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29/03/2020 10:00 -03

A perda de olfato é um sintoma da covid-19?

Ministério da Saúde estuda incluir manifestação no diagnóstico de quem contraiu coronavírus. Associações médicas de otorrinolaringologia recomendam isolamento por 14 dias.

Além dos sintomas já conhecidos de covid-19, a perda de olfato tem sido apontada por médicos como um indício da doença causada pelo novo coronavírus. Associações médicas brasileiras de otorrinolaringologia recomendam isolamento por 14 dias de quem tiver esse quadro, e o Ministério da Saúde estuda incluir o sintoma no diagnóstico.

“Nosso grupo ad hoc [destinado a essa finalidade] de epidemiologistas está fazendo a análise de todos esses achados para que a gente possa ajustar às nossas definições de casos e orientações. Estamos fazendo isso conjuntamente com especialistas de todo o Brasil e do mundo”, afirmou nesta quinta-feira (26) o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira, em coletiva de imprensa.

O integrante da equipe coordenada pelo ministro Luiz Henrique Mandetta, ressaltou, contudo, que ainda não há evidências científicas sobre a perda de olfato como sintoma. “Está tendo, nesse momento, muitos artigos trazendo novos achados. Achado não é evidência. Achado é uma observação, que você constata em uma, duas ou um número muito pequeno [de casos]”, disse.

Em 22 de março, a Academia Brasileira de Rinologia (ABR) e a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) recomendaram, em nota conjunta enviada a associados, o isolamento de quem perceber a perda de olfato. 

De acordo com o otorrino Fabrizio Ricci Romano, presidente da Academia Brasileira de Rinologia, após esse período, muda a restrição, se a pessoa não apresentar outros sintomas. “Se a pessoa passou 14 dias isolada e não teve outras manifestações, não está com falta de ar, febre, teoricamente passou o período mais crítico e ela pode voltar para as atividades normais, apesar de que hoje está todo mundo num certo isolamento social. Mas ela não precisaria mais ficar 100% isolada, desde que não tenha outros sintomas. Ou seja, se não estiver tossindo, espirrando, com febre”, afirma.

As associações médicas também recomendam a suspensão do uso do chamado “corticosteroide tópico nasal” de uso crônico — remédios usados para rinite, em geral — se houver suspeita de covid-19. 

Outra recomendação é reforçar a higiene de quem faz lavagem nasal com solução salina. “O mais importante é que quando a pessoa fizer, ela tome cuidado para não contaminar outras pessoas no mesmo ambiente. Tem de fazer sozinha, de preferência, higienizar bem se usou um conta-gotas ou uma seringa, e o local onde foi feita a lavagem para que os vírus que, de repente ficaram no ambiente na hora em que ela ficou mexendo no nariz, não contaminem outras pessoas”, orienta Romano.

Andressa Anholete via Getty Images
"Como a gente está hoje pecando pelo excesso, é melhor isolar”, afirma presidente da Academia Brasileira de Rinologia, sobre pessoas com perda de olfato.

O que dizem estudos sobre covid-19 e perda de olfato?

Apesar de não haver evidências científicas, médicos têm observado casos de pacientes com covid-19 que apresentam como único sintoma a perda de olfato, principalmente associados em casos mais leves da doença. Segundo a Academia Americana de Otorrinolaringologia, nos Estados Unidos, evidências episódicas indicam que a perda ou redução do olfato e do paladar são sintomas significativos associados à doença.

No Reino Unido, a Associação Britânica de Otorrinolaringologia (Entuk) e a Sociedade Britânica de Rinologia, disseram que o número de pacientes que desenvolveram o sintoma em diferentes países é significativo.

Um dos infectados pelo vírus, o jogador de basquete Rudy Gobert, também relatou o mesmo fato. “A perda do olfato e do paladar definitivamente é um dos sintomas, não consigo sentir o cheiro de nada nos últimos quatro dias”, escreveu em seu perfil no Twitter. Ele joga pelo Utah Jazz na NBA, principal liga profissional de basquete dos Estados Unidos.

A nota das associações brasileiras, por sua vez, cita dados da Coreia do Sul e da Alemanha:

“Um recente estudo chinês (Mao e cols., 2020) reportou apenas 5,1% de anosmia [perda de olfato] nos pacientes com covid-19. Porém, evidências anedóticas de anosmia em 30% dos pacientes com covid-19 em Daegu, na Coreia do Sul, e de 2/3 dos pacientes com covid-19 em Heinsberg, na Alemanha, alertaram os médicos quanto à possibilidade da anosmia ser um sintoma de alarme para o covid-19.”

O presidente da Academia Brasileira de Rinologia ressalta que a publicação de evidências científicas robustas pode demorar e que o isolamento é uma medida de cautela, diante das lacunas de diagnóstico laboratorial no Brasil. “Como a gente está hoje pecando pelo excesso, é melhor isolar”, afirma Romano.

“O que a gente tem, principalmente, são colegas no mundo inteiro relatando vários pacientes em que a única queixa é a perda de olfato e, na hora que vão testar, dá positivo. Mas não é algo estabelecido ainda, por isso a nossa recomendação é que a pessoa se isole por uma questão de segurança. Não dá para dizer que a perda de olfato é igual a ter o diagnóstico. Do mesmo jeito que uma pessoa com febre e tosse não é certeza de que esteja com covid-19. Mas como hoje a gente não tem testes suficientes para todo mundo, a qualquer suspeita, você isola”, completa o especialista.

A escassez de testes tem levado a uma subnotificação de casos Brasil. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde neste sábado (28), havia 3.908 casos confirmados e 114 mortes. 

Na semana passada, a pasta anunciou a aquisição de 22,9 milhões de testes de dois tipos: o RT-PCR, que detecta o material genético do vírus na amostra, e o teste rápido de sorologia, que verifica os anticorpos.

A mudança na testagem é uma resposta à orientação internacional. Antes, apenas os casos mais graves, em que há indicação de internação, faziam o exame, apesar da orientação da OMS (Organização Mundial de Saúde) de testar todo caso suspeito.

Isolamento domiciliar por 14 dias

Desde 20 de março, passou a ser obrigatório o isolamento da pessoa com sintomas respiratórios e de quem residir no mesmo endereço, por, no máximo, 14 dias. A medida poderá ser determinada por prescrição médica nos postos de saúde. 

O Ministério da Saúde considera sintomas respiratórios a “apresentação de tosse seca, dor de garganta ou dificuldade respiratória, acompanhada ou não de febre, desde que seja confirmado por atestado médico”.

Cabe ao paciente informar os dados pessoais das outras pessoas com quem mora à unidade de saúde, “sujeitando-se à responsabilização civil e criminal pela omissão de fato ou prestação de informações falsas”, segundo portaria que regula o procedimento.

A prescrição médica de isolamento deverá ser acompanhada de um termo de consentimento livre e esclarecido e de um termo de declaração, contendo a relação das pessoas que residam ou trabalhem no mesmo endereço.

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