OPINIÃO
18/03/2019 07:18 -03 | Atualizado 18/03/2019 07:18 -03

Os finais felizes que o Doutores da Alegria busca dentro de hospitais públicos

"Ainda vemos muitos desafios reais que entram pela porta do hospital e precisam ser enfrentados".

Você já passou por um episódio no hospital? Talvez uma temporada inteira?

Nós colecionamos muitas histórias dentro de hospitais. Algumas dramáticas, outras que parecem ficção científica e até contos de fadas com reis, princesas e bobos da corte.

E se o cenário de todas elas é o hospital público, onde a associação Doutores da Alegria atua em alas pediátricas desde 1991, o roteiro dessas histórias tem um elemento em comum: o reflexo da dura realidade em que vive a maior parte da população do nosso país.

Lana Pinho / Doutores da Alegria
Hospital público atendido pela associação Doutores da Alegria em Recife, Pernambuco.

O Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha, conhecido como Hospital do Campo Limpo, em São Paulo, é um dos locais em que atuamos todas as terças e quintas-feiras. A região atendida pelo equipamento de saúde é uma das mais populosas da cidade, com mais de 1,5 milhão de pessoas, grande parte em situação de vulnerabilidade e risco social. Destas, 26% moram nas 237 favelas localizadas entre as subprefeituras do Campo Limpo e do M’boi Mirim, no extremo sul paulistano.

Além da falta de habitação e saneamento básico, entre os maiores problemas da região estão a violência, a mobilidade e a falta de creches e opções de lazer e cultura para crianças e adolescentes. Um complexo quebra-cabeça que em nada contribui para a promoção da saúde. E os diagnósticos reproduzem a paisagem lá de fora: crianças acidentadas, uma que caiu da laje, outra que foi atropelada por uma moto, outra que a mãe não quis mais, outro que foi violentado, mães muito novas, doenças evitáveis.

Quando histórias como essas se repetem incansavelmente numa mesma região da cidade durante anos a fio, não está na hora de nos perguntarmos se essa parcela da cidade está sendo bem cuidada, observada e protegida com dignidade pelas autoridades responsáveis?

Bem, enquanto palhaços, não temos respostas, brincamos com as perguntas. Mas enquanto artistas e membros de uma organização da sociedade civil que transita pelos campos da saúde, da cultura e da assistência social, temos o dever de buscar caminhos para uma saúde universal que vá além da ausência de doença. E é por meio da arte do palhaço que nos relacionamos de forma muito potente com as crianças hospitalizadas, seus acompanhantes e profissionais de saúde.

Andre Stefano / Doutores da Alegria
Dr. Pinheiro e Dr. Mané Pereira em uma intervenção em hospital público de São Paulo.

Juntos, criamos novos sentidos para a experiência de internação e protagonizamos capítulos de tirar o fôlego, como aquele da garotinha que reclamava de formigamento ao andar e enfrentou as terríveis formigas com a ajuda da Dra. Greta Garboreta. Ou histórias inesquecíveis como a noite em que palhaços, médicas, enfermeiros e enfermeiras levaram o menino para conhecer a lua cheia do jardim do hospital. Dignos de maratona!

Em 27 anos de trabalho, embora fazer brotar alegria em cada quarto seja, para nós, uma conquista próxima a um final feliz, ainda vemos muitos desafios reais que entram pela porta do hospital e precisam ser enfrentados. Com responsabilidade e com maturidade. Com gestão eficiente e com políticas públicas pensadas para todos. 

Nós sabemos que finais felizes habitam mais facilmente a imaginação das crianças, mas não custa tentar.