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18/09/2020 06:27 -03

Como derrotar Maduro se a oposição venezuelana tem uma briga interna interminável?

Capriles quer participar das eleições legislativas, e Guaidó, não. Assim é a vida dos adversários do regime chavista: dividida por ideologias, lideranças e apostas.

YURI CORTEZ via Getty Images
Henrique Capriles e Juan Guaidó se abraçam em Caracas em um ato realizado pela oposição em março de 2019.

Olhe o abraço da foto acima. A alegria, a camaradagem, a união. Não se vê mais nada disso entre o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, e Henrique Capriles, líder do partido Primero Justicia. Um, reconhecido por quase 60 países como o legítimo presidente do país. O outro, duas vezes candidato à presidência contra o chavismo. Agora, em um momento chave, eles são o retrato da desunião da oposição venezuelana, a apenas três meses das eleições legislativas de 6 de dezembro.

Não é novidade. Os adversários de Hugo Chávez, primeiro, e Nicolás Maduro , depois, lutam há décadas, sem sucesso, contra os inquilinos do Palácio Miraflores. Por que não juntam suas forças?

Vamos do presente ao passado. A briga Guaidó-Capriles de hoje em dia. O cisma surgiu quando Maduro convocou eleições legislativas para o final do ano. No início de agosto, o bloco de oposição de 27 partidos que têm representação parlamentar na Assembleia Nacional anunciou que não participaria do pleito por se tratar de uma “fraude eleitoral” sem garantias. No entanto, um mês depois, Capriles defendeu a participação nas eleições. Ele continua acusando Maduro de trapaças, controles e vetos, mas entende que é hora de aproveitar as poucas oportunidades que surgem e, copiando o modelo da Polônia (1989) ou do Chile (1988), candidatar-se e vencer. 

“Se tem uma abertura, temos de enfiar a mão e depois o pé, para que a porta não se feche”, disse Capriles em um post muito comentado nas redes sociais. Suas negociações secretas com o círculo de Maduro obtiveram a libertação de mais de cem prisioneiros políticos de todo o espectro ideológico. Suas palavras foram o ponto culminante desse movimento do Executivo.

Guaidó respondeu que “Capriles tenta validar a fraude eleitoral de Maduro” e que essa atitude significa ceder, reconhecer um “ditador” entregar de bandeja a vitória ao partido no poder. “Traidor” é uma palavra que sobrevoa seus discursos, embora ele ainda não a tenha pronunciado. Neste momento, está em jogo o poder da Assembleia comandada por Guaidó.

Sua visão continua sendo compartilhada por uma base significativa de dissidentes, mas, nos últimos dias, a Igreja Católica e os empresários se aliaram majoritariamente a Capriles e sua “pequena abertura”. A eles se soma outro adversário de destaque, Stalin González. Pesquisas ― da Datanalisis e da Delphos ― indicam que apenas um terço dos cidadãos acredita que o boicote total defendido por Guaidó seja a resposta correta.

Diante disso, o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, insiste que “uma eleição parlamentar injusta e sem liberdade só vai aprofundar a crise na Venezuela” e adverte que quem pensa o contrário “deve considerar-se avisado”. Os europeus veem com bons olhos a libertação de presos políticos e já receberam uma carta de Maduro pedindo a presença de observadores internacionais para garantir a transparência das eleições. Josep Borrell, chefe da diplomacia da União Europeia, diz que esse é um passo na direção certa e estuda a oferta. 

Por que a união é tão difícil

“Houve anos de verdadeira unidade, mas ela é tremendamente complicada porque trata-se de uma soma de vários grupos muito diferentes e com lideranças diversas”, resume o americanista Sebastián Moreno. Agora, diz ele, “o moral está baixo” porque há um ano e meio Guaidó deu um soco na mesa, impulsionado, entre outras coisas, pelo apoio dos Estados Unidos, e a força se esvaiu.

“Algumas coisas não saíram como planejado: a Operação Libertad e o golpe que colocou os militares contra Maduro, por exemplo, ou mesmo os desentendimentos internos da equipe de Guaidó em assuntos delicados como ajuda humanitária. O apoio de fora não tem sido suficiente”, diz Moreno.

Em janeiro de 2019, Guaidó liderou uma soma de esforços nunca antes vista no país, seguida de protestos, greves, movimentação do Exército, além de novas sanções e mais descrédito internacional. Mas esse ímpeto perdeu o fôlego ― por causa dos problemas de Guaidó, por causa do desinteresse dos Estados Unidos e por causa do coronavírus, que fez com que todos os países voltassem suas atenções para dentro de suas fronteiras.

Agora, a sensação é de que a Venezuela esteja num “beco sem saída”. “Embora não haja garantias de um processo justo, é compreensível que alguém como Capriles aposte num ataque por dentro do regime, com as poucas armas que lhe restam”, afirma o professor.

Os primeiros passos da oposição coordenada remontam a 2005, quando os adversários do regime decidiram não se candidatar a outras eleições legislativas porque não havia garantias de voto secreto e a expectativa era de fraude generalizada. Altamente dividida, a oposição continuou a atuar de maneiras diferentes, mas, um ano depois, passou a promover um projeto comum que se concretizou em 2008, com o nascimento da MUD (Mesa da Unidade Democrática), uma coalizão que agregou ao socialismo democrático os progressistas, os católicos e os social-democratas.

Em 2012, decidiu-se, nas primárias, que o candidato presidencial do bloco seria Henrique Capriles. Ele não teve sucesso, mas alguns meses depois chegou perto contra Maduro, após a morte de Chávez. O auge da aliança veio nas eleições legislativas de 2015, quando a MUD impôs a pior derrota ao chavismo e ganhou controle do Parlamento. A MUD conquistou 112 de 167 parlamentares, algo histórico, e ficou com a presidência da casa, hoje representada por Guaidó.

“Mas, sem eleições presidenciais à vista, o bloco não consegue manter-se unido, e ficam evidentes as diferenças entre os partidos e a falta de um líder único que os una”, diz Moreno. “É muito difícil lutar contra a máquina que pressupõe que Maduro controle o território, as instituições, os recursos, o exército e a polícia”, acrescenta ele. Considere a seguinte informação: dos 112 deputados, hoje restam no bloco único 88, porque os outros foram abandonando a coalizão, se posicionando como independentes ou até mesmo se aliando a Maduro.

A possível formação de um estado paralelo e o diálogo com o governo têm sido outros motivos de atrito nas fileiras da oposição. Nos últimos anos, várias tentativas de reaproximação, sobretudo as patrocinadas pela Noruega, deram em nada, não só pela postura inflexível que denunciam em Maduro, mas pela própria confusão interna dos opositores do regime, que não sabem que princípios essenciais defender.

“Disparidade de opiniões, sensibilidades e ideologias, diferenças entre os dirigentes novos e os da velha guarda ― Henry Ramos Allup ou Julio Borges ―, diferentes status entre os presos e inelegíveis, como o próprio Capriles ou Leopoldo López ―, tensões entre os oponentes que seguem no país e aqueles no exterior, muitos deles na Espanha, divergências quanto à intervenção de potências externas, problemas internos de cada partido... São muitos fatores”, finaliza o especialista.

O que pode acontecer

Como indica um relatório do International Crisis Group (ICG) sobre os efeitos do fenômeno Guaidó, “o tempo foi particularmente duro com a oposição”. “Apesar de ter havido sinais de uma intervenção militar americana (e um levante militar fracassado em 30 de abril de 2019), bem como sanções cada vez mais rígidas e um colapso econômico que provocou o êxodo de mais de 4,8 milhões de venezuelanos, Maduro não cedeu.” 

O documento afirma que “as previsões da oposição e dos Estados Unidos de que as Forças Armadas desertariam sob pressão externa se provaram falsas” e isso resultou num fortalecimento do chavismo. O ponto máximo foi 5 de janeiro, com a tentativa de remover Guaidó de sua posição formal como presidente da Assembleia Nacional, minando assim suas pretensões à presidência interina”. Criou-se uma bicefalia e, no fim das contas, perderam força Guaidó e parte de seu bloco, que se mostrou excessivamente dependente dos Estados Unidos.

Em artigo de julho passado, os analistas Abraham F. Lowental e David Smilde escreveram no New York Times que é hora de reconhecer que a Venezuela está presa no “fundo do poço” e o que resta é aproveitar as brechas deixadas pelo regime. “A oposição democrática ao regime autoritário de Nicolás Maduro precisa basear estratégia e tática em uma compreensão lúcida das realidades concretas, sem autoengano. Não ajuda à oposição subestimar o compromisso dos militantes do chavismo com sua própria visão da Venezuela, nem ignorar o apoio que este movimento ainda detém junto a um setor da sociedade”, afirmam os especialistas norte-americanos. 

Lowental e Smilde acrescentam que os adversários têm de fortalecer sua visibilidade, mostrar mais capacidade de organização, buscar experiências mais práticas de gestão ou de oposição nas instituições (porque não virão “milagres” do exterior) e lutar por medidas concretas que melhorem a vida dos cidadãos, pedindo, por exemplo, um relaxamento das sanções contra Caracas ou exigindo a entrada de ajuda humanitária, desde que não seja uma concessão a Maduro, mas sim um alívio para os venezuelanos.

O ICG acrescenta que há “espaço” para a união, mesmo que seja uma união diversa e formada à força, e também condições para negociar com Maduro. Se esse for o caminho escolhido, três passos são essenciais: um “palco imparcial para as eleições parlamentares e depois presidenciais”; um “abrandamento progressivo das sanções à medida que haja avanços no plano político”, pois elas penalizam toda a população; e “garantias legalmente consagradas para tentar mitigar os temores do eventual lado perdedor”.

Mais um outono quente se anuncia para a Venezuela, devastador para alguns e emocionante para outros. E, no meio, estão os venezuelanos.

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Espanha e traduzido do espanhol.

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