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04/09/2019 03:00 -03 | Atualizado 29/10/2019 12:22 -03

Brigadeiro: Como a criação do amado doce brasileiro é marcada pela política

Antes de se tornar figurinha carimbada em qualquer festinha infantil do País, o docinho teve uma ligação direta com a política nacional na década de 1940.

Chocolate em pó, manteiga, leite condensado e granulados de chocolate. Eis uma combinação sem erro ― e um docinho perfeito para angariar recursos para a campanha de Eduardo Homes, candidato à Presidência da República em 1945 e brigadeiro da aeronáutica. 

Sim, a criação do brigadeiro, genuinamente brasileiro e indispensável em qualquer festinha infantil, tem uma ligação direta com a política nacional da década de 1940.  

Poly Isepan via Getty Images
Chocolate em pó, manteiga, leite condensado e granulados de chocolate: eis uma combinação sem erro.

Em 1945, quando a 2ª Guerra Mundial tinha chegado ao fim e a capital do Brasil ainda era o Rio de Janeiro, o País restaurava sua democracia e tinha uma corrida presidencial após 15 anos da ditadura de Getúlio Vargas.

Os principais candidatos para esta eleição eram o general Eurico Gaspar Dutra, do Partido Social Democrático, que recebeu o relutante apoio do antecessor, e o brigadeiro Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional, que contava com a simpatia da classe média e elite brasileira. 

Para angariar apoio e donativos para a campanha presidencial de Gomes, que era bem apessoado e tinha como slogan “Vote no brigadeiro, que é bonito e solteiro”, as senhoras de São Paulo organizavam chás e festas, onde vendiam docinhos. 

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“Vote no brigadeiro, que é bonito e solteiro” era o slogan do candidato brigadeiro Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional.

Entre os quitutes que encantavam o público se destacava um feito com leite condensado e chocolate em pó, apelidado de “docinho do brigadeiro”. Com o tempo, o “docinho” desapareceu e se tornou apenas brigadeiro ― e poucos que sabem de sua história. 

Diz a lenda que a criadora foi Dona Heloisa Nabuco de Oliveira, uma das senhoras do fã clube de Gomes. “Ela levou esse doce e deu o nome de brigadeiro, para homenageá-lo. E daí foi esse sucesso que a gente não entendeu”, contou a filha dela, Ida Nabuco de Oliveira. “Foi uma surpresa porque ela fazia doces muito mais elaborados, mas foi esse que estourou.”

O encanto pelo doce, contudo, não foi páreo para garantir a vitória de Gomes. Dutra, que tinha apoio de getulistas e da classe trabalhadora, arrematou 55% dos votos, enquanto Gomes não chegou a 35%. 

Apesar da história curiosa, ela é contestada por outros contos. O livro do Brigadeiro, da doceira Juliana Motter, conta uma outra lenda, a de que, antes de se chamar brigadeiro, o doce se chamava negrinho.

“Tudo indica que ele teria sido inventado no Rio Grande do Sul, possivelmente por uma dona de casa muito loira que achou exótica a cutis marronzinha do doce”, escreveu Motter. “O Rio Grande do Sul é o único estado brasileiro que ainda chama brigadeiro de negrinho.”