ENTRETENIMENTO
01/07/2019 07:21 -03

‘Olhos que Condenam’: Trump paira como uma nuvem carregada na minissérie da Netflix

Caso de estupro de uma corredora no Central Park é uma reflexão sobre a natureza das narrativas raciais que vem na hora certa.

Rolling Stone
Yusef Salaam (Ethan Herisse) e sua mãe (Aunjanue Ellis) em Olhos que Condenam.

As imagens de Donald Trump somam menos de 1 minuto de tela em Olhos que Condenam, nova minissérie dirigida por Ava DuVernay para a Netflix sobre o estupro de uma corredora no Central Park, em 1989. Mas sua presença, estranhamente, paira como uma nuvem carregada sobre os quatro episódios da produção. Ao que tudo indica, foi uma decisão consciente da direção.

No segundo episódio, os adolescentes Raymond Santana, Korey Wise, Antron McCray, Kevin Richardson e Yusef Salaam estão presos há seis meses pelo espancamento e estupro de Trisha Meili, 28, quando ela corria no Central Park. Em uma loja de conveniência, a mãe de Korey, Delores (interpretada por Niecy Nash), assiste a uma imagem granulada de Trump, então apenas um empresário do ramo imobiliário, que afirma: “Pode acreditar quando digo que odeio as pessoas que pegaram essa menina e a estupraram brutalmente”.

Em seguida, aparece uma imagem do anúncio de página inteira que Trump comprou nos jornais da época, pedindo a execução dos cinco rapazes. “TRAGAM DE VOLTA A PENA DE MORTE, TRAGAM DE VOLTA A POLÍCIA”, diz o anúncio, que lembra o estilo do presidente Trump no Twitter atualmente. Delores assiste a tudo horrorizada – Trump está falando do filho dela, de apenas 16 anos, preso na penitenciária da ilha Rikers, esperando julgamento.

Mais tarde, vemos mais imagens de Trump na época. A mãe de Yusef, Sharone (Aunjanue Ellis), assiste a uma entrevista em que o hoje presidente dos Estados Unidos afirma: “Se estivesse começando hoje, adoraria ser um negro com boa educação, porque realmente acredito que eles têm uma vantagem real hoje em dia”.

A disparidade das palavras dele com a realidade é chocante – falando das potenciais vantagens dos jovens negros ao mesmo tempo em que pede a execução de cinco deles, alimentando a máquina planejada para impedir que eles tenham as supostas vantagens que ele menciona.

Não é o Trump em si, mas o pensamento “trumpiano” e a abordagem “trumpiana” da questão da raça que assombram Olhos que Condenam. É uma abordagem na qual uma boa narrativa é melhor que a verdade. Frases feitas têm mais peso que os fatos, e as contradições são ignoradas solenemente. É uma abordagem que, no fim das contas, resultou na prisão e na condenação injustas do grupo que viria a ser conhecido como Os Cinco do Central Park.

Essa é a ideia central de Olhos que Condenam, que, além de contar o drama dos cinco jovens e suas famílias, examina a natureza da construção de uma narrativa.

DuVernay transita agilmente entre o real e o falso. No primeiro episódio, vemos Korey (Jharrel Jerome) se preparando para confessar a autoria do crime. A cena dele hesitando ao contar a história que lhe fora ditada pela polícia é justaposta a imagens do espancamento que ele sofreu pelas mãos de um detetive.

Em outra cena, Raymond faz sua confissão forçada para um policial, que lhe pergunta o que ele estava fazendo enquanto via os outros rapazes atacando Meili.

“Ninguém vai acreditar que um menino como você fosse ficar só olhando”, diz o policial. “Você tem de se incluir.”

Depois, os detetives, liderados pela procuradora assistente Linda Fairstein (Felicity Huffman), criam uma linha do tempo do que aconteceu na noite do crime. Eles tentam ligar o crime a uma série de ataques ocorridos na noite de 19 de abril de 1989 e atribuídos a um grupo de cerca de 30 jovens negros. Mas eles logo se dão conta de que os rapazes que eles afirmam ser responsáveis pelo estupro não poderiam ser parte desse grupo, já que também os acusam de atacar ciclistas do outro lado do parque na mesma hora em que estariam cometendo o estupro.

“Talvez mudemos a hora do estupro para 21h20?”, sugere um dos detetives, para que a linha do tempo funcione. “Talvez ela tenha parado para amarrar o tênis?”

Outro detetive expressa dúvidas. “É tempo suficiente para que tudo isso tenha acontecido?”

“Bom, aconteceu”, diz Fairstein. “Então obviamente foi tempo suficiente.”

A declaração dela é emblemática por dois motivos. Primeiro, mostra a necessidade de fazer a narrativa se conformar ao seu viés. Depois, porque prova que essa necessidade tem implicações profundas na vida real – Fairstein queria que a culpa dos rapazes fosse real, e portanto, ela era. Em nosso clima racial e político, desejar e aceitar que certas coisas sejam verdade é algo muito comum.

Uma demonstração disso é o presidente Trump afirmando que “ambos os lados” tiveram culpa no confronto entre neonazistas e manifestantes em Charlottesville, em agosto de 2017, que acabou com a morte de Heather Heyer, 32.

Outra demonstração são as acusações de que o jogador de futebol americano Colin Kaepernick tenha protestado contra a bandeira e os militares de seu país. Kaepernick ajoelhou-se durante a execução do hino antes das partidas de sua equipe, o San Francisco 49ers, para protestar contra a violência policial.

Ainda uma outra mostra desse fenômeno é a mídia questionando o caráter de negros como Trayvon Martin, Mike Brown e Stephon Clark – todos mortos a tiros pela polícia. Essa manipulação da verdade vira nossa realidade.

O que é mais profundo e mais triste em Olhos que Condenam é que a série funciona como um lembrete da resiliência das narrativas. Dez anos se passaram até que os cinco rapazes fossem desvinculados do crime. Dez anos de trauma, gaslighting e de perpetuação de uma narrativa falsa, que tornou-se real perante os olhos dos Estados Unidos.

E, ainda assim, o país que eles deixaram quando foram condenados e para o qual voltaram depois de libertados era essencialmente o mesmo – talvez ainda pior. Eles voltaram para um país em que o homem que pediu a execução deles hoje é presidente. Eles voltaram para os Estados Unidos em que Fairstein, a mulher que usou seu preconceito racial para prendê-los e condená-los, hoje vive confortavelmente escrevendo livros de ficção – literalmente uma contadora de histórias.

Mesmo com a cassação da punição dos cinco, mesmo depois de reconquistarem a liberdade, esse tipo de validação e perpetuação da narrativa significou a perda da juventude para os rapazes. E o fato é que, como a presidência de Trump, não é surpresa – especialmente para negros.

Logo no começo da série, quatro dos jovens aguardam numa cela. Eles estão se encontrando pela primeira vez depois de serem presos e passarem horas sendo interrogados separadamente. Conversando sobre o ocorrido, eles percebem que foram manipulados e forçados a mentir uns sobre os outros. Quando se dão conta de que confessaram um crime que não cometeram, Kevin pergunta: “Por que estão fazendo isso conosco?”.

A resposta de Raymond resume a falta de esperança e uma verdade incômoda sobre ser negro nos Estados Unidos:

“Que outra coisa eles fariam?”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.