ENTRETENIMENTO
22/06/2019 01:00 -03

'Olhos que Condenam' e os 5 homens negros massacrados pela opinião pública nos EUA

Para a diretora Ava DuVernay, ver os homens assistirem a si mesmos nesta minissérie foi um dos melhores momentos de sua carreira.

Raymond Santana. Kevin Richardson. Antron McCray. Yusef Salaam. Korey Wise. São os nomes de homens que eram garotos de 14, 15 e 16 anos quando foram roubados: de sua infância, de sua inocência, de um julgamento justo.

Ava DuVernay relata a história dolorosa dos chamados “Cinco de Central Park”, ou Central Park Five, em sua série recém-lançada no Netflix, Olhos que Condenam (When They See Us). E, pela primeira vez, essa história está sendo contada desde o ponto de vista dos cinco adolescentes cuja vida foi virada do avesso por um sistema de justiça e uma mídia ansiosos por demonizá-los (“90% dos artigos escritos naquela época não usaram a palavra ‘supostos’”, destaca a diretora). DuVernay capta de modo poderoso e inteligente algo que por décadas foi negado aos cinco homens.

“Senti a história muito profundamente a partir do momento em que os conheci”, disse a diretora ao HuffPost. Ela conta que sua relação com Santana começou quando eles conversaram pelo Twitter. “Eles me pediram para pensar na possibilidade de relatar sua história. Olhar nos olhos deles e ouvir sua história – me recordo de ter conversado com eles, olho no olho, e enxergado o menino que ainda existia dentro de cada um. Consegui enxergar o adolescente dentro de cada um que se perdera de alguma maneira.”

DuVernay diz que passou muito tempo pesquisando e ruminando se ela era ou não a pessoa certa para narrar a história deles. Pesquisando processos judiciais e a cobertura do caso feita pela imprensa e conversando com os homens, ela se deu conta: a história deles estava em suas mãos.

“Eu queria não apenas contar a história deles – queria arrasar”, ela ressaltou. “Queria dar tudo o que eu tinha a esse projeto. Senti que era um projeto que eu estava destinada a fazer, porque tudo que eu tinha feito até então me conduzira a isso.”

No fim da tarde de 19 de abril de 1989 um bando de rapazes entrou no Central Park de Nova York na esquina da 110th Street e Quinta Avenida – cerca de 30 adolescentes ao todo. Entre eles estavam os teens negros e latinos que acabariam ficando conhecidos como os Cinco de Central Park. Mais ou menos na mesma hora, uma mulher branca de 28 anos, Trisha Meili, entrou no parque na altura da 84th Street com Quinta Avenida para correr.

Naquela noite a polícia recebeu a informação de que alguns garotos estavam assediando e agredindo um transeunte homem. Os policiais prenderam vários rapazes, incluindo Richardson e Santana. Mais tarde nessa noite, Trisha Meili foi espancada e estuprada brutalmente na trilha 102nd Street Cross Drive, onde estava correndo. Quando ela foi encontrada, viva mas gravemente ferida, a polícia vinculou o ataque contra ela aos teens negros e latinos no parque e deteve mais rapazes para serem interrogados, incluindo McCray, Wise e Salaam.

Atsushi Nishijima/Netflix
Ava DuVernay dirige Jharrel Jerome, que faz o papel de Korey Wise em Olhos que Condenam.

Usando ameaças e manipulação, os detetives arrancaram confissões dos cinco adolescentes, que as retiraram mais tarde, diante do tribunal. Mas, antes de serem levados à Justiça, o tribunal da opinião pública já tentara devorá-los, tachando-os de estupradores, interpretando erroneamente a palavra “wildin’” (usada no vernáculo afro-americano para indicar algo como “se soltar”) como tendo um sentido sinistro, e passando por cima do fato de que eles eram essencialmente adolescentes. Em 1989, Donald Trump publicou anúncios pagos em vários jornais de Nova York pedindo a pena de morte para os rapazes.

Santana, Richardson, McCray e Salaam foram julgados como menores de idade, condenados e sentenciados a cinco a dez anos de prisão. Wise foi condenado como adulto e recebeu pena de cinco a 15 anos de prisão.

Esses rapazes foram roubados. Eles não são uma anomalia, e essa não é uma história apenas de negros ou latinos. É a história americana – a versão atual das leis discriminatórias de Jim Crow.

Em 2002 as condenações dos cinco acabaram sendo revogadas por um juiz – não porque a Justiça tivesse reconhecido o erro por conta própria, mas porque outro detento havia confessado a autoria do crime. Em 2014, após uma batalha legal prolongada, a prefeitura de Nova York encerrou um processo por direitos civis com um acordo e deu US$40 milhões aos Cinco de Central Park.

“Dá para imaginar algo desse tipo acontecendo hoje, em Nova York”, disse DuVernay ao HuffPost. “Não é difícil imaginar que haja cinco garotos negros ou morenos sendo interrogados neste momento por alguma coisa que aconteceu perto de onde eles estavam, mas com a qual eles não tiveram nada a ver. E a polícia os prende por conta de quem eles são. Enquanto isso, os rapazes brancos do outro lado do parque não são barrados por causa de quem são.”

Atsushi Nishijima/Netflix
Asante Blackk no papel de Kevin Richardson em Olhos que Condenam.

Um em cada três homens negros e um em cada seis homens latinos passarão tempo na prisão em algum momento de sua vida. Os Cinco do Central Park, vítimas de um sistema injusto, reforçaram essa estatística antes mesmo de chegarem à idade adulta.

Uma razão disso é o perigoso processo de “adultificação” de meninos negros e morenos. A partir dos 9 anos de idade, meninos negros são vistos como sendo mais velhos e menos inocentes que seus pares brancos. Segundo pesquisa publicada pela American Psychological Association, isso é fruto de uma história de estereotipagem racista que leva esses meninos a serem vistos como perigosos. É uma história que antecede de longe o linchamento de Emmett Till e que continua a atingir homens e meninos negros e morenos, incluindo Trayvon Martin, Tamir Rice, Jordan Edwards e incontáveis outros, além de mulheres e meninas negras.

Jharrel Jerome, o ator de 22 anos que faz o papel de Korey Wise tanto adolescente quanto adulto, disse que teve dificuldade inicialmente em imaginar como era Wise quando menino, porque não existiam imagens públicas dele como criança. Jerome passou bastante tempo com Wise no Harlem, onde Wise cresceu, para conhecer esse lado dele.

“Se você for online, não encontrará vídeos de Korey menino, sorrindo, flertando com uma garota, se divertindo com um amigo. Você apenas o vê sentado atrás de uma mesa, com uma lata de Pepsi diante dele, tremendo e apavorado”, disse Jerome ao HuffPost, aludindo à fita de vídeo da confissão coagida de Korey Wise. “Então eu tive que tentar imaginá-lo criança. Esse menino ainda está presente nele hoje. O Korey de 16 anos vive dentro do Korey de hoje. Ele ainda curte hip-hop, ainda usa roupas de cores que combinam. Ele ainda tem aquela mentalidade, porque ele sente que recuperou sua vida e quer permanecer naquele momento onde estava [antes de ser preso].”

Embora o caso desses cinco homens seja de décadas atrás, eles, os atores e DuVernay têm plena consciência de que a crise urgente de policiamento violento nas comunidades negras continua.

“Brett Kavanaugh [juiz da Suprema Corte] pode dizer que o que fez foi apenas ‘brincadeira de garotos’, mas essa frase não se aplica a garotos como Yusef, Raymond, Kevin, Antron e Korey”, falou DuVernay. “Enquanto isso continuar a ser provável e possível, como é totalmente o caso hoje, este tipo de história é sempre relevante. E precisamos continuar a encontrar espaço para contá-la.”

Em Olhos que Condenam, DuVernay apresenta a história dos cinco homens desde o ponto de vista deles, destacando sua inocência, sua humanidade e sua resiliência enquanto sofreram a dor que lhes foi imposta. Ela disse que foi uma honra contar as histórias deles e assistir à série com eles, dizendo que isso foi “um dos melhores momentos de minha carreira”.

“Pude me sentar atrás dos homens que viveram a história na vida real, eles assistiram à série e então se voltaram para mim e me disseram: ‘Você conseguiu. Você acertou. Obrigado.’ O que mais eu preciso?”, disse a cineasta ao HuffPost.

“Foi um processo que levou quatro anos. Tudo o que eu queria é que eles sentissem que foram respeitados, que foram vistos e reconhecidos. Essa foi minha meta. E estou feliz com o resultado.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.