deixar oferendas a meus pés: ovos pela fertilidade, laranjas para sugerir a corpulência da gravidez, croissants em referência à lua. Ignoro os artigos de padaria – geralmente eles pegaram chuva –, mas embolso as laranjas. Laranjas são muito refrescantes.

 

Escrevo essas palavras no meu gabinete particular dentro da biblioteca do Ardua Hall – uma das poucas bibliotecas restantes após as animadas fogueiras de livros que têm ocorrido em nossa terra. As digitais pútridas e ensanguentadas do passado precisam ser expurgadas para deixar uma tábula rasa para a geração moralmente pura que com certeza vai nos suceder. Em teoria, pelo menos, é isso.

 

Mas entre estas digitais sangrentas estão as que nós mesmos deixamos, e estas não são tão fáceis de apagar. Com o passar dos anos enterrei muitos ossos; agora minha vontade é de exumá-los – nem que seja só para te edificar, meu leitor desconhecido. Se você estiver lendo isso, pelo menos este manuscrito terá sobrevivido. Embora talvez eu esteja fantasiando: talvez eu nunca venha a ter um leitor. Talvez eu só esteja falando com as paredes, ou muros, em todos os sentidos.

 

Chega de escrevinhar por hoje. Minha mão está doendo, minhas costas ardendo, e meu copo noturno de leite morno me aguarda. Vou guardar essa arenga no seu devido esconderijo, evitando as câmeras de vigilância – que sei bem onde estão, já que eu mesma as instalei. Apesar dessas precauções, estou ciente do risco que corro: escrever pode ser perigoso. Que traições, e então que acusações, podem estar à minha espera? Há muita gente em Ardua Hall que adoraria se apoderar dessas páginas.

 

Aguardem, aconselho-os silenciosamente: pois vai ficar pior.