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22/11/2019 15:09 -03 | Atualizado 27/11/2019 17:01 -03

Comandante da Marinha compara óleo com torres gêmeas e diz que Brasil foi agredido

Para Almirante Ilques Barbosa, há possibilidade de "terrorismo" em navios mercantes.

MATEUS MORBECK via Getty Images
Alegando que o derramamento de óleo no oceano é uma “nova forma de ameaça”, o almirante Ilques destacou a necessidade de esforço conjunto.

Era 11 de setembro de 2001 quando os dois prédios de 417 metros de altura ― as torres gêmeas que formavam o complexo World Trade Center, em Nova York ― ruíram após serem atingidas por dois aviões em um atentado terrorista. No total, 2.753 pessoas morreram - 2.977 nos Estados Unidos naquele dia.

O Comandante da Marinha, Almirante Ilques Barbosa Júnior, comparou o fato, que ficou conhecido como um maiores dos atentados terroristas do mundo, ao derramamento de óleo que atinge a costa brasileira desde o fim de agosto. Até agora, a extensão do óleo já chegou a quase 700 locais da costa do Nordeste e, em breve, estará também em praias cariocas

“O Brasil foi vítima de uma agressão. (...) Lembra dos aviões que se chocaram contra as torres gêmeas? É uma agressão dessa magnitude”, disse o comandante em conversa com jornalistas de veículos internacionais nesta semana. 

E explicou: “O que aconteceu que não tem vigilância? Aconteceu que foi aproveitada uma situação de confiança mundial, para um acidente dessa natureza. Então, não foi uma falha. Na verdade foi um aproveitamento de uma estrutura de acompanhamento mundial que determina a informação que não foi cumprida. Não foi uma falha de um lado. Foi uma agressão do outro lado.”

Ao mencionar “confiança mundial”, o comandante Ilques referiu-se à Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios, conhecida por Marpol, de 1973, que foi acrescida de um protocolo em 1978, mas só entrou em vigor em 1983. Também aos pressupostos exigidos de todo navegante, determinados no Brasil na lei 9.966/2000, que trata sobre “prevenção, controle e fiscalização da poluição causada por lançamento de óleo e outras substâncias nocivas ou perigosas em águas sob jurisdição nacional”. 

Não pode passar impune. O cara chega aqui, joga óleo no mar e fica por isso mesmo? Não vai, não. É difícil de pegar. Como se fosse o flagrante que não consegue dar. Tem o óleo, o navio e o óleo na praia. Tem as circunstâncias, mas não tem a foto. Mas o que eu posso dizer é que a Marinha vai perseguir isso custe o que custar, o tempo que for.

Alegando que o derramamento de óleo no oceano é uma “nova forma de ameaça”, o almirante Ilques destacou a necessidade de um esforço conjunto, não apenas do Brasil, mas da comunidade internacional, para alterar o rigor com navios que não informam suas rotas. “Essa nova forma de ameaça que é importante a comunidade internacional se debruçar. O que nós vamos fazer com os navios fantasmas?” 

Elevado risco de terrorismo 

Para o almirante da Marinha, que apresentou uma estimativa de aumento da frota de navios mercantes dos atuais 80 mil por ano, segundo ele, de 340% até 2040, “é elevadíssima” a probabilidade “de acontecer uma ameaça desse tipo, ou até envolvimento terrorista”. “Se não tivermos um controle positivo desses navios mercantes, a probabilidade de acontecer uma ameaça desse tipo, ou até ou até envolvimento terrorista é muito alta. Elevadíssima”.

E prosseguiu: “O acompanhamento dos navios mercantes tem que caminhar cada vez mais para o que é feito com avião. Os aviões comerciais hoje são acompanhados. Vamos apresentar uma proposta de alteração da lei no que se refere a navios mercantes”.

Em conformidade com o discurso oficial do governo desde que se notou a chegada do óleo ao litoral brasileiro, o comandante negou falha ou demora ao agir no que ele próprio classificou como “o maior desastre ambiental em mares no Brasil” de que se tem notícia. Ao contrário, mencionou sim “carências”. 

“Poderia existir o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul. Poderia. Agora, o País sofre de carências. Na área educacional, social… As Forças Armadas, e aí também posso falar pelo Exército, o sistema de fronteiras, o Sisfron, o sistema de controle do espaço aéreo… o País, pelos seus modelos eleitos, decidiu por alocar recursos financeiros de uma maneira, e não podemos agora mudar o sistema de governança do país e dizer que só esse lado vai receber, ou só aquele outro”.

Se não tivermos um controle positivo desses navios mercantes, a probabilidade de acontecer uma ameaça desse tipo, ou até ou até envolvimento terrorista é muito alta.

Busca por respostas

As investigações, que têm sido contestadas, seguem sob jurisdição da Polícia Federal. O comandante revelou, porém, que amostras do óleo foram enviadas a um outro país - que ele não soube precisar - para fazer um contraponto ao resultado que mostra que o petróleo é de origem venezuelana. 

Ele ressaltou que várias linhas de análise estão em andamento e reforçou que o envolvimento do navio-tanque Boubolina, cuja participação tem sido amplamente rebatida, é apenas uma das frentes em avaliação.

E prometeu: “Isso não pode passar impune. O cara chega aqui, joga óleo no mar e fica por isso mesmo? Não vai, não. Isso é difícil de pegar. Como se fosse o flagrante que não consegue dar. Tem o óleo, o navio e o óleo na praia. Tem as circunstâncias, mas não tem a foto. Mas o que eu posso dizer é que a Marinha vai perseguir isso [uma resposta] custe o que custar, o tempo que for.” 

Já são mais de 80 dias de indefinições, em que nem mesmo as autoridades são capazes de prever quando e para onde as marés levarão possíveis partículas de óleo que ainda possam estar no oceano. 

Ainda na conversa com os jornalistas, o almirante Ilques Barbosa Júnior ressaltou que há um navio da Marinha em alto mar somente estudando as correntes e tentando, justamente, fazer essa previsão. 

Já se sabe, por exemplo, que a costa do Rio de Janeiro será atingida em questão de dias. Há possibilidade ainda de a foz do rio Amazonas receber óleo, bem como correntes levarem pedaços dele a águas internacionais, como as do Caribe.