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26/11/2019 01:00 -03

Óleo que chegou ao estado do Rio pode atingir capital fluminense e seguir ao Sul

O comportamento do petróleo nos vórtices, uma espécie de redemoinho formado no encontro das correntes, determinará os próximos destinos afetados.

Adriano Machado / Reuters
Militares e funcionários do Ibama monitoram vestígios de óleo na costa brasileira em centro de operações integradas em Brasília.

O óleo que chegou há quase três meses no litoral brasileiro e está na costa do Rio de Janeiro desde o fim de semana tende a avançar até, pelo menos, a praia de Cabo Frio. Contudo, não é possível descartar que ele alcance Niterói, a capital fluminense, o litoral sul e siga rumo ao estado de São Paulo. A aposta é de técnicos do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) que conhecem as características das correntes marítimas brasileiras. A Marinha alerta que, “no oceano, tudo é possível” e que “as correntes marítimas são um fenômeno aleatório”. 

“A corrente [do Brasil] ela é assim: ela desce, vai ao largo descendo, e perto de Ilhéus, ela sobe. Teoricamente, se começou a subir, não poderia descer. Mas como foi aparecer óleo em Vitória? Porque as correntes marítimas são um fenômeno aleatório. É a teoria do caos. Físicos é que têm que estudar para saber exatamente qual o algoritmo”, afirmou o comandante da Marinha, Ilques Barbosa Junior, semana passada em conversa com jornalistas da imprensa internacional. 

O Brasil tem cerca de 7,3 mil quilômetros de costa e já teve mais da metade de sua extensão atingida pelo petróleo que chegou primeiro ao Nordeste no fim de agosto e, como previsto, desceu até o Rio de Janeiro. Embora características de correntes marítimas favoreçam o afastamento de eventuais partículas de óleo ainda presentes no oceano do litoral depois de Cabo Frio, não há como garantir que outros estados não serão afetados, disseram ao HuffPost técnicos do Ibama. 

Como atuam as correntes marítimas

A parte Nordeste da costa do País é influenciada pela corrente do Brasil, de águas quentes. Na altura de Cabo Frio e Arraial do Cabo, ela se encontra com outra corrente, a das Malvinas, fria. As correntes associadas à rotação terrestre e aos ventos fazem que na região ocorra um fenômeno conhecido como ressurgência, também chamado de afloramento. É quando águas profundas e ricas em nutrientes que só existem no fundo do mar sobem. É por isso que a região é um grande berço de peixes. Daí porque a chegada do petróleo é mais um alerta ambiental, além de turístico, econômico e de saúde. 

O que acontece quando as correntes se encontram é uma espécie de redemoinho, uma espiral, em que óleo pode estar aprisionado, mas partículas dele podem se soltar.

“Há navio da Marinha nos vórtices e corredores para saber qual modelagem tem, para saber quanto de óleo veio e quando virá. Essa é a resposta mais importante de todas. Tem algum óleo aprisionado em vórtices? Se tem, quanto? E se tem, quando chegará e quanto?”, contou ainda o comandante Ilques Barbosa Junior. 

Acontece que, ao se soltar dos vórtices, nada garante que as partículas de óleo seguirão de volta para a corrente do Brasil e não para a das Malvinas, a que passa a ladear a costa de Arraial do Cabo até o Sul do País. Foi o que técnicos do Ibama ponderaram ao HuffPost. 

A empresa de meteorologia Met Sul argumentou ainda que a corrente do Brasil costuma chegar ao Sul no verão, o que aumenta ainda mais as chances de chegada do óleo na região. 

Em seu discurso oficial, porém, o governo Bolsonaro evita alardear a possibilidade de que, sim, o petróleo pode atingir as praias após Arraial do Cabo, como Saquarema, passando por Niterói, pela capital fluminense, com Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca, entre as mais famosas do Rio, e de lá ao litoral Sul, com Mangaratiba e Angra dos Reis, e até mesmo chegar ao litoral paulista e ao restante do País.  

Conforme o HuffPost mostrou, a possibilidade de até mesmo a foz do rio Amazonas ser afetada não está descartada pela Marinha, disse o almirante Ilques.

Faltam respostas

Já são quase três meses sem respostas claras. Relatório do Ibama desta segunda-feira (25) aponta um total de 772 locais afetados, em 124 municípios, de 11 estados. 

Até o momento no estado do Rio, segundo a Marinha, foram recolhidas pequenas amostras de óleo nas praias de Grussaí, em São João da Barra, de Santa Clara e Guriri, em São Francisco de Itabapoana; e na praia do Barreto, em Macaé. No Canal das Flechas, em Quissamã, foi recolhido aproximadamente um quilo de resíduo de óleo. O material foi encaminhado para análise no Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira, em Arraial do Cabo, para confirmar se trata-se do mesmo petróleo recolhido no Nordeste e no Espírito Santo.

As investigações da Polícia Federal colocaram como principal suspeito o navio-tanque grego Boubolina, que foi da Venezela à África do Sul e passou pela costa brasileira. Contudo, os apontamentos vêm sendo colocados sob suspeita. A Marinha afirma que essa é apenas uma das linhas seguidas pelos investigadores.

No sábado (23), após o óleo chegar à costa fluminese o presidente Jair Bolsonaro voltou a ressaltar a imprevisibilidade da situação. “Nós gostaríamos muito que fosse identificado quem cometeu, no meu entender, esse ato criminoso. Nós não sabemos quanto de óleo ainda tem no mar. Na pior hipótese, um petroleiro, caso tenha jogado no mar toda a sua carga, menos de 10% chegou na nossa costa ainda. Então, nos preparemos para o pior. Pedimos a Deus que isso não aconteça.”