POLÍTICA
06/04/2019 01:00 -03 | Atualizado 06/04/2019 01:00 -03

'Bolsonaro manterá popularidade porque é única coisa que tem', diz deputado e príncipe

Para Orléans e Bragança, tecnocratas e militares 'não necessariamente representam luta cultural que população quer'.

Cleia Vânia/Câmara dos Deputados
Deputado membro da família real diz que presidente continua a priorizar agenda conservadora para sustentar o apoio popular.

Primeiro membro da família imperial a ocupar um cargo eletivo de projeção nacional desde a proclamação da República, há 130 anos, o príncipe e deputado federal Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PSL-SP) é um dos poucos nomes que seguem defendendo Jair Bolsonaro pelos corredores da Câmara em tempos de crise entre Planalto e Congresso.

Sondado para vice de Bolsonaro durante a campanha eleitoral, o trineto da princesa Isabel vê o presidente como representante de uma “luta cultural” no Brasil - um movimento que incluiria uma série de agendas ideológicas, como o combate a um suposto socialismo e ao que chama de “ideologia de gênero”.

São essas pautas que darão sustentação popular a ele, na avaliação do deputado, e é por isso que Bolsonaro tanto insiste nelas.

Isso é fulcral da proposta dele. Ele vai manter a popularidade até o final do mandato porque é a única coisa que ele tem. Ele não tem a mídia com ele. Não tem partido com ele. Não tem o estamento burocrático com ele. Não tem os grandes empresários com ele”, afirmou Orléans e Bragança em entrevista ao HuffPost Brasil em seu gabinete na Câmara dos Deputados na última quinta-feira (4).

É esse pensamento que sustentou até agora a manutenção de ministros alvos de críticas, como Ricardo Vélez (Educação) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores). “Os tecnocratas, os militares não necessariamente representam essa luta cultural que a população quer”, diz o parlamentar.

De acordo com Orléans e Bragança, a ascensão de integrantes com outro perfil ideológico implodiria o governo “por impopularidade”.

“Se colocar um ministro progressista [na Educação], vai acabar o governo”, opinou, um dia antes de Bolsonaro sinalizar que pode demitir Vélez na próxima segunda-feira

No entanto, o governo Bolsonaro já vê despencar seu apoio popular. Entre janeiro e março, a parcela da população que considera o governo ótimo ou bom caiu de 49% para 34%, segundo o Ibope. É a pior taxa de início de mandato desde o Fernando Henrique Cardoso.

Para Orléans e Bragança, Bolsonaro é refém de “um modelo não está premiando sua honestidade”.

ASSOCIATED PRESS
"O modelo não está premiando a honestidade do Jair Bolsonaro", diz Orléans e Bragança.

Eleito deputado federal em São Paulo pelo partido do presidente, com 118.457 votos, o deputado propõe uma grande reforma política, que inclui adoção do sistema distrital de votação e ressuscita polêmicas dos últimos anos, como o voto em papel e o recall para mandatos políticos, dentre outros pontos.

Sobre o fato de ser um príncipe em meio aos colegas deputados, Orléans e Bragança diz passar por situações curiosas “todos os dias”. Ele também diz entender o maior apoio que o sistema monárquico vem recebendo nos últimos anos, diante da “instabilidade política”. 

“Quando se faz uma avaliação histórica de quais presidente foram os grandes presidentes do Brasil, você olha para trás e não vê referência nenhuma”, diz. “Temos que estabilizar politicamente. E quando tinha estabilidade? No período imperial.”  

Nunca tive isso de 'você é o terceiro da linha sucessória, vai ser o futuro rei'. Nunca cresci com essa expectativa.

 

Leia os principais trechos da entrevista.

HuffPost Brasil: O senhor irá lançar uma frente parlamentar da reforma política e nos últimos anos tem defendido grandes mudanças, incluindo o parlamentarismo e uma redução do poder da União. Até que ponto essa reforma irá comportar tais ideias?

Orléans e Bragança: A frente tem 251 assinaturas, boa parte de deputados federais. Alguns senadores. A ideia e meu propósito de mandato é a gente comandar uma reforma bem ampla na política. Agora é o momento da Previdência, de reformas mais urgentes de estabilização econômica. Mas passando esses 6 meses, começa a surgir essa pauta de reforma política (...).

As propostas envolvem sistema eleitoral. Temos que sair do [sistema] proporcional. Entrar para o majoritário, que seria o distrital.

Temos que ver o próprio sistema de votos. Se vamos continuar com essa maquininha eletrônica, só o TSE, que se comprovou impopular, não é confiável. O voto de desconfiança com relação a essa máquina é total. Vamos ver quais as alternativas: voto em cédula e, até mesmo, voto aberto. Algumas cidades ou estados podem definir.

Teremos também uma série de rigores com relação a recall de mandato. Você poder fazer revogação de mandato via abaixo-assinado. Chamar uma nova eleição.

 

A ideia é reunir as ideias todas em uma PEC?

A estratégia de como fazer cabe ao grupo, porque muitas coisas são de extrema complexidade. São itens que chocam em um momento primeiro.

E temos que criar os limites certos para que ela não crie uma ruptura do sistema.

 

Quais outros pontos dessa reforma?

Tem também a questão da competência, que é muito importante. Tem a competência horizontal: Executivo, Legislativo e Judiciário. Por exemplo, o ativismo judicial que o STF está fazendo. Isso é válido? Vamos aceitar isso? Interfere nos outros poderes? Claro que sim. É uma violação de preceitos básicos de estabilização constitucional (...) e as competências verticais, de União, estados e municípios - temos de rever também.

ASSOCIATED PRESS
"Eu pensei: 'Eles todos estão se mobilizando contra esse governo e eu preciso fazer alguma coisa'.", diz Orléans e Bragança sobre impeachment.

Seria o caso de uma nova Constituição então?

Pois é. Muita coisa aqui vai ser sujeito a emenda constitucional. Eu acho mais fácil uma nova Constituição, mas não confio numa nova constituinte, porque o sistema é proporcional. Você vai estar elegendo [os representantes da assembleia constituinte] através de um sistema que é falho.

 

O senhor tem conversado com líderes e com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), sobre essas propostas?

A articulação está sendo feita com outros deputados e alguns senadores.

 

De que forma a ‘nova política’ pode funcionar para conseguir aprovar a reforma da Previdência?

É um modelo presidencialista, em que todo controle de orçamento e cargos nominativos da máquina pública está na mão do Executivo. E o Parlamento não representa o Executivo. É fragmentado. Nessa fragmentação, os que são destoantes do partido governista vão se unir contra o governo para pedir alguma coisa que o governo tem.

Fica essa troca que, na minha opinião, é ruim para o sistema. É uma característica. Não é um defeito do Jair, da Dilma, do Lula. Todos tiveram que lidar com essa situação.

Como o Jair está lidando com isso? Ele falou: ‘Não vou fazer troca nenhuma. Quero botar um ministério técnico, meritocrata, que possa fazer uma boa gestão porque é meu nome que está na linha. Não quero botar um político para comandar orçamento’.

A população quer ver uma luta cultural, ver sua própria família protegida. Não quer ideologia de gênero. Não quer essa política socialista aplicada nos últimos 100 anos

O senhor falou sobre indicações técnicas para ministérios, mas ministros cujas indicações são atribuídas ao escritor Olavo de Carvalho têm sofrido muitas críticas, como o ministro da Educação, o chanceler. É necessária uma troca ou mudança de funcionamento nessas pastas?

Sim. Se, por acaso, tiver deficiência administrativa, tem de haver não necessariamente uma troca, mas incorporação de quem possa ajudar. Nenhum ministro deve estar descasado com a missão que o presidente está representando.

Existe um grande movimento de base, de luta cultural. E o único representante no Executivo que vai representar essa luta cultural é o Jair Bolsonaro. Os outros não representam. A imprensa não entende isso.

 

O presidente consegue unir essa representatividade popular e conseguir governar?

Esse é o grande desafio dele. Os tecnocratas, os militares não necessariamente representam essa luta cultural que a população quer. Há uma dissonância. A população quer ver uma luta cultural, ver sua própria família protegida. Não quer ideologia de gênero. Não quer essa política socialista aplicada nos últimos 100 anos.

De repente você tem um tecnocrata que aprova aborto, favorável a uma série de ideologias impostas de fora para dentro, como a ideologia de gênero… a família brasileira brasileira está falando ‘pelo amor de Deus, não é por isso que elegi o Jair Bolsonaro’.

ASSOCIATED PRESS
"A base conservadora que está implodindo a mídia é o que elegeu Jair Bolsonaro", diz Orléans e Bragança.

 

O senhor está falando de quem?

Tem vários tecnocratas aí, contrários a essa pauta popular e eles vão perder sustentação popular. Se você é contrário ao governo, promoveria mais tecnocratas progressistas. Coloca o cara lá que o Temer ia usar. Coloca o cara que o Lula usava, o ministro da Dilma. Implode o governo por impopularidade.

O Guedes é liberal e a base é liberal. O Vélez é pró-família, pró-conservadorismo e a base é conservadora. O ministro das Relações Exteriores é mais nacionalista, menos globalista e a base é nacionalista, é contra globalismo. Essas três coisas são fundamentais. Entendendo que a base é essa, você vai entender a dinâmica do que está acontecendo e as decisões que ele [Bolsonaro] tem tomado.

Se for para manter o Vélez, tem de colocar bons administradores ajudando. Se não, botar um outro [ministro] como o Vélez. Se colocar um ministro progressista, vai acabar o governo.

 

Mas como fazer o governo funcionar dessa maneira? O Ministério da Educação é responsável por áreas que não têm relação com a agenda de costumes, como alfabetização, e não há avanços em três meses de governo.

Se for para manter o Vélez, tem de colocar bons administradores ajudando. Se não, botar um outro [ministro] como o Vélez. Se colocar um ministro progressista, vai acabar o governo. A cultura, a educação têm sido atacadas. Isso é fulcral da proposta dele. 

Ele vai manter a popularidade até o final do mandato porque é a única coisa que ele tem. Ele não têm a mídia com ele. Não tem partido com ele. Não tem o estamento burocrático com ele. Não tem os grandes empresários com ele. Não tem nada com ele. Só tem a popularidade.

 

O senhor é o primeiro membro da família imperial a ocupar um cargo eletivo de projeção nacional desde a proclamação da República, em um cenário de aumento da popularidade do sistema de monarquias. O senhor acredita que esse fenômeno é resultado da descrença dos brasileiros com a classe política?

Sim. A instabilidade política que a gente vive, o descrédito que o atual modelo aufere aos seus representantes não condiz com sucesso.

E quando se faz uma avaliação histórica de quais presidente foram os grandes presidentes do Brasil, você olha para trás e não vê referência nenhuma. É um problema das pessoas? Aí que entram as narrativas destrutivas da sociedade, de que o brasileiro é despreparado, que em 130 anos nunca conseguiu um bom presidente. Os ex-presidentes são ou tiranos, ou populistas, ou patrimonialistas, ou oligárquicos.

Não teve nenhum grande estadista que levou a população e elevou o país de patamar de uma maneira sustentável (...) Na verdade é uma simples questão de modelo. Temos que estabilizar politicamente. E quando tinha estabilidade? No período imperial.

 

Como é o tratamento em Brasília, por ser da família real? Passou por alguma situação curiosa?

Tem todo dia. Está crescendo diariamente isso. Eu vejo do ponto de vista do trato com a mídia. Há 20, 30 anos atrás, a mídia dava risada. Era um escárnio porque era um movimento pequeno e a população não tinha acesso como tem hoje. Com a internet, driblou a mídia. Tem um fluxo direto de informação entre nós e a população.

Reprodução/Facebook
"Nunca tive isso de 'você é o terceiro da linha sucessória, vai ser o futuro rei'. Nunca cresci com essa expectativa", diz Orléans e Bragança.

Em 2014, o senhor fundou o movimento Acorda Brasil, a favor do impeachment de Dilma Rousseff. Foi aí que iniciou sua atuação política?

Sim. Eu nunca tive a infância com a família impondo essa coisa, até porque meu pai já tinha renunciado.

Com 15 anos, fiz o primeiro estágio na Itautec. Fui trabalhar no mercado financeiro com 18 anos. Tive uma vida de classe média alta, com muito acesso a tudo o que precisava. Como eu diria? Tive uma vida acadêmica e profissional muito privilegiada. Eu nunca naveguei esse outro lado, da tradição da família.

Quando eu comecei a ser ativista, comecei porque a minha realidade econômica e de amizades, que não era de monarquistas, mas pessoas do mercado financeiro, pequenos empresários, advogados, todos estavam indignados. Essa era a minha trupe. Eu pensei: ‘Eles todos estão se mobilizando contra esse governo e eu preciso fazer alguma coisa’.

 

O senhor chegou a ser sondado para vice de Bolsonaro na campanha. Como avalia a atuação do general Hamilton Mourão?

O general Mourão tem opinião política própria. Tem voz própria. É uma pessoa intelectual, culto, extremamente preparado.

Todos generais são estadistas. Reconstroem o País, se for necessário. Eles têm, como eu diria, as ferramentas para fazer essa reconstrução, em caso de implosão nacional.

E sobre as discordâncias com o presidente?

Politicamente ele não está 100% alinhado com o Jair. Não é um problema. É uma característica. 

 

O senhor tem contato com o presidente? E com os filhos dele?

Com o Jair Bolsonaro, desde a época da seleção para vice, eu não tenho contato. Depois estive na casa do filho dele, ainda durante a eleição. Na casa do Carlos Bolsonaro. Foi a última vez que eu conversei brevemente, interagi pessoalmente.